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Professora da UFMG lança livro sobre o Jardim Zoológico de BH

No novo volume da coleção sobre a capital mineira, Regina Horta Duarte revisita a memória e as transformações vividas pelo local

A professora Regina Horta Duarte, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), lançou no último sábado, 13 de dezembro, o livro Jardim Zoológico (Conceito Editorial), no qual reflete sobre a trajetória do equipamento municipal e as disputas vividas sobre qual deve ser a sua natureza. De um lado, a ideia do zoológico como mero espaço de entretenimento e lazer popular em torno do exótico; de outro, uma verdadeira instituição de pesquisa acadêmica, educação ambiental e conservação da vida silvestre.

No livro, a autora – que é uma especialista na história dos animais e frequentadora antiga do espaço – entremeia memória pessoal e investigação documental. “Minha lembrança infantil mais forte do zoológico é a de um passeio alegre ao lado do meu pai. Ali, foi aguçada minha sensibilidade e curiosidade em relação aos animais. Não me lembro de sentir incômodo pelas más condições então predominantes. Mas me recordo do mau cheiro que invadia minhas narinas quando me aproximava das jaulas, e hoje penso como o zoológico deveria ser, naquele tempo, um local insalubre”, lembra a autora.

Lugar de pesquisa
Fundado em 1959 e instalado às margens da Lagoa da Pampulha, o Jardim Zoológico de Belo Horizonte de fato sempre foi um equipamento público importante no cotidiano da população da cidade, mas também muito criticado – com e sem razão – por defensores da causa animal. Atualmente, ocupa cerca de 1,4 milhão de metros quadrados, onde abriga mais de 3 mil animais de cerca de 250 espécies, entre mamíferos, répteis, aves, peixes e anfíbios, além de manter setores especializados para o manejo e a preservação de espécies vegetais nativas e exóticas.

Nesse contexto, o livro de Regina Horta busca aproximar o leitor de rotinas pouco conhecidas, como a preparação das dietas dos animais pelos funcionários, o acompanhamento diário de gorilas, répteis, aves, lobos-guará e elefantes; a pesquisa desenvolvida por veterinários e biólogos do Zoológico e da Escola de Veterinária da UFMG no local; e o recebimento de animais resgatados do tráfico, muitos deles impossibilitados de retornarem imediatamente à natureza. Esses animais recebem os primeiros cuidados justamente no hospital veterinário desse equipamento municipal.

“Como historiadora, o que mais me fascinou foi descobrir o Zoológico como lugar de pesquisa. Essa é uma instituição parceira para ações de conservação frente à destruição da vida silvestre. Então, estamos falando de um lugar que convida as pessoas a conhecerem melhor a vida silvestre e a agirem de forma mais efetiva em sua defesa”, afirma Regina, desmistificando a ideia do Zoológico como ambiente apenas da privação de liberdade animal. Sob essa perspectiva, seu livro também revela cenas singulares observadas em visitas e documentos, como a interação entre animais e tratadores, em seus laços afetivos.

Intervenção técnico-política
O envolvimento da autora com o tema é antigo. Há três anos, por exemplo, Regina Horta e colegas da Escola de Veterinária publicaram no Portal UFMG um artigo criticando o processo de concessão da gestão, operação e manutenção do Zoológico aberto pela Prefeitura de Belo Horizonte naquele ano. Segundo os autores, a concessão, no formato que se propunha na época, entre outros problemas, transformaria o entretenimento em atividade prioritária do Zoológico, “com prejuízo das atividades cruciais de educação ambiental, pesquisa e conservação da fauna e da flora”.

No artigo, Regina e seus colegas da Veterinária explicaram que, “segundo a concepção contemporânea, zoológicos devem necessariamente sustentar-se sobre um tripé formado por educação ambiental, pesquisa e conservação”, e que “o entretenimento e lazer associados à exibição de animais surgem como função necessariamente subordinada ao tripé fundador”. Nesse sentido, o entretenimento e o lazer não poderiam se sobrepor a esse tripé. Além disso, os professores criticavam os altos custos dos ingressos previstos como consequência da concessão, lembrando que o Zoológico sempre foi um local de lazer para famílias de baixa renda.

Remetida como uma consulta crítica ao processo de concessão, a intervenção dos professores motivou uma manifestação da Prefeitura, que, em resposta, afirmou que os pontos trazidos pelo documento seriam “considerados para o aperfeiçoamento do projeto” e que se estava, como resposta à intervenção dos especialistas, estudando a criação de uma cláusula contratual obrigando a alocação de um percentual das receitas para atividades de pesquisa, conservação e educação, “garantindo que esse tripé seja fortalecido”. Ao fim do processo, a concessão do Zoológico acabou não recebendo nenhuma proposta de empresas. Hoje o equipamento segue sendo gerido pela Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica da Prefeitura de Belo Horizonte.

A coleção, seus livros e autores
Professora do Departamento de História da Fafich, Regina Horta Duarte nasceu e cresceu em Belo Horizonte. Na UFMG, paralelamente à sua atividade docente, coordena o grupo de pesquisa Centro de Estudos dos Animais (CEA). Como pesquisadora, é especializada em história e natureza, história da biologia e história dos animais, além de pesquisar também a história do Brasil República, de modo geral.

O último livro que Regina publicou antes de Jardim Zoológico foi o volume Genealogia dos zoológicos na América Latina: civilização, ciência e sensibilidades (1875-1939) (Fino Traço, 2024), no qual discute a diversidade de propostas dos zoológicos construídos na região na segunda metade do século 19 e na primeira metade do século 20. Disponível para compra em lojas virtuais, o livro também pode ser baixado gratuitamente no site da editora, em sua versão digital.

Regina é autora também de História & natureza (Editora Autêntica, 2007), Cidade Universitária da UFMG: história e natureza (Editora UFMG, 2009, em coorganização com Heloisa Starling) e A biologia militante: o Museu Nacional, especialização científica, divulgação do conhecimento e práticas políticas no Brasil – 1926-1945 (Editora UFMG, 2010).

Jardim Zoológico é a 42ª obra da coleção BH. A cidade de cada um, que completou duas décadas de existência no ano passado. Idealizada pelos jornalistas José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião, a série se vale do discurso literário para narrar a história das grandes referências afetivas urbanas – bairros, praças, escolas, monumentos, edificações – dos moradores da capital mineira.

Livro: Jardim Zoológico

Autora: Regina Horta Duarte

Editora: Conceito Editorial (Coleção BH. A cidade de cada um)

R$ 50 / 96 páginas

Foto: Lara-Pimenta

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