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O sentido político do Natal por Marcos Fabrício
O Natal, em países cristãos como o Brasil, se impôs como costume a quase todo mundo. O nascimento de Jesus, a simbologia da esperança na redenção, a imagem de uma família pobre, reunida em torno da fé, são fundadores de uma religião que ganhou organização, expandindo-se em número de fiéis e de proximidade com o poder. Por isso é festa que domina o cenário da época no mundo ocidental. Tornou-se feriado, dia de confraternização e sinônimo de encontro e convivência entre familiares e amigos. Tornou-se a data mais importante do cristianismo que se encontra, porém, às voltas com uma complexa aglutinação de sentidos, que arrastam o símbolo cristão para a exploração comercial e emocional.
O Papa Júlio I, no século 4, estabeleceu, por falta de referências nos textos bíblicos, que o dia 25 de dezembro seria considerado o do nascimento de Jesus Cristo. Entretanto, alguns consideram que o Natal tenha suas origens no Hemisfério Norte, em cultos pagãos de adoração ao Sol, que comemoravam sua volta, após ruim período de noites longas e frias. No dia 25 de dezembro celebra-se a chegada da luz, que, para os nórdicos, significa a chegada do sol e, para todo a cristandade, o nascimento de Cristo, cujos ensinamentos, carregados de amor, deveriam nortear a vida de todos nós. Nos tempos da Roma antiga, a festa de Natal era um evento pagão: a comemoração da colheita. Daí advém o costume de dar e receber presentes. Chamava-se Natalis solis invicti (“aniversário do Sol invicto”). Na medida em que o cristianismo foi dominando o Império Romano, infiltrando ideias e impondo procedimentos, a celebração ganhou outra dimensão. Maior. Passou a ser a comemoração do nascimento de Jesus.
O costume de dar e receber presentes permaneceu. Mas a ideia de promover a paz entre os homens é preocupação mais recente. A troca de gentilezas e lembranças no dia 25 de dezembro não desfez o espírito do Natal. Persiste sendo um festa da família, da congregação de esforços e da busca de ideais comuns, despidos de vaidades e preconceitos. A humildade é qualidade intrínseca para desfrutar da boa convivência. O espírito de Natal sobrevive apesar dos atropelos da globalização e do consumismo delirante. O homem é um animal solitário. Precisa de companhia. De amigos, filhos, irmãos. Carece de uma indicação segura ou necessita que alguém indique caminhos, mostre atalhos e o conduza à reflexão nos momentos devidos. O Natal inspira tudo isso. Não à toa, a Vinda de Cristo ao mundo já se justificaria por um de seus ensinamentos: ‘‘Amai ao próximo como a si mesmo’’.
Jesus foi um rebelde. Um inconformado. Um revolucionário. Era judeu. Em suas pregações evangélicas, cercou-se de pobres, prostitutas e marginalizados. Assustou o poder estabelecido, foi condenado à pena de morte e executado há 2 mil anos pelas mãos daqueles a quem havia criticado. Jesus simboliza o amor. Infelizmente, o Natal está se resumindo, quando muito, à entrega de presentes, aos amigos ocultos, aos passeios frenéticos pelos shoppings; para os pobres, nem isso. Nesse contexto, Papai Noel parece gozar de maior cartaz diante do Menino Jesus. O espírito natalino vem sendo fragilizado, de forma crescente, pela desintegração das famílias, pelas dificuldades econômicas, pelo consumismo, pelo desemprego e pela violência.
Em um país que menospreza a educação e a cultura, a brutalidade ofusca a gentileza. É a agressividade e não a polidez que caracteriza o brasileiro como homem cordial. “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!” – alerta Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas (1956), livro de Guimarães Rosa (1908-1967). Na era dos extremos, deixamos de zelar e compreender para somente vigiar e punir. Diante desse contexto problemático, a voz poética de Wélcio de Toledo, em Toga, pergunta: “será deus/um ser/de capa preta?/um bosta de toga/borra botas/de despachos e/amarrações/malfeitas/serpente de duas cabeças/a se fartar com migalhas/deixadas pelo capeta?” (Tudo que não cabe no poema, 2019).
O fundamentalista defende agressivamente sua verdade de fé cristalizada e imutável, fechada em sua própria auto interpretação doutrinária. O mais nefasto efeito do fundamentalismo econômico é, de um lado, a acumulação privada e, de outro, a exclusão social. A exclusão reforça as vias criminosas de acesso ao dinheiro e ao fetiche das mercadorias. A volúpia de lucro das nações ricas e de suas corporações aumenta, dia a dia, a miséria no mundo e destrói as esperanças de desenvolvimento de países antes promissores, jogando-os no buraco sem fim das dívidas impagáveis. Em termos de liberdade, igualdade e fraternidade, precisamos recuperar o sentido político de Jesus para evocar o melhor de nós. Para tanto, como cantam Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede: “Vamos tirar Jesus da cruz” (Jesus, 2004).
Jesus imprimiu outra ótica ao poder. Para ele, não se trata de função de mando, e sim de serviço. É o que afirma em Lucas 22, 24-27: “Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve. (…) Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve!”. Jesus deu o exemplo ao afirmar que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10, 41-45). A quem portanto deve servir o poder em uma sociedade desigual e injusta? À libertação dos pobres, respondeu Jesus, à cura dos doentes, ao acolhimento dos excluídos. Este é o serviço por excelência dos poderosos: libertar o oprimido, e fazer com que ele também tenha poder. O poder é uma prerrogativa política fundamental para o serviço do próximo e da coletividade.
Foto: Divulgação
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