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Álvaro Lancellotti - Lançamento do CD “Canto de Marajó” + Mãeana - Lançamento do DVD “Mãeana no MAM”
ALVARO LANCELLOTTI
Abre aspas: Macumba romântica - fecha aspas. Se fosse possível classificar canções, ou se fosse ainda necessário criar nossas próprias prateleiras, seria nessa que o novo disco de Alvaro Lancellotti, o segundo solo gravado em estúdio - lançado em todas as plataformas digitais e com shows nos dias 28 e 29 no Oi Futuro Ipanema, no Festival Levada (RJ) -, repousaria. Mas não sem antes transitar por outras. Tocando no samba moderno ou ecoando o que se convencionou chamar de nova música brasileira, entre as batidas percussivas de Adriano Sampaio, as eletrônicas de Domenico Lancellotti, o violão de Pedro Costa e o baixo de Daniel Medeiros, Alvinho entoa um canto mântrico, um canto embarcação. Com ele, o cantor e compositor abre caminhos em mares ora míticos, ora reais ao longo das onze canções compostas por ele, duas em parceria com o irmão Domenico. Carioquizando “afro-sambas”, coreografando novas poéticas ou intuindo religiosidades, “Canto de marajó” apresenta o tempo da canção de Alvaro, um tempo próprio de Alvinho. Gravado em parte na serra de Petrópolis (no Estúdio Aldeia), em parte em Copacabana (no Estúdio 707), o disco, entre os arpejos do artista, os estúdios de gravação e sua mixagem final, maturou por quase dois anos até ganhar arte de Alexandre Fischer sobre o trabalho do artista uruguaio Carlos Paes Vilaró, a sereia hoje tatuada no braço do artista.
Durante o navegar, o mar sonoro de Alvaro Lancellotti se expandiu. Suas canções ralentadas, de andamento suave, ganharam mais calor e força. O artista, que quase uma década atrás fundou a banda Fino Coletivo e se viu, sendo parceiro ou sendo gravado, entre artistas como Roque Ferreira, Maria Rita, Momo, Marcos Valle, Wado e cia, encorpou o samba pé descalço de sua estreia solo. Azulejou canções como “Balé”, “Canto de marajó” ou “Para voltar”. Em outras, como “Vejo” - uma das primeiras que Alvinho se permitiu fazer sem violão -, deixou surgir um erotismo delicado respirando entre o maculelê-funk carioca que embala a canção. O ritmo, aliás, entranhado no garoto que subia e descia o morro no Leme em bailes dias sim, dias também, nos anos 90, corta de cerol fino a melodia de faixas como “Vejo”, “Marejou” ou “Nossa horta / Merinha”, a última, uma pequena crônica de Merinha, moradora de rua do Leme, figura que marcou a infância e adolescência do compositor - costurando retalhos na rua, a mulher negra vivia a praguejar homens que imaginava responsáveis por seu despejo e pela morte de seu filho. O amor entre dois também ganhou espaço em sua crônica, na letra-conversa cotidiana de “Dia a dia”, que conta com voz e sotaque da sergipana Sandyalê.
Em “Canto de marajó”, Alvaro mergulha em mantras, giras, pontos e batuques para aprofundar sua música. Com o corpo inteiro no mar, o disco revela um artista em movimento, como numa travessia, um percurso de barca. Mas balanço e ritmo parecem somente um complemento para as canções. O canto de Alvinho predomina, como guia, em tom ritualístico forte e embalado, e junto da percussão - já marcada por Adriano Sampaio, e agora reforçada pela presença (e o presente, o hoje) de Domenico, com bateria e MPC - carrega o disco mar adentro. Nesse sentido, Alvinho parece apenas deixar seu violão flutuar na água enquanto marca seu lugar onde quebram as ondas. “É bonito, é bonito”.
MÃEANA
Mãeana apresenta o show baseado no registro do DVD “Mãeana no MAM”. E sobe no palco acompanhada por uma banda formada por Bem Gil (violão, guitarra e direção musical), Domenico Lacellotti (bateria e percussão), Bruno Di Lullo (baixo) e Mestrinho (acordeom). O cenário é assinado pela própria artista e complementado pelos efeitos especiais de Marc Kraus.
“De mãeana muito já se falou. Da beleza de seu canto límpido, da forte identidade visual e suas escolhas originais de repertório. Pois agora é hora de celebrar e reafirmar tudo isso. Neste seu primeiro DVD "Mãeana no MAM", que nos atinge de imediato com todas essas qualidades irmanadas numa menina que não padece das urgências de muitas de suas companheiras de ofício (que fazem escolhas imperfeitas em nome do sucesso, esse senhor que chega tão rápido e parte sem dizer adeus).
Tento evitar mas me sinto impelido, já aqui no segundo parágrafo, a escrever esse texto na primeira pessoa por todos os motivos. Ana me foi apresentada através de sua banda Tono, que chegou ao mercado cheia de personalidade e com ótimas canções. Bendita entre os rapazes, ela parecia recusar o centro do palco, fato ignorado ao final dos shows por todos os espectadores, que saiam deslumbrados com aquela figura tímida espalhafatosa tentando sair do foco, ao mesmo tempo que transformava um velho LP em chapéu.
Em seguida, fiz o convite para participarem de um tributo ao compositor Cazuza com a canção "Amor, Amor" e, já nos primeiros acordes (em todas as audições) o impacto daquela voz virava tema principal do disco. Fui para as redes sociais proclamar e celebrar essa chegada e não tardou eu receber um telefonema de Ana me convidando a lançar (pelo meu selo Joia Moderna) seu aguardado primeiro álbum "mãeana". E nunca mais tive sossego.
Jornalistas impactados, ouvintes deslumbrados e a pergunta inevitável: quando acontecerá o show? E ele aconteceu. Muitas vezes, em muitas capitais, sempre surpreendendo desavisados e comovendo os já apegados às faixas do disco. Numa dessas noites, na Serralheria, espaço dedicado à cena independente em São Paulo, estava na plateia João Turchi, um dos curadores do MAM, que me pediu para levar Ana até ele no dia seguinte para agendar uma apresentação no museu, por conta da ligação explícita do projeto mãeana com as artes plásticas.
E assim aconteceram duas noites históricas/ encantadas com uma plateia seduzida pelo canto da sereia e surpreendida visualmente com a cenografia (chamada por mim de gruta amorosa), de onde surgiam seres etéreos que podiam cantar ou simplesmente interagir amorosamente com ela, como as crianças que insistiam deliciosamente em invadir o palco. Agora, aqui no meu canto, assistindo a esse DVD (a mais completa tradução daquele momento), a emoção é grande. Por isso, mais não quero falar. Mãeana é coisa poderosa, enigmática. Aperte o play e delire.
Mistério sempre há de pintar por aí.
Foto: Divulgação
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