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Lançamento livro “A casa é o corpo” - Fotos e relatos de mulheres vítimas de violência doméstica

Assinado pela fotógrafa Luciana Castro, obra reúne 39 fotografias e relatos de mulheres que sofreram violência doméstica

No dia 25 de novembro, sexta-feira, a fotógrafa Luciana Castro lança o livro “A casa é o corpo”, durante o ato “5 faces da violência contra mulher” que marca, em Belo Horizonte, a data internacional de eliminação da violência contra a mulher. A obra reúne fotos e relatos em primeira pessoa de seis mulheres vítimas de violência doméstica. Os registros foram realizados entre julho de 2020 e março de 2021, período em que houve aumento no número de casos de agressão contra mulher dentro de casa, em todo país. O lançamento acontece na Praça Sete – Rua Rio de janeiro, a partir das 17h30, com a presença da autora e das mulheres participantes do livro, em bate-papo aberto ao público. O livro será distribuído a bibliotecas e instituições voltadas para o acolhimento da mulher e ficará disponível gratuitamente no site:http://www.lucianacastro.com/a-casa-e-o-corpo/. Este projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

No Brasil, durante a primeira fase da pandemia da COVID-19, os números de agressões a mulheres, na rua, caíram 10%. Em compensação, os casos de violência doméstica subiram em relação a 2019: passaram de 42% para 48,5%, segundo Instituto Datafolha. Na época, a fotógrafa Luciana Castro – que trabalha com fotografia documental nas áreas de direitos humanos, meio ambiente e família - foi impactada pelos noticiários. “Um momento em que toda a sociedade estava temerosa de sair de casa, muitas mulheres temiam em permanecer em casa. Nesse caso, pra onde ir?”. A partir desta pergunta, inicia uma pesquisa sobre o tema.

Durante seus estudos, chamam a atenção da artista os tipos de abordagem em matérias e campanhas de conscientização. “Em sua maioria, imagens de mulheres fragilizadas, com o rosto coberto com as mãos”, descreve. A partir de então, Luciana começa a buscar outras referências e formas de contar essas histórias. “Após se desvincular do agressor, passado o momento de maior fragilidade, quem as escuta? Qual o novo caminho que essas mulheres conseguem traçar?”, pondera.

Em suas pesquisas, a fotógrafa toma consciência, de que situações como essas não são tão distantes de sua realidade. “No decorrer do trabalho, percebo isso ao ouvir a história de minha avó materna”. Luciana conta que já conhecia por alto, a partir de comentários de parentes, mas nunca tinha conversado diretamente com a matriarca sobre o assunto. “Ela me contou detalhes de sua vida com meu avô. Tive nova percepção da relação da minha mãe com minha avó e minha com minha mãe. Foi a primeira vez que percebi que também sofri com essas consequências. A violência doméstica pode ultrapassar gerações”, reflete.

Para chegar às mulheres do livro, a fotógrafa enviou um convite de sua conta pessoal do Instagram para instituições que trabalham com o acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica, mas já desvinculadas do agressor. Cinco mulheres responderam com desejo de dividir suas histórias. “Eu me sinto muito honrada por terem confiado em compartilhar algo tão íntimo. Este trabalho não poderia ser apenas a história da minha avó. São milhões de mulheres que vivenciam a violência doméstica todos os dias”, afirma.

O título “A casa é o corpo” é inspirado no texto "A poética do espaço" de Gaston Bachelard. “Ele diz que quando aprendemos a habitar uma casa, aprendemos a habitar nosso interior e que a casa nos permite sonhar em paz”. Inspirada nos escritos do filósofo, a artista procura registrar, no encontro com as mulheres, a relação delas com o novo local que passam a habitar após se desvincularem do agressor. “Uma relação com essa propriedade privada que seria a casa. Ou seria o corpo da mulher? As relações de violência ocorrem onde ninguém mais pode entrar. O agressor se sente à vontade para transitar, enquanto a vítima não tem para onde ir”, explica.

O livro possui registro de 39 fotografias que revelam o interior da casa e o universo de seis mulheres. Apenas uma delas ainda mora onde viveu com seu agressor, mas não convive mais com ele. “Cada fotografia representa um pouco da personalidade delas, da história delas, uma história que é construída com passado e presente”, diz.

Segundo Luciana, era para o livro ser apenas de fotos. Mas durante o processo, a fotógrafa em conversas com a editora do livro Carolina Fenati (Ed. Chão de Feira) percebe a importância de partilhar, com os leitores, os relatos das mulheres escritos na primeira pessoa. “O fato da mídia divulgar casos de violência doméstica contra a mulher é de extrema importância para informar e conscientizar a população. Porém, explora apenas o crime em si, numa narrativa em terceira pessoa. Sinto que as mulheres têm muito a dizer, mas não são ouvidas”, contextualiza.

Durante o livro, os relatos são assinados com a inicial do nome de cada mulher e o ano de nascimento. Para Luciana castro, a obra é um convite para o leitor entrar, escutar e refletir sobre qual é o seu papel dentro dessa história. “Eu nunca vivi uma situação de violência doméstica. Mas sei que são marcas que permanecem dentro de cada uma de forma muito íntima. De tudo o que ouvi neste trabalho, histórias de violência e abuso na infância, ou relações abusivas, algumas por pouco tempo, outras que chegam a durar mais de 20 anos, percebo que mesmo aquelas mulheres que se consideram esclarecidas e que dizem, ao primeiro sinal de agressividade, terminar a relação, não estão isentas de viver isso, pois vivemos em uma sociedade machista construída pelo patriarcado”, acredita.

O projeto “A casa é o corpo” foi inteiramente idealizado e executado por mulheres. Segundo Luciana, o maior estímulo desse trabalho para toda equipe é sem dúvida contribuir para a causa. “Se este livro puder contribuir de alguma forma com as mulheres que participaram com suas histórias; se puder chegar às mãos de homens que reflitam sobre seu papel dentro do ciclo de perpetuação da violência doméstica; se puder ser acessado por mulheres que estejam passando por algum tipo de violência e que possa encorajá-las a buscar ajuda; se puder chegar até pessoas que costumam culpabilizar a vítima, se puder estimular outros trabalhos dentro das artes visuais, enfim, se qualquer um desses objetivos puder ser alcançado, acredito que todas as envolvidas neste projeto se sentirão realizadas”, conclui.

SERVIÇO: Lançamento de livro “A Casa é o corpo”
25 de novembro, sexta – 17h30
Praça Sete – Rua Rio de Janeiro
*Dentro da programação do Ato: 5 faces da violência contra mulher, organizado pelo coletivo 8M Unificado RMBH

Foto: Divulgação

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