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CONFLITO DE GERAÇÕES E MATRIARCADO SÃO DESTAQUE DO FILME “NÃO SEI QUAL CIDADE SE PASSA AOS OLHOS DELE”
Após exibição em Portugal e circulação por festivais brasileiros, a obra, ainda inédita em Minas, tem a presença dos artistas mineiros Evandro Passos, Sérgio Pererê e Marcus Liberato.
Uma família se desloca do Rio de Janeiro para São Gonçalo do Rio das Pedras (MG). O pai quer fazer um curta com seu filho que, por sua vez, deseja mesmo é fazer seu próprio filme, de um celular. Esse conflito se torna o fio condutor da trama de “Não sei qual cidade se passa aos olhos dele” que tem única exibição no dia 1º de dezembro, domingo, no MIS Santa Tereza (Museu de Imagem e Som), às 17h, seguido de inauguração da exposição fotográfica “Ilídia” da artista Paula Melo, aberta até 31 de dezembro, e de roda de conversa com o multiartista Evandro Passos. A entrada é gratuita com senhas distribuídas até 30 minutos antes da sessão. Duração: 74 minutos. Classificação indicativa: livre. Gênero: experimental/documentário.
Dirigido por Thaís Inácio - mineira atuante na cena audiovisual carioca -, em parceria com o performer estreante João Mendonça (de apenas 5 anos de idade, na época), a obra tem como referência trabalhos de Claire Denis, Béla Tarr e Carlos Nader. Corealização dos coletivos Cia Banquete Cultural, Xique Xique Neon e 01010101, o filme toca em temas como família, afeto, conflito de gerações e matriarcado. “O filme foi realizado sem nenhum tipo de financiamento de incentivo fiscal. Produzir cinema independente no Brasil de hoje, considerando a situação da Ancine, define uma outra forma de fazer, comprometida com uma estética de resistência. Quando a gente se propõe a experimentar, acho importante que a gente se questione sobre o orçamento, isso é uma questão política”, explica a montadora.
O PROCESSO
Todo o processo de criação, desde a pesquisa de campo, preparação do elenco até as gravações, aconteceu em 2015. Na época, Thaís Inácio e o ator e roteirista Jean Mendonça ensaiavam um novo trabalho da Cia Banquete Cultural chamado “Áurea, a lei da Velha Senhora”, que tinha como proposta a contracena do elenco com um curta metragem durante o espetáculo. A locação escolhida para as filmagens foi o Quilombo de Vila Nova, que deu origem ao povoado de São Gonçalo do Rio das Pedras (MG). Lá a equipe captaria as imagens para o “Negrinho”, protagonizado por João Mendonça, filho de Jean. “Inicialmente a ideia era só um curta. Chegando lá no Quilombo, nos deparamos com a riqueza do lugar, os habitantes, Dona Ilídia, moradora de 100 anos. Entendemos que seria ali o set de filmagem e que o roteiro naturalmente sofreria alterações”, conta Jean Mendonça.
Na segunda ida ao Quilombo, Jean Mendonça, o pequeno João e a sua mãe, Adriani, chegaram antes da equipe de filmagem. “Como mãe e filho atuariam juntos, eu queria que, especialmente João, até por ser muito pequeno, experimentasse uma vivência no lugar, um encontro com suas origens mineiras. Queria que ficasse misturado à gente do quilombo, que circulasse com liberdade na casa da centenária ilídia”, lembra Jean Mendonça, que é de Minas mas reside desde 2003 no Rio de Janeiro, onde nasceu o filho João.
Thaís acrescenta que o roteiro original do curta, escrito por Jean, contava a história de morte do personagem Negrinho, que durante a preparação para as gravações tomou outro rumo: “desde as primeiras filmagens, o menino João se recusava a gravar e propunha novas cenas com seu celular”. Segundo a diretora, as imagens captadas falavam mais da vida e sua potência, da presença, do que da morte e da ausência de “Negrinho”. O embate entre o desejo dos coletivos de artistas em realizar o filme e a resistência de João começava a dar pistas para o longa. “Assumimos o risco e buscamos algo que possibilitasse criar junto com João, sem ele perceber. Ele parecia avesso às ordens. Para deixá-lo à vontade o convidamos para definir planos e movimentos de imagem. O objeto celular performa no filme assim, uma conexão entre João e o espectador, é nele que o menino ensaia seu próprio olhar”, explica.
NARRATIVA
A narrativa de “Não sei qual cidade se passa aos olhos dele” é conduzida pela fricção entre o campo ficcional, com cenas planejadas, e pela escuta atenta aos espaços, abertos por personagens performados pelos próprios moradores, as casas-cenários, as ruas e a estrada, crianças brincando na natureza, os corpos dançantes, as histórias contadas em roda, a paisagem de sons vindos de São Gonçalo. O espectador é surpreendido por planos e movimentos captados do celular. “Com as gravações e depois na montagem, passamos a compreender os hibridismos do filme. Exploramos planos sensoriais com o celular como a água da cachoeira, um pote de purpurina ou a corrida na mata, que apareciam como imersões no pensamento do menino com o lugar. Conexões produzidas pelo ponto de vista do menino João, que se impressiona e tem tempo de se ‘distrair’ aos detalhes ”, explica Thaís.
Os muitos anos que separam João (5) e Dona Ilídia (100) também se tornaram material para o roteiro. Ambos experimentam pela primeira vez o exercício de atuar. No filme, eles vivem o papel de Negrinho e da Bisa. O encontro de gerações fortalece, na obra, o tema da família e do afeto. A presença feminina, em diversas cenas, também foi uma opção da direção. “Procurei reforçar o protagonismo das mulheres da cidade na relação de João com Adriani, sua mãe na cena e na vida, nos corpos das meninas que dançam, nas mulheres da família Santos, moradoras do Quilombo de Vila Nova, que são ouvidas em como participaram da construção da cidade, na performance irreparável da matriarca Dona Ilídia”, conta.
“Quando a conheci, foi afeto”, lembra a diretora de fotografia Paula Melo sobre o encontro com a matriarca Ilídia, que acabou rendendo material para exposição fotográfica. O trabalho reúne uma seleção de registros da centenária de 2015 a 2018, que revela o cotidiano e as tradições da moradora mais antiga do Quilombo Vila Nova. “Transcrever dona Ilídia por imagens é algo complexo. Fotografá-la demanda tempo. Aos 100 anos de idade, para perceber tudo o que sua figura carrega, é necessária uma certa calma, adequada ao seu próprio tempo”. Atualmente, com 104 anos, a velha senhora, filha de negros escravizados, já foi tropeira, parteira. “Existe nela uma sabedoria própria de quem aprende a vida pela experiência. O seu saber é único, e para percebê-lo é preciso olhar nos olhos”, acrescenta.
Outros personagens foram incorporados à trama do filme. Alguns deles já faziam parte do espetáculo teatral como o preparador de dança afro Evandro Passos, que transita em várias cenas e que facilitou o encontro da equipe com o Quilombo. “Minha história com Vila Nova começou há 25 anos, quando iniciei as oficinas de Danças Afro Brasileiras no Festival de Férias, em São Gonçalo do Rio das Pedras. Essa obra é necessária no sentido de ir na contramão desse movimento que ainda existe, em pleno século XXI, de invisibilizar o povo negro, que quer ser ouvido, escutado”, defende o ator e bailarino.
O ator e músico Sério Pererê, preparador musical da peça, também foi escalado para uma participação especial em “Não sei qual cidade se passa aos olhos dele”. O artista mineiro conta que possui uma história anterior com a região: “ali veio muita gente do Congo, muita gente de Angola e lá tinha, na região próxima de Quartéis de Indaiá, uma herança muito forte que são os Vissungos. Eu trabalhei um tempo com os cantadores de Vissungo, que me ensinaram a cantar esses cantos, que influenciaram minha música muito inclusive”, afirma.
Os atores da peça Cláudia Barbot e Marcus Liberato também estão no filme. Cláudia tem cenas com a mãe de João, Adriani. Já Marcus, com única aparição, traz para o filme um traço fantástico e que escapa à realidade do menino João. Ele surge na mata, em dois planos rápidos, como uma premonição e proteção. “ (Vila Nova) foi o segundo quilombo que eu conheci. Eu conheço outro no Alto Leblon, no Rio, mas daquela forma de ver, com uma família inteira ali contando a história deles, foi a primeira vez. Cada família tem o seu chefe ou a sua chefe nos dias de hoje. Naquela época também já existia família coordenada por mulheres. Então, o que difere a família do filme das outras é essa questão da ancestralidade, da cultura, da raiz, essa questão da posição do negro tão presente”, reflete.
Foto:Paula Melo
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