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Escritora de BH finalista do Prêmio Jabuti realiza projeto de literatura em presídio feminino na capital
Nayara Noronha foi indicada por sua obra “Filha” na categoria “Escritor estreante”
Luto, relações geracionais entre mulheres e memória familiar são alguns dos principais temas que atravessam “Filha”, publicado pela editora 7Letras, da romancista Nayara Noronha, finalista do Prêmio Jabuti 2023. Uma mãe, uma filha e um bebê que não vingou. Diante de tamanha brutalidade, mãe e filha vivenciam lutos distintos que se misturam enquanto acalentam suas dores.“São temas que me atravessam como pessoa. Com exceção do luto de natimorto que, além de nunca ter passado por essa experiência, é um tema pouco retratado na literatura e por isso mesmo que decidi escrever sobre ", conta a autora.
Professora da UFMG, a escritora é responsável ainda pelo LiLi - Literatura Livre, projeto de extensão que realiza clube de leitura de obras de autoria feminina junto a mulheres privadas de liberdade no Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade em Vespasiano - MG. “A literatura foi e é, muitas vezes, libertação. É um clichê, mas quando leio algo com que me identifico, me sinto menos sozinha. Então, imaginei que por meio da literatura, as mulheres privadas de liberdade poderiam também se sentir menos sozinhas” explica Nayara. Como professora universitária, a escritora defende a presença e atuação da universidade fora do campus, inclusive nas prisões. “A população carcerária feminina tem aumentado no Brasil, a maioria das vezes, por pequenos delitos. Essas mulheres são afastadas de seus filhos, das suas famílias, são abandonadas por seus companheiros. Enquanto o abolicionismo penal está longe de ser uma realidade, 4 dias de remição por leitura contribui para que essas mulheres tenham suas penas abatidas e que tenham, dentro do sistema, mais tempo fora das celas e um momento de reflexão e conversa a partir das leituras feitas” reforça.
A ideia inicial de “Filha” foi concebida bem antes de o LiLi começar, mas hoje a autora reflete em como essas histórias se cruzaram e ainda podem gerar outras mais. “Filha é uma história de relação entre mãe e filha. O LiLi acontece no Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade em Vespasiano. Tenho refletido muito sobre como essas mulheres privadas de liberdade ficam o tempo todo na função de ser mãe por até um ano e depois perdem o vínculo com seus bebês ao entregar ele para as famílias ou para o sistema. Essas crianças já nascem privadas de liberdade: de conviver com a família, outras crianças, de desenvolver outros vínculos. É um tema que tem me atravessado muito e que penso em escrever, no futuro.”
LiLi - Literatura Livre
Criado em outubro de 2022, o projeto de extensão realiza mediação de leituras de obras de autoria feminina, através de um clube do livro, junto à mulheres privada de liberdade no Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade em Vespasiano - MG, contribuindo para a remição da pena pela leitura e a efetivação do direito à literatura, promovendo o encontro entre a universidade e a sociedade civil em que no momento se encontra encarcerada.
Uma obra diretamente influenciada por Ferrante e Benedetti
Nayara Noronha nasceu na cidade de São Paulo em 1988, mas tem raízes familiares em Dores do Indaiá, interior mineiro, e mora em Belo Horizonte (MG) com seus dois gatos. É professora e pesquisadora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, além de “Filha”, tem contos publicados em coletâneas. Suas principais referências literárias são as obras de Elena Ferrante, Natália Ginzburg, Simone de Beauvoir, Annie Ernaux, Alba de Céspedes e Mario Benedetti.
“Filha” não existiria se a autora não tivesse conhecido Ferrante e descoberto seu interesse em narrativas que tratam sobre o papel social das mulheres com a honestidade da best-seller italiana. São influências diretas em seu livro as obras “Um amor incômodo” e “Dias de abandono”. Já a forma e estrutura de sua história tem influência da novela “Quem de nós”, de Mario Benedetti.
A autora conta que a primeira frase do livro “Sou uma avó sem neta” foi um dos primeiros trechos escritos por ela, quando a ideia inicial da história ainda era escrever sobre o peso social da maternidade para uma mulher sem filhos. Somente após ouvir a história de uma atendente de sorveteria que perdeu seu bebê, ficou impactada e“Filha” começou a vir à tona.
Com uma escrita direta e repleta de frases curtas, a autora apresenta para o leitor a chance de conhecer diferentes perspectivas, dilemas e vivências que se fazem presentes em vidas comuns, ainda que por anos invisibilizadas na literatura, como o luto de um natimorto, mas não só. Quando Thaís Campolina, escritora e resenhista, na orelha do livro, diz que “filha exige flexões típicas do verbo, como pessoa, número, tempo, modo e voz, mesmo sendo gramaticalmente uma outra coisa, uma palavra já generificada inclusive”, ela evidencia o quanto essa história é marcada pelo gênero. Os não ditos que aparecem de alguma forma em “Filha” e que destacam o livro surgem também do silenciamento imposto às mulheres.
ERVIÇO | “Filha”, de Nayara Noronha
editora 7letras
Onde encontrar?
Belo Horizonte: livrarias Jenipapo, Quixote e Primeira à Esquerda
São Paulo: livrarias Ponta de Lança e Mandarina
Niterói: Livraria da Ponte
Online: Amazon e no site da editora: www.7letras.com.br/livro/filha.
Acompanhe Nayara Noronha pelo Instagram: @livretras
Foto: Márcia Maya
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