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Afrofuturismo no teatro: espetáculo ƎX-MAGINATION apresenta ficção científica em BH
Espetáculo teatral gratuito incorpora a estética afrofuturista, como do filme Pantera Negra, para contar história inspirada em mulheres negras que se passa no futuro do planeta Terra
Nos últimos anos, o afrofuturismo tem ganhado uma grande repercussão no universo da produção cultural. Esse boom foi provocado pelo lançamento do filme Pantera Negra (2018), que pôs nas telas a grandeza do reino de Wakanda com suas tecnologias e elementos das culturas africanas. A história continuará no filme Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, que estreia no dia 10/11. Mas você já pensou que o afrofuturismo poderia ser realizado ao vivo através do teatro? Essa é a proposta do espetáculo ƎX-MAGINATION, que estará em cartaz em Belo Horizonte no dia 04/11, às 19:30, no tradicional Samba do Cacá (Rua Andiroba n°20, bairro São Paulo).
A peça fala sobre a alienígena negra que inicia uma jornada de autodescoberta na Terra, após aterrissar sem memória em terreiros da grande BH. Passando de casa em casa para recuperar a memória e entender sua missão de vida, ƎX será ajudada pelo afeto e respeito incondicional existente no futuro afrofuturista de nosso planeta.
O movimento afrofuturista
O afrofuturismo convoca negras e negros para adentrar nas narrativas de ficção científica, trazendo sua identidade, ancestralidade, estética e luta pela equidade racial. Desde meados de 1960, as produções artísticas na música, literatura, cinema e artes visuais começaram a criar o afrofuturismo, apesar do primeiro registro da palavra ter sido realizada em 1994 na entrevista “Black to the future”, feita com autores negros estadunidenses. O movimento surge da coragem de artistas que criaram narrativas para suprir a ausência de negros na ficção científica, principalmente nas histórias que imaginam o futuro da humanidade. Os afrofuturistas questionam a forma como as pessoas negras são representadas, mas também utilizam da imaginação para denunciar o racismo e especular os modos de sobrevivência dos negros no mundo.
Várias obras constroem a noção contemporânea do afrofuturismo. O filme pioneiro, Space Is The Place (1974), interpretado pelo jazzista Sun Rá, por exemplo, conta a história de um alienígena negro que vem para a Terra resgatar os negros que vivem na sociedade racista, buscando criar uma civilização intergaláctica afrocentrada. O álbum visual de Beyoncé, Black Is King (2020), retrata a luta mágica de um jovem negro para recuperar sua riqueza ancestral. No Brasil, temos cantoras como Xênia França e Helen Oléria, que fazem especulações sobre o passado e o futuro negro em suas produções musicais, além dos escritores Alê Santos (O Último Ancestral) e Sandra Menezes (O céu entre mundos) e a produtora de cinema Filmes de Plástico, que tem feito sucesso com o lançamento do filme representante do Brasil no Oscar, Marte Um.
Espetáculo ƎX-MAGINATION se inspira no afrofuturismo de Octávia E. Butler
A literatura é um dos campos mais férteis para o afrofuturismo. Grandes obras literárias foram responsáveis por consolidar esse movimento artístico, como os livros da autora Octávia Butler. A escritora afro-americana é autora do livro “Kindred: laços de sangue”, em que a personagem Dana faz parte de uma reflexão sobre a ancestralidade e as dificuldades que uma mulher negra enfrentaria se voltar ao passado fosse possível. Sua trilogia, Xenogênesis, conta a história na qual a sobrevivência da humanidade, após ser devastada por uma guerra nuclear, depende da reprodução com alienígenas híbridos, os Oankali, um povo extraterrestre que domina habilidades de genética e escraviza os humanos em sua experiência para criar a espécie mais aprimorada da galáxia.
Inspirado nas obras de Xenogênesis, o espetáculo ƎX-MAGINATION convida os espectadores a embarcarem em uma viagem encantada, onde a Terra se encontra no estágio de evolução tão sonhado por muitas pessoas: um lugar em que o amor e a convivência pacífica entre seres diferentes prevalecem. A alienígena negra, ƎX, cai na Terra vinda do planeta LSP-44, dimensão em que a ganância dos povos Moedinos, colonizadores dos Dengos e Verdialins, instauraram uma crise biológica e social, deixando LSP-44 parecido com a realidade atual de nossas sociedades. Fugindo de guerras, racismo, violência de gênero, falta d’água e homofobia, a personagem é uma cidadã da sociedade de mulheres lésbicas, as Gingas, e viverá uma jornada em busca de suas memórias, perambulando terreiros onde vivem famílias negras. Nestes lugares ancestrais, ela encontra o acolhimento, o amor familiar e afeto entre mulheres, além do contato com a terra, água e as plantas, que fertilizam a sua busca pelo autoconhecimento.
Apesar de ficção, a peça é uma metáfora do imbricamento causado pela colonização dos povos originários da América Latina e a diáspora negra originada da escravidão. Além disso, ƎX-MAGINATION provoca reflexões sobre a liberdade sexual e de gênero, inspirada nas vivências de mulheres negras que amam outras mulheres. O processo de criação do espetáculo contou com rodas de conversa com mulheres que se identificam politicamente como sapatonas. A dramaturga e poeta, Nívea Sabino, acrescenta que a peça é “um passeio junto à ƎX que, com os pés no terreiro, desloca, por um instante, a nossa concepção de Mundo e, nos convida a beber das águas de Mulheres Negras, a nos permitir se banhar e, fazer a travessia do espetáculo que fala de amor e sobre a nossa relação com as águas e os terreiros de nossas casas.”
Sobre a presença do afrofuturismo como conceito que guia ƎX-MAGINATION, Michelle Sá, atriz que dá vida à personagem deste monólogo, reflete que: “o teatro ainda não é um território em que as pessoas têm se denominado afrofuturistas. Isso porque essa linguagem está muito no cinema, na música, na literatura, e acaba que no teatro se torna apenas o termo “teatro” negro. Estamos investindo em uma experimentação para entender como trazer essa linguagem para o teatro.” Quem assistiu ao espetáculo durante a semana de estreia, pôde exercitar a capacidade de especulação, imaginando novas possibilidades de mundo, por meio da poesia e do afrofuturismo.
Além de sua próxima aterrissagem no terreiro do tradicional Samba do Cacá (04/11, às 19:30, na Rua Andiroba n°20, bairro São Paulo), a peça será apresentada no Museu Abílio Barreto, no dia 11/11, quinta-feira, às 19:30, Av. Prudente de Morais, nº 202 - Cidade Jardim, e no Projeto Solo Negro, no dia 26/11, às 19:30, na Rua Aarão Reis, nº 542 - Centro/BH. A classificação indicativa é 14 anos. O espetáculo ƎX-Magination é realizado com os recursos da Lei Municipal de Incentivo a Cultura de Belo Horizonte através do Edital Multilinguagens 2021.
SERVIÇO:
Evento: Espetáculo ƎX-MAGINATION
Tema: Ficção científica, afrofuturismo e mulheres negras.
Quando: 04/11/2022 às 19:30
Onde: Rua Andiroba n°20, bairro São Paulo
Preço: Gratuito, sujeito à lotação do espaço.
Foto: Mayara Laila
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