Notícias

“No Passo da Rabeca”: Letícia Coelho abraça as possibilidades do ‘arco’ em novo disco

Segundo disco da multi-instrumentista, cantora e compositora mineira chega às plataformas digitais no dia 11 de novembro, quinta-feira, com 14 faixas autorais; live de divulgação acontece na véspera, dia 10, quarta, com participação do cabo-verdiano Jeff

“O álbum surge a partir do meu mergulho no devir da rabeca. Porque a rabeca não é só um cordofone de arco, é um conceito de se fazer música e está diretamente ligado à liberdade que o instrumento propõe a quem toca”, reflete a mineira Letícia Coelho. Multi-instrumentista, cantora, compositora, pesquisadora e professora, a artista lança no dia 11 de novembro, quinta-feira, seu segundo disco, “No Passo da Rabeca” – um dos raros trabalhos de composição autoral dedicados ao instrumento nos últimos anos. O “disco-trajetória”, como define Letícia, traz 14 faixas que evidenciam as múltiplas possibilidades da rabeca na música contemporânea, reverenciando suas raízes ancestrais da cultura afro-ameríndia. Viabilizado pela Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural e lançado pela YB Music, o disco contará com uma live no Instagram, na véspera, dia 10 de novembro, quarta-feira, às 20h, com Letícia e o multi-instrumentista cabo-verdiano Jeff Nefferkturu, figura crucial do trabalho.

Escute “No Passo da Rabeca), de Letícia Coelho (link especial para a imprensa)

“No Passo da Rabeca” parte de uma pesquisa realizada por Leticia Coelho concomitante ao seu aprendizado sobre o instrumento. As influências nesse processo são mestres, mestras e artistas com quem a artista cruzou em suas andanças Brasil afora. “Gravar um disco de rabeca era algo que eu devia ao mundo. Tive a sorte e o privilégio de aprender esse instrumento e ter em meu caminho encontros incríveis que ampliaram o conceito acerca da música brasileira para mim. Gosto de chamar a música que se toca em um banco de Cavalo Marinho e em um terreiro de Candomblé de música brasileira. Já passou da hora de assumirmos nosso fundamento e reconhecermos essa sonoridade como uma música atual, moderna e revolucionária”, afirma a artista. “O rótulo de ‘tradição’, de ‘cultura popular’, aparta o conhecimento e os saberes. Como diz Lélia Gonzales, coloca essa música chamada de cultura popular como menor a uma outra cultura que é a vigente”, completa.

Para Letícia, o disco dá à rabeca o mérito que ela merece em sua trajetória artística, evocando a herança dos festejos populares, do baião, das congadas, cocos, cheganças e giras de Candomblé. “A rabeca me levou e eu a levei para esses mundos que estão aí, acontecendo, mas não são visibilizados. Junto a ela, no disco, estão os tambores, os cantos e as vocalidades; estão trajetórias e teorias da música brasileira afro-ameríndia”, sublinha “‘No Passo da Rabeca’ me soa como um convite a entrar numa caminhada sonora afrocentrada. A rabeca também é usada como percussão, como contrabaixo, com notas pedais que lembram timbres de clarones. Já a voz, que geralmente é a protagonista nas canções, tem presença como um instrumento musical, melódico e de textura do disco junto com os sopros”, explica.

Para traçar essa narrativa, o álbum conta com participações que incluem rabequeiros da tradição popular, como Mestre Luiz Paixão, referência global na história do instrumento, e nomes da atualidade, como Luiz Fiammenghi. Os feats incluem também artistas da voz – como Dandara Manoela, Luana Flores e Renna Coxta – e de outros dotes, como a performer Fabiana Vinagre, o percussionista Leonardo Oliveira e a multi-instrumentista Camila Menezes, que gravou viola caipira em “Chegada”. Na “banda-base”, apenas Letícia (rabeca, vozes e percussões) e o multi-instrumentista cabo-verdiano Jeff Nefferkturu, que gravou violões, cavaquinho, clarinete, flauta e contrabaixo. “Com a presença de Jeff Nefferkturu, brincamos também com esse trânsito rítmico-poético diaspórico entre Brasil e África. O disco traz uma ‘alquimização’ de trajetos por meio da rabeca, como se a cada música um novo caminho fosse traçado, valorizando encontros, trajetórias e riqueza teórica e sonora”, reflete.

Trajetórias sonoras

Para Letícia, “No Passo da Rabeca” apresenta diferenças com relação a seu antecessor, “Brota” (2018), principalmente ao trazer uma proposta bem crua e plural. “Esse disco tem mais ‘poeira’, tanto do trajeto que emerge no som quanto das sonoridades múltiplas, pois foi captado em diversos estúdios, home studios e gravadores. Também quis trazer uma parte percussiva minha que não entrou em ‘Brota’ com tanta evidência, por ser um disco mais pop”, conta. “Mas acho que os dois álbuns propõem abertura de brechas sonoras. ‘Brota’ com seus arranjos que provocam, trazem a impermanência e a crítica às estruturas, e ‘No Passo da Rabeca’ nos chama a olhar para o fundamento”.

A herança da ancestralidade afro-ameríndia é vista na forte presença dos atabaques que evidenciam a influência percussiva da música de terreiro, como em “Baião de Oyá”, single de estreia, lançado no mês passado. “Acho que os tambores todos usados no disco guardam sua importância. Eles me formaram enquanto musicista e enquanto pessoa também, porque o aprendizado ali se dá por camadas de saberes que vão muito além do ritmo”, diz Letícia, ressaltando a importância de assumir e reverberar a ancestralidade religiosa de matriz africana. “O que é nomeado existe. Precisamos dizer os nomes que tanto foram proibidos, nas línguas que foram tão proibidas, contar as histórias que não podiam ser contadas. Nossas mitologias tão ricas de seres que se transformam de serpente à arco-íris precisam ser contadas e cantadas. Deviam estar em todos os lugares: nos livros infantis, no cinema. Imagine um filme de super-herói com Oxóssi como protagonista? Com Iansã e seu poder de mover os ares?”.

Por meio da rabeca, então, a artista costura a ancestralidade do culto aos orixás à inventividade da música brasileira atual, mostrando como o instrumento é aberto a perspectivas criativas. “Enquanto o violino te exige um corpo, uma postura, um cotovelo, a rabeca se encaixa onde o tocador e a tocadora decidem posicioná-la”, diz Letícia, que realizou lives com rabequeiros e rabequeiras, como ações de pré-lançamento do álbum, durante todo o mês de outubro. “A única coisa que a rabeca diz é: ‘o que você quer de mim?’ Eu levei a sério essa pergunta e experimentei tocá-la em diversos lugares, com diversas pessoas, dos barcos da Amazônia a gravações de trilhas sonoras. ‘No Passo da Rabeca’ trouxe a possibilidade de me arriscar seguindo os encontros e as descobertas que acontecem na relação com esse instrumento tão generoso. Por meio da trajetória de seus fonogramas, é um álbum que se mostra mais que um produto musical fechado, mas uma rotatória de possíveis caminhos-pessoas”.

Sobre Letícia Coelho

Nascida Natural de Amparo do Serra, na Zona da Mata Mineira, Letícia Coelho teve contato com Congados, rodas de samba e serestas de sua família logo em seus primeiros anos de idade. Mudou-se para Belo Horizonte aos cinco anos de idade e, pouco tempo depois, retomou o gosto pelas tradições populares e pela percussão, tendo estudado com grandes referências da cultura afro-brasileira.

Entre eles, estão brasileiros como Mestre Antonio Boi (Congado Airões MG), Mestre Anastácio (Congado São Miguel do Anta, MG), Mestre Antônio Bastião (luthier tambores, Minas Novas, MG), Mestre Amaral (Tambor de Crioula, MA), Dona Zezé de Yemanjá (Caixeira do Divino, MA), Humberto Maracanã (Boi de Matraca, MA), Assis Calixto (Côco raízes de Arcoverde, PE), Mestre Walter (Maracatu Estrela Brilhante, PE), Mestre Luiz Paixão (Cavalo Marinho Boi Brasileiro, PE), Nelson da Rabeca (Marechal Deodoro, AL), Ana Maria Carvalho (São Luiz, MA), além de músicos do Oeste da África como Bangaly Konate, Mariama Camara e Djanko Camara (Dança, percussão e tradição mandingue, Guiné Conacri).

Realizou cursos de teoria musical, criação e improvisação com André Marques, Thomas Roher e Vinícius Dorin e oficinas com Trilok Gurtu(Índia), Omar Sosa (Cuba), Bassekou Kouyate (Mali), Dimitar Gougov (Bulgária), Dandarvaanchig Enkhjargal (Mongólia) e Fabien Guyot (França). Com graduação em Biologia, em Música e Mestrado em Antropologia, realizou pesquisas acadêmicas sobre construção de instrumentos musicais em grupos de Congada e ensino popular de rabeca, instrumento ao qual dedica sua pesquisa há bons anos.

Foi vencedora do Festival de Bandas da Nico Lopes 2008 (MG), terceiro lugar no Festival da Canção de Viçosa 2009 (MG) com a banda Flor de Batuque e compôs o grupo de cantoras e compositoras do SONORA Floripa 2016 (SC). Integra, ainda, o projeto de criação e improvisação de rua Duo Im Risco (Brasil-Espanha), atua e dirige musicalmente a montagem de dança palavra Hiroshima (em processo SC), o projeto de canções tradicionais brasileiras Rebenta Chinela (SC), a banda de rock Rinoceronte Negro (SC) além de seu projeto autoral Letícia Coelho.

Lançado em 2018, seu disco de estreia, "Brota", foi mencionado como um dos dez melhores trabalhos do ano em Santa Catarina.

Letícia Coelho lança “No Passo da Rabeca”
à Dia 11 de novembro, quinta-feira, nas plataformas digitais
à Live de lançamento no dia 10, quarta, às 20h: Letícia Coelho e Jeff Nefferkturu.

 

Imagem: Capa / Divulgação

Selecionamos os melhores fornecedores de BH e região metropolitana para você realizar o seu evento.