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"68", espetáculo sobre a ditadura, estreia segunda temporada com exposição fotográfica inédita
Intitulada "68", a montagem com texto e direção de Luiz Paixão, dramatiza episódios que marcaram a resistência do povo brasileiro, com foco nas experiências vividas na cidade de Belo Horizonte.
“'68' não é um espetáculo sobre a ditadura. É um espetáculo sobre pessoas que viveram o período ditatorial no Brasil”. Desta forma, Luiz Paixão, responsável pelo texto, direção, iluminação, cenário, figurino e trilha sonora da peça, nos insere no universo de sua mais recente montagem. O espetáculo que estreia a segunda temporada dia 01/11 e segue em cartaz até o dia 10/11 no Espaço Aberto Pierrot Lunar, discute as questões tomadas pelo imaginário das pessoas que testemunharam a ditadura militar brasileira. Para aprofundar a pesquisa e possibilitar o contato com imagens da época, o projeto criou a exposição fotográfica "Cenas da ditadura militar em Belo Horizonte", que conta com fotos do acervo do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania e do arquivo do fotojornalista Marcelo Pinheiro. Os ingressos já estão disponíveis online: www.espetaculo68.com.br
Há mais de 40 anos atuante na área dramatúrgica, Luiz Paixão tem como forte característica em seus trabalhos a preocupação em exercer um vínculo direto entre o teatro e a realidade histórica. Para o diretor, além do resgate de fatos e memórias, o teatro tem a função de explicitar a relação dialética entre passado e presente: “gostaria que, ao assistir a peça, o público compreenda que passado e presente não estão separados. O passado é parte do presente e o presente é produto deste passado. Só assim, criando essa consciência, é que teremos condições de seguir como força atuante dentro da sociedade”, pontua.
Durante o desenrolar da trama, é possível notar claras referências à atualidade brasileira. Ao dramatizar conversas entre familiares, diálogos ocorridos em âmbito escolar e diversas outras situações cotidianas, o diretor estabelece nítidas relações entre as pautas que permeavam o imaginário coletivo na época do regime militar e as questões levantadas pelo senso comum atual.
“Durante a ditadura era possível observar um certo nível de paranóia que as pessoas passaram a viver a partir de uma repetição do discurso oficial implementado pelo governo. E isso começou a mudar o comportamento das pessoas. Atualmente é possível observar que os ideais da ditadura militar estão completamente arraigados ideologicamente no discurso presidencial. E é possível ver, também, parte da população não somente assimilando como repetindo esse discurso, assim como aconteceu no passado. Ao ver em cena os temas tratados pelo espetáculo, o público irá perceber que são os mesmos temas levantados pelo presidente brasileiro”, conta Paixão.
Para provocar no público a reflexão acerca do tema e das questões abordadas em cena, o espetáculo "68" se apoia nas teorias do teatro épico-dialético de Bertolt Brecht. Nesta linha, a peça se estrutura de modo que provoque certo distanciamento emocional no público para que haja maior estímulo à reflexão crítica. O cenário é composto unicamente por seis cadeiras que se movimentam e formam desenhos específicos que funcionam como elementos simbólicos de determinadas relações que se estabelecem entre os personagens e a história. Todo o enredo é encenado por 6 atores que permanecem em cena durante todo o espetáculo, "o fato dos atores estarem em cena o tempo inteiro mostra exatamente essa relação dialética que Brecht pretende com o teatro. Ou seja, ao estarem em cena durante toda a peça , os atores estão mostrando, primeiramente, que são atores apresentando uma peça com determinado intuito reflexivo", explica o diretor.
Para além das seis cadeiras que tomam diversas formas ao longo da trama, os próprios corpos dos atores funcionam como uma espécie de cenário humano. A posição, postura e movimentação dos atores que não participam objetivamente da cena em questão, formam um pano de fundo para o desenvolvimento da fábula. Em "68" o elenco se apresenta não somente como "ator personagem", mas também como "ator cenário".
A escolha de localizar a história em Belo Horizonte se deu após constatar o importante papel político da cidade na luta contra a ditadura. A capital mineira foi palco de importantes manifestações e berço de movimentos que lutaram ativamente contra o fim da repressão militar. Resgatar essas memórias da cidade é uma forma de contar parte da história de Belo Horizonte para as gerações mais novas.
Para aprofundar a discussão, o projeto conta ainda com a exposição fotográfica "Cenas da Ditadura Militar em Belo Horizonte". A curadoria da exposição é da produtora, jornalista e atriz Ana Gusmão. Duas fotos presentes na mostra foram cedidas pelo Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania e mostram Dona Helena Greco em ação durantes atos contra a ditadura militar. As demais fotos são do acervo do fotojornalista Marcelo Pinheiro, que resgatou negativos de fotojornalistas das décadas de 60 e 70. Uma fotografia presente na exposição é inédita, e retrata o momento de uma prisão durante o III ENE, congresso estudantil ocorrido na Faculdade de Medicina da UFMG em 1977.
"Ao inserir uma exposição fotográfica neste projeto, além de contextualizar imageticamente o espetáculo, estamos mostrando, também, novas referências deste período histórico brasileiro. Em uma busca no Google ou nos livros de história, temos muitas referências da ditadura militar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Com essa exposição, buscamos mostrar um pouco como foi esse momento aqui em Belo Horizonte", conta Ana Gusmão.
Este espetáculo é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. E, conta também, com patrocínio da MGS - Minas Gerais Administrações e Serviços S.A.
Foto:Fernando Barbosa e Silva
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