Notícias
“É só uma questão de tempo”, primeira exposição individual de Ian Gavião, na Galeria de Arte do Centro Cultural Sesiminas
A exposição é composta por trabalhos em pintura, vídeo, instalação e objetos que abordam, em sua materialidade ordinária, enigmas relacionados ao cotidiano e à passagem do tempo e fica disponível até o dia 2 de novembro
“Agora escutem! Não sou besta. Sei que na vida de todo dia a gente não sai por aí dizendo é uma é uma. Sim, não sou besta; mas eu acho que naquele verso a rosa é vermelha pela primeira vez em cem anos de poesia inglesa”. Foi o que Gertrude Stein disse sobre o seu “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Ou pode ser, em inglês mesmo, I AM IAN I AM IAN I AM IAN I AM IAN, trabalho onde, do jogo das letras esparramadas, Ian faz seu nome ganhar dureza de coisa. Nunca um nome foi tão vermelho, mesmo ainda tão avesso à convicção da matéria. Escrito com esmalte Envolvente Cremoso (esses títulos nos rótulos são assim uma vingança do seu inventor, algum sujeito que rói as unhas que não tem pra pintar, fechado num escritório), o I AM IAN sabe que o nome não atina com o que lhe cabe dentro e vai se desdobrando como numa fissão nuclear.
Não gosto de citação em texto de exposição. Aqui não teve jeito porque uma coisa é uma coisa é uma coisa é uma coisa, arrancada da confiança em ser enfeite de carnaval para se converter, na instalação TATARAS, num tempo rijo, pesado, com mais peso agora do que em cem anos de lojas de 1,99. As caras dos tataravós do Ian estão tampadas de brilhos, mas dá pra ver o tempo aí, não fosse a moldura e a gente pegava o tempo, essa entidade cafona, cheia de strass, essa entidade nocaute que nunca funciona direito, dá pau em nós – como noutro trabalho, o vídeo KO, extraído de um calendário espatifado de celular.
Então a coisa está lá à espera: o disco velho do Matogrosso jovem (e ninguém é mais jovem que um Ney de oitenta); o brinquedo TRANCINHAS DA SORTE que a moça ganhou na infância, gostava de esportes e videoclipe, nunca fez um trampo manual que fosse, como proposto nas instruções da caixa que Ian pirateou do lixo; a vela, a parafina dos ritos e tradições, essa tataravó de uma outra pessoa, o plástico, mais quebradiça e inconstante do que ele, mais avessa à transparência, mais parecida com a vida (talvez não sem razão a gente acenda vela para os mortos, pra acendê-los do avesso onde se meteram) e da qual Ian tira, num tríptico, suas “cartas para destino nenhum”. Ou seu “great times are coming”, noutro tríptico, chamado QUER UMA CARONA?, desta vez com frase roubada de slogan de cerveja, onde a palavra espera ser acordada do otimismo publicitário em que dorme (todo otimismo é inerte). A coisa está lá, enfim – disco, brinquedo, parafina –, como a rosa de Stein, à espera de epifania. É o “estado de dicionário” da coisa (Drummond): só abrir e pegar, Ian promove a pirataria. Aliás, PROMOVA A PIRATARIA 2018 AVAST 2020 é um trabalho feito de sobras: as embalagens dos brilhos de TATARAS fazem o rosto que se repete no painel. É um roubo de si, dos próprios resíduos do que se tem. Não há salvação que por esse contínuo desdobramento: I AM IAN é, por sinal, uma produção que pirateia as letras do próprio nome do artista.
Uma coisa é uma palavra é uma coisa é uma rosa é uma coisa – tempo posto físico nas coisas que esperam sair do que também dá pra chamar de estado de bagulho: guimbas de cigarro, remédios fora da validade, painel de led de padaria, frases, tudo que aqui está. O mundo ordinário é prenhe, falta fazer nascer.
Foto: Divulgação / Assessoria
Selecionamos os melhores fornecedores de BH e região metropolitana para você realizar o seu evento.
