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Chagall e o amor que desafia a força da gravidade

A mostra permanecerá em cartaz até 16 de janeiro de 2023, com entrada gratuita

O Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB)  abre as portas em 12 de outubro para uma exposição apaixonante – Marc Chagall: sonho de 

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amor. Serão mais de 180 obras desse artista que marcou o século XX pelo uso revolucionário  das formas e das cores, pela criação de um universo lírico, poético e fantástico em suas  pinturas e em seus escritos, e por sua trajetória única, pautada pelo amor que devotava à vida  e às artes. A mostra, considerada sucesso pela crítica brasileira em sua passagem pelo CCBB Rio de Janeiro e pelo CCBB Brasília (foram mais de 290 mil visitantes nas duas cidades), fica em cartaz no CCBB Belo Horizonte até 16 de janeiro de 2023. Depois, segue para o CCBB São  Paulo (de 8 de fevereiro a 17 de abril de 2023). 

Na abertura da exposição em Belo Horizonte o público confere performances de dança na  obra Air Fountain, de Daniel Wurtzel, marcadas para 11h e 18h, no pátio do CCBB BH. No dia  seguinte (13/10), às 20h, a curadora da mostra, Lola Durán Úcar, ministrará palestra sobre o  artista e seu legado. Os ingressos para a palestra podem ser retirados gratuitamente em  bb.com.br/cultura ou na bilheteria física do CCBB BH. 

“Só o amor me interessa, e eu estou apenas em contato com coisas que giram em torno do  amor” – é esta frase célebre de Chagall que, de certa forma, orienta a exposição. Chagall  enfatizava repetidamente que sua vida e arte eram suas formas de expressar amor. Nascido  em 7 de julho de 1887, no bairro judaico da cidade de Vitebsk, na antiga Rússia, Marc Chagall  viveu uma vida quase centenária, chegando aos quase 98 anos de idade. Faleceu na França,  em 1985, após atravessar a Revolução Russa e a 1a e 2a Guerras Mundiais, assistir à criação e  consolidação do Estado de Israel, e ser reconhecido como um dos nomes mais importantes  da arte moderna, sobretudo pela criação de uma linguagem artística única.  

No pátio do CCBB, o “Sonho de amor” é anunciado pela instalação contemporânea Air  Fountain, gentilmente cedida pelo artista norte-americano Daniel Wurtzel. Nas salas  expositivas, o percurso apresenta uma seleção de obras produzidas por Chagall ao longo da  carreira, de onde emergem os temas: origens e tradições russas; o amor e o exílio na  representação do mundo sagrado; o lirismo e a poesia, reencontrados em seu retorno à  França; e o amor transcendente, uma ode ao sentimento de estar apaixonado, presente na  figura dos enamorados que flutuam nas telas ou estão imersos entre ramos de flores. 

Na obra de Chagall, o gosto pelas cores só fez aumentar o amor pela vida. Como declarou:  “na vida, assim como na paleta do artista, há somente uma cor que dá sentido à vida e à arte:  é a cor do amor”. Sua biografia, marcada pela origem humilde e pelos inúmeros obstáculos à  sobrevivência, compeliu-o a se mover inúmeras vezes: viveu na França, nos Estados Unidos e  na própria União Soviética, onde, após a Revolução Russa, ocupou o posto de Comissário de  Belas Artes de Vitebsk, sendo responsável pela vida artística da cidade. Após breve atuação  no cargo, Chagall mudou-se para Moscou, onde trabalhou, em 1920, nos painéis e no mural  do Teatro Judeu, com grande repercussão naquele contexto. Em seguida, mudou-se para  Berlim, onde havia sido reconhecido artisticamente desde 1914, partindo em 1922 para a 

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cidade à qual dirigiu inúmeras declarações de amor e onde viveu a maior parte de sua vida:  Paris, cidade em que Chagall atingiu sua plenitude artística.  

Em sua trajetória única, Chagall fundiu diferentes culturas: a judaica, sua cultura de origem  familiar; a russa, de nascimento; e a ocidental, por escolha. Em uma combinação especial de  domínio técnico, respeito pelas tradições ancestrais e extrema sensibilidade na orquestração  de formas e cores, abriu caminhos para o surrealismo, estabeleceu diálogo com o cubismo e  com o fauvismo, e criou um universo próprio, vibrante e imaginativo. Não menos importante  é sua contribuição para as artes gráficas, em que alcançou pleno domínio das técnicas de  água-forte e de litografia, produzindo séries gráficas de excepcional beleza e apuro técnico, à  altura das obras literárias que as inspiraram. Para Chagall, a Bíblia ainda era a maior fonte de  poesia de todos os tempos.  

Segundo a curadora da exposição, Lola Durán Úcar, couberam na seleção obras “que mostram  diferentes técnicas e suportes que Chagall utilizou com grande virtuosismo: óleos, têmperas  e guaches, litografias e águas-fortes branco e preto e coloridas à mão”.  

Entre os trabalhos de Chagall exibidos no Brasil, que contemplam o período de 1922 a 1981,  pode-se destacar o raríssimo guache O avarento que perdeu seu tesouro (L’avare qui a perdu  son trésor), de 1927, produção que dá início à série gráfica das Fábulas de La Fontaine (Fables,  Jean de La Fontaine), encomendada por Ambroise Vollard no final dos anos 1920 e impressa  somente em 1952.  

Também fazem parte da mostra as gravuras coloridas à mão da série Bíblia, animadas por um  sentimento de reconexão do artista com suas origens, com sua essência e com a tradição  judaica. Além disso, a exposição conta com litografias publicadas em 1954 na revista francesa  Derrière Le Miroir – Edições 66, 67 e 68 – Marc Chagall: Paris, produzidas como uma  homenagem do artista à cidade que tão bem o acolheu, no auge de seu domínio técnico da  litografia. A série é uma declaração do seu amor por Paris. 

Em cada seção da exposição encontram-se obras emblemáticas, entre as quais podemos citar:  Os amantes com asno azul (Les amoureux à l’âne bleu), de ca. 1955, O galo violeta (Le coq  violet), de 1966-1972, Os reflexos verdes (Le reflets verts), de 1964, Duas cabeças (Deux têtes),  de 1966, Buquê de flores sobre fundo vermelho (Bouquet de fleurs sur fond rouge), de ca.  1970, Os noivos com trenó e galo vermelho (Les mariés au traîneau et au coq rouge), de 1957,  e Primavera (Le Printemps), de 1938-1939, estas duas últimas provenientes respectivamente  dos acervos da Casa Museu Ema Klabin e do Museu de Arte Contemporânea da Universidade  de São Paulo (MAC USP), especialmente cedidas para a exposição. Segundo a curadora, “as  obras emprestadas pelas instituições brasileiras são de grande importância no discurso  expositivo”. 

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Módulos da exposição 

A exposição que chega em Belo Horizonte apresenta quatro seções, que tratam de diferentes  temas da obra do pintor russo. A primeira parte intitula-se Origens e tradições russas. Nessa  seção está presente a marcante obra Aldeia Russa (Russian village), de 1929. Também faz  parte dessa primeira seção da mostra um dos mais importantes projetos de Chagall, no qual  sua ideia de tradição está intimamente ligada à vida campesina da infância e adolescência no  vilarejo de Vitebsk, na companhia de animais e cercado pela natureza. Destaca-se a série  gráfica completa das Fábulas – inspirada na obra de La Fontaine, escritor francês do século  XVII –, na qual dialoga com a cultura popular e penetra no comportamento humano,  metaforizado nos textos do escritor francês.  

Chagall mergulha no universo onírico e reflexivo das fábulas, atraído por uma forma  tradicional da arte popular russa, os lubki, que eram pequenos textos com ilustrações  coloridas, usados para facilitar a educação de pessoas com pouca formação. 

Os trabalhos relacionados aos textos sagrados e ao universo espiritual de Chagall compõem  o segundo bloco da exposição, intitulado Mundo Sagrado, que se subdivide em “Bíblia” e “A história do Êxodo”. Nele se destacam as pinturas No caminho, o asno vermelho (En route, l’âne rouge), de 1978, e Davi e Golias (David et Goliath), de 1981, além de gravuras coloridas à mão, que representam alguns dos capítulos mais importantes do Velho Testamento, como Moisés e Arão diante do Faraó (Moïse et Aaron devant Pharaon), Travessia do Mar Vermelho (Passage de la Mer Rouge) e Morte de Moisés(Mort de Moïse), estas com impressão realizada em Paris em 1956. 

Em 1930, Chagall foi convidado pelo colecionador de arte Ambroise Vollard a ilustrar textos  sagrados. Antes de iniciar as séries, e em companhia de sua esposa, Bella Rosenfeld, e de sua  filha Ida, empreendeu uma viagem à Palestina em 1931, que implicou não somente um  retorno à sua tradição judaica, mas uma reflexão profunda sobre sua identidade em  comunhão com a natureza. A passagem do Êxodo da Bíblia, presente nesta seção num  conjunto de 24 litografias, encontra ressonância em sua trajetória pessoal, marcada pelo  dramático exílio nos Estados Unidos, onde se refugiou face à perseguição aos judeus durante  a 2a Guerra Mundial. O exílio foi tristemente marcado pela morte de Bella, em 1944.  

O terceiro segmento da exposição, intitulado Um poeta com asas de pintor, reúne trabalhos  ligados ao regresso de Chagall do exílio nos Estados Unidos. 

Em sua casa em Saint-Germain-en-Laye, nos arredores de Paris, Chagall recebia visitas de  amigos intelectuais e poetas, tais como Paul Éluard, Yvan Goll, Pierre Reverdy e Aimé Maeght,  além do editor grego Tériade, responsável pela publicação de livros de arte com obras do  pintor. Chagall teria mais duas companheiras (Virginia Haggard, de 1945 a 1952, e Valentina 

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Brodsky, de 1952 até a morte do artista, em 1985). Desse período emergem trabalhos  marcados pela presença de palhaços e acrobatas. A arte circense remete não apenas à sua  memória dos circos de Vitebsk mas também a lembrança das sessões circenses na própria  Paris, onde, acompanhado por Ambroise Vollard, Chagall voltou a se divertir, admirando  trapezistas, domadores de animais e shows de luzes. O mundo do circo, a vida parisiense e o  amor a Paris são os protagonistas das obras dessa seção, em que figuram desenhos e pinturas  a óleo, guache e nanquim, como O galo violeta (Le coq violet), de 1966-1972; Pintor  e acrobata (Peintre et acrobat), ca. 1961; Os reflexos verdes (Les reflets verts), de 1964; A  inspiração (L’inspiration), de 1978; e a série litográfica publicada na revista Derrière Le  Miroir. 

Por fim, o quarto e último módulo da mostra é intitulado O amor desafia a força da gravidade,  em que o sentimento de amor, a sensação de estar apaixonado, o enlace dos enamorados  são os temas das pinturas, reforçando sempre o fato de o amor ter sido a força motriz do  artista, frente aos inúmeros obstáculos da vida. Ao seu lado, a musa e primeira esposa, Bella  Rosenfeld, com quem partilhava uma visão muito particular de perceber e habitar o mundo.  Apesar de sua morte prematura, Bella continuou a inspirar trabalhos de Chagall.  

Consta dessa parte da exposição uma seleção de obras em que Chagall trata do tema ao longo  de sua vida: Buquê de rosas (Bouquet de roses), de 1930, Os amantes com buquê de flores  (Les amoureux au bouquet de fleurs), de 1935-1938, Grande nu (Grand nu), de 1952, O buquê  da Lua ou Os lírios brancos (Le bouquet de la lune ou Les arums blancs), de 1946, Os amantes  com asno azul (Les amoureux à l’anê bleu), de ca. 1955. 

O amor como força que move a vida e a arte, tal como Chagall expressou vividamente em sua  obra, encerra a exposição com Os noivos com trenó e galo vermelho (Les Mariés au traîneau  et au coq rouge), de 1957, O sonho (Le rêve), de 1980, Os noivos e o anjo (Les mariés et l’ange)  e Casamento sob o dossel (Mariage sous le baldaquin), ambos de 1981.  

Na capital mineira, a mostra também contará com trabalhos que não foram vistos em outros  países. A exposição faz parte de uma itinerância que foi concebida na Itália, e o projeto  brasileiro inclui outros repertórios, como a série litográfica Chagall: Paris para a revista  Derrière Le Miroir, e obras de 1946, como a belíssima O buquê da Lua ou Os lírios brancos (Le  bouquet de la lune ou Les arums blancs), além do diálogo com obras provenientes de coleções  brasileiras como as da Fundação José e Paulina Nemirovsky, em comodato com a Pinacoteca  do Estado de São Paulo, cedidas para a exposição: O violinista apaixonado (Le violoniste  amoureux), de ca. 1967, Cidade cinzenta (Village gris), de ca. 1964, Casa em Peskowatik (Maison à Peskowatik), de 1922, e Autorretrato com chapéu enfeitado (Autoportrait au  chapeau garni), de 1928, integradas aos módulos da exposição. 

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Um dos objetivos da mostra é reaproximar o público deste artista ímpar, proporcionando uma  imersão em seu universo vibrante e poético. A proposta visa embalar o visitante numa  atmosfera de conhecimento e encantamento, “na qual possa dialogar e se sentir tocado pelos  diversos sentidos do amor que perpassa a obra de Chagall, [...] num momento de fragilidades  mundiais”, completa a curadora. 

A exposição tem patrocínio da BB Seguros e do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de  Incentivo à Cultura. A organização e produção são da empresa Cy Museum, em parceria com  a italiana Arthemisia. 

SERVIÇO

Exposição: Marc Chagall: sonho de amor 
Data: 12/10/2022 a 16/01/2023 
Funcionamento: todos os dias, das 10h às 22h, exceto às terças-feiras 
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte - Praça da Liberdade, 450 – Funcionários 
Ingressos gratuitos: disponíveis em bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB BH. O  ingresso é válido para o dia agendado. 

Performances de dança na obra Air Fountain, de Daniel Wurtzel 
Data: 12/10/2022 

Horário: 11h e 18h 
Local: Pátio do CCBB 
Não é necessário retirar ingresso. 

Palestra com a curadora Lola Durán Úcar 
Data: 13/10/2022  
Horário: às 20h 
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte - Praça da Liberdade, 450 – Funcionários 
Ingressos gratuitos: disponíveis em bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB BH.

Foto:  Chagall, Marc/AUTVIS, Brasil, 2022

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