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Grupo Maria Cutia estreia “Engenho de Dentro”, solo de Leonardo Rocha, com direção de Eduardo Moreira (Grupo Galpão)

No dia 27 de outubro (sábado), estreia “Engenho de Dentro”, novo trabalho do Grupo Maria Cutia, com direção de Eduardo Moreira (Grupo Galpão) e assistência de direção de Antônio Rodrigues (ex-integrante da Cia Candongas e Outras Firulas). Espetáculo solo do ator Leonardo Rocha faz curta temporada até 4 de novembro, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium. De quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Ingressos a R$15 e R$7,50 na bilheteria do teatro ou pelo site ingressorapido. Teatro adulto. Duração: 55 minutos. Gênero: Teatro Contemporâneo. Mais informações para o público: (31) 3270-8100 [bilheteria do teatro] e (31) 9 8888-1331 [whatsApp Maria Cutia] ou pelas redes sociais do Grupo [instagram e facebook: @mariacutia].

A costura de trechos sobre a loucura encontrados na obra de Cervantes, Tchekhov, Machado de Assis, Fitzgerald, Gógol constroem a narrativa dramatúrgica de “Engenho de Dentro”. Em cena, Leonardo Rocha retrata o universo de um homem confinado em um quarto. Em tom sarcástico e ácido, ele relata suas histórias delirantes, aventuras fantásticas e desvarios. Sente-se vigiado pelos olhares de seu perseguidor imaginário, que assume distintas formas e personalidades. Recluso em suas memórias alucinadas nos convida a uma viagem delirante e poética ao universo da loucura.

O ator Leonardo Rocha explica que “a intenção do espetáculo não é discutir a loucura de forma documental e denunciativa com referências aos tratamentos como o eletrochoque, praticados em Barbacena, ou à luta antimanicomial. “Quero provocar a reflexão sob o ponto de vista da personagem, o olhar dela sobre o mundo, e não o olhar do mundo sobre ela. Porque se nos imaginarmos trancados num quarto durante muitos dias, meses, anos, décadas, que mundo iremos criar para nós mesmos?”, afirma. Como exemplo, o ator cita o artista carioca Emygdio de Barros que só começou a pintar após ter sido internado como louco, por 23 anos, no Hospital Psiquiátrico Pedro II, localizado no bairro Engenho de Dentro (RJ). “Não à toa, o nome do espetáculo, simbolicamente, também é uma referência ao bairro que abrigou e abriga até hoje tantos artistas que tentam nos explicar - por outro viés - o nosso ‘engenho de dentro’ ”, conta.

Para construção do personagem, o ator do Maria Cutia utilizou como ponto de partida figuras que viveram a experiência de confinamento a partir da loucura e passaram a criar. Em cena aparecem referências como a de Emygdio, Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis - cujos trabalhos foram expostos no Museu de Imagens do Inconsciente (*ver abaixo), criado pela psiquiatra carioca Nise da Silveira (RJ). Leonardo evoca também, durante o trabalho, imagens de Arthur Bispo do Rosário e de outros artistas mineiros contemporâneos que são usuários da saúde mental, em Belo Horizonte.

Para o diretor Eduardo Moreira (Grupo Galpão), que também assina a dramaturgia, “nosso personagem de ‘Engenho de Dentro’, apesar de aprisionado num quarto, afirma a importância da poesia como lugar incontrolável e de liberdade suprema, que as instituições são incapazes de cercear. Tudo o que ele diz e a sua maneira de ver o mundo, nada é tão atual nos dias de hoje quanto esse poder revolucionário da palavra poética que escapa de todo tipo de controle, é libertador e necessário para o ser humano”, diz.

“A loucura é um ponto de vista”, explica o assistente de direção Antônio Rodrigues. “Nosso trabalho pretende fazer com que a história de nosso personagem, encerrado num quarto, seja verdadeira. Para ele, nada do que pensa ou diz é loucura e sim realidade. Procuramos retratar em cena um ser humano e não um louco”, completa.

Ao entrar no teatro, o público já se depara com o ator em cena, que se movimenta pelo palco com gestuais inquietos e rápidas oscilações de humor. Ele nos revela, aos poucos, o cenário composto por uma mesa, uma cama, uma cadeira, um biombo e um espelho que estão pendurados por cordas. Construído por Leonardo Rocha, o cenário de “Engenho de Dentro” conduz o espectador a uma atmosfera de suspensão da realidade. “Há uns anos fui a uma exposição no Rio de Janeiro com algumas obras do artista sergipano Arthur Bispo do Rosário, chamada “Flutuações”. As obras ficavam suspensas, no meio de uma sala. A ideia de suspensão do real me tocou profundamente. Em nosso espetáculo, os móveis também parecem levitar, apenas tocam o chão, como se a realidade estivesse sempre flutuante”, explica.

Para compor o figurino, a artista mineira Julia Panadés fez uso das técnicas do bordado e colagem de tecido adotadas na obra do Bispo do Rosário e de Louise Bourgeois. “Na túnica que o Leonardo veste e que lembra uma camisa de hospital, fiz aplicações em linho e seda, aderindo os recortes de cores para compor figuras com costura e bordado. Para a definição das imagens tecidas recorri a elementos presentes no texto, algumas expressões como ‘continente cercado de água’ e ‘sol pelo buraco da fresta’, e substantivos, como ovo, anjo, caminho, corda, chuva, cadeira, bússola, entre outros”.

A preparação corporal é da bailarina Eliatrice Gischewski, que repete a parceria com o Maria Cutia também na montagem “ParaChicos”. Eliatrice realizou o trabalho de corpo da premiada montagem de “Cachorro Enterrado Vivo” - solo do ator mineiro Leonardo Fernandes que ganhou o prêmio APCA, em São Paulo, no ano passado. A Direção de voz e de texto são de Babaya Morais, que acompanha há 7 anos os trabalhos vocais da companhia.

MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE (*)

Por não aceitar as formas de tratamentos psiquiátricos em uso na época, como o eletrochoque, a lobotomia, o coma insulínico, e ser uma incentivadora de práticas de humanização da loucura, a psiquiatra Nise da Silveira criou em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional, Rio de Janeiro, a Seção de Terapêutica Ocupacional. Dentre as diferentes atividades, pintura e modelagem se destacaram como um meio de acesso ao mundo interno dos pacientes. A produção desses ateliês foi tão abundante que em 1952 nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente.

O Museu é um centro vivo de estudo e pesquisa sobre as imagens e tem caráter marcadamente interdisciplinar, o que permite troca constante entre experiência clínica, conhecimentos teóricos de psicologia e psiquiatria, antropologia cultural, história, arte, educação.

O espaço não é uma instituição voltada para o passado: em seus ateliês os frequentadores criam diariamente novos documentos plásticos e compartilham suas experiências no convívio com funcionários, animais, estudantes, pesquisadores e visitantes. Este trabalho possibilitou o surgimento de artistas que logo foram reconhecidos no mundo das artes, como Emygdio de Barros, Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis. Com isso seu acervo não cessa de crescer e se atualizar. Emydio chega inclusive a ser exaltado pelo poeta Ferreira Gullar como sendo o único gênio da pintura brasileira, já que não é possível defini-lo em função de escolas artísticas, vanguardas, estilos, metiê.

Com um acervo de mais de 350 mil obras, o Museu tem a maior e mais diferenciada coleção do gênero no mundo. As principais obras são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Guarda também a biblioteca e o arquivo pessoal de sua fundadora, Nise da Silveira, detentor do Registro Mundial no Programa Memória do Mundo da UNESCO.

Foto: Tati Motta

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