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A crítica literária como resistência
Selo Suplemento Pernambuco, da Cepe Editora, lança Os olhos de diadorim e outros ensaios, do mineiro Wander Melo de Miranda, dia 19 de outubro, às 11h, na Quixote Livraria, em Belo Horizonte
Quando a política cultural contemporânea caminha para trás, escrever, ler e publicar ensaios de crítica literária são atitudes de resistência. Os olhos de diadorim e outros ensaios, do crítico mineiro Wander Melo Miranda, 67 anos, editado pelo selo Suplemento Pernambuco, da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), busca modelar a situação da literatura e das culturas nacionais nesse momento de opressão. O lançamento da obra de 212 páginas ocorre dia 19 de outubro, às 11h, na Quixote Livraria, em Belo Horizonte.
“Com o retrocesso em que vivemos é quase uma aventura publicar um livro de ensaios. Mas é também uma forma de resistência”, declara Wander, que reuniu 14 textos publicados ou apresentados em eventos acadêmicos, de 1995 a 2018. Em um deles Wander fala dessa ‘aventura’ ao frisar que as editoras comerciais fogem dos ensaios literários “como o diabo da cruz”, restringindo-os às editoras universitárias, jornais e redes sociais. “Refinam-se conceitos, criam-se novas linhas de investigação, propõem-se outras categorias analíticas, abre-se espaço para os discursos minoritários, avança-se na abordagem de autores canônicos ou não… para morrer na praia, no confinamento do espaço — restrito — das nem sempre atraentes teses universitárias”, lamenta Wander.
Descrito com “olhar aguçado, oblíquo, desafiador e teoricamente fundamentado” pelo apresentador do livro, o professor de Literatura da PUC-Rio, Renato Cordeiro Gomes, Miranda questiona a crítica padronizada e “defende uma relação mais sensual e vital com a natureza e o mundo”, explica Renato. O editor do selo Suplemento Pernambuco, da Cepe, Schneider Carpeggiani, considera Miranda um dos principais críticos literários do Brasil, além de pensador fundamental das ciências humanas “graças ao seu trabalho à frente da editora da UFMG, que revolucionou o capricho dado aos livros de editoras universitárias no país”, observa Schneider. Para o editor, a obra em questão “traz um olhar que nos ajuda a pensar e a fazer crítica literária no contemporâneo, num momento em que a própria ideia de literatura está em constante processo de mutação, com os cânones literários em movimento”.
O ensaio que dá título ao livro, segundo o autor, retoma seus conhecimentos sobre literatura italiana, “com a qual iniciei minha carreira acadêmica. Além do mais Grande Sertão: Veredas (de Guimarães Rosa) é meu livro de cabeceira”, confessa Wander. Uma das imagens significantes ligadas a Diadorim é persistente na narrativa: os olhos. “No processo especulativo de Riobaldo, o olho é um espelho em que se reflete o fantasma de Diadorim, olho aquoso que dá a ver uma sorte de virtude imaginativa em que se reafirma ausência do objeto ao apresentá-lo como imagem mortífera”, analisa Wander.
“Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos
os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas, que a ideia da gente não dá para
entender — e acho que é por isso que a gente morre.” (trecho de Grande Sertão: veredas)
Há ainda o diálogo da literatura com outras artes e linguagens, surgido da necessidade de produção de textos híbridos e heterogêneos; de textos-instalação, para citar a conversa da literatura com as artes visuais que Wander aponta em escritores como o chileno Roberto Bolaño. O autor extrai também significados contemporâneos de textos como os do romancista peruano-mexicano Mario Bellatin, do também peruano Mario Vargas Llosa, do ensaísta mineiro Silviano Santiago, e do editor pós-modernista Rodrigo Lacerda; e de escritores cujas obras canônicas se abrem para novas leituras - além de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Alexandre Eulálio e Graciliano Ramos.
“Ler os textos canônicos com olhos não canônicos significa tentar novas leituras, como que "forçar" o texto a se abrir para outras leituras, inesperadas, fazê-lo dizer o que ele tem ainda e sempre - se é um grande texto - para dizer. A literatura contemporânea é autorreferencial porque está sempre em diálogo com a tradição e com os novos meios de comunicação que tornam imprecisa a divisão entre realidade e ficção, o que não é um estilo, mas sua condição de produção e recepção.”, revela Miranda. “Hoje temos a consciência de que não há uma forma literária hegemônica, mas uma devoração antropofágica (viva Oswald!) que propicia cada vez mais o trânsito desierarquização entre tipos os mais diversos textos que poderíamos seguir chamando de literatura, com os novos aportes que o conceito adquiriu nos últimos anos”, completa.
Foto:Divulgação
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