Notícias
Obra Entidades, de Jaider Esbell, sofre ataques virtuais e ameaças de destruição durante festival Cura
Internautas alinhados ao extremismo religioso e direitistas reacionários lideram ataques racistas à instalação em Belo Horizonte
A 5ª edição do Circuito Urbano de Arte, realizada entre 22 de setembro e 4 de outubro em Belo Horizonte, movimentou não somente os admiradores da arte pública e aqueles que reconhecem a importância das mais diversas manifestações artísticas. Internautas, candidatos e fundamentalistas religiosos iniciaram, pelas redes sociais e por aplicativos como o WhastApp, uma série de ataques à cobras instaladas no icônico Viaduto de Santa Tereza. Como parte da programação do festival, a obra Entidades foi criada pelo artista indígena roraimense Jaider Esbell e carrega em si a simbologia de seu povo Makuxi. As cobras, que permanecerão por mais tempo no viaduto, oferecerão ao belo-horizontino a oportunidade de, até 22 de outubro, conhecer a referência do artista à “Cobra Grande”, símbolo da fertilidade e da fartura, e que trabalha incessantemente para proteger, alertar e manter vivos os povos originários.
Para Jairder, a Cobra Grande representa, também, “o caminho das águas, da fartura, porque ela vive debaixo da terra, nos grandes rios subterrâneos, mantendo o movimento da água sempre pulsando para que sejam mantidas as fontes. É uma ideia de sacralizar mesmo esse animal que é tão banalizado ainda na própria Amazônia, o quanto as pessoas não valorizam a sua sabedoria, a sua medicina, o seu poder e também distendendo essa cosmologia para a nossa realidade cotidiana e atual, que é o desafio que nós temos, de substituir o garimpo por outra forma de economia, essa onda de tristeza secular que essa atividade econômica tem causado pra toda humanidade”.
Os ataques à instalação representam um dos enfrentamentos vividos pelo CURA que, desde a sua primeira edição, em 2017, vai muito além das pinturas em fachadas cegas gigantes de edifícios da região central de Belo Horizonte. Por trás de cada obra de arte pública entregue à cidade, o festival mobiliza trabalhadores e organizações de diversos setores como construção civil, comércio, transporte, alimentação, hospedagem, comunicação, serviços financeiros, telecomunicações, educação, cultura e entretenimento. Somente a edição de 2020 conta com quase cem trabalhadores atuando diretamente na materialização do Circuito Urbano de Arte.
Um ano inteiro de intenso trabalho antecede cada edição do CURA, que ofereceu a BH não somente a maior coleção de arte mural em grande escala já feita por um único festival brasileiro, mas, também, o primeiro e, até então, único Mirante de Arte Urbana do mundo, já que todas as pinturas realizadas no hipercentro podem ser contempladas da rua Sapucaí.
O CURA, com tamaha grandiosidade, com toda a sua programação sempre gratuita e acessível, possui inúmeros desafios. O principal deles é construir um festival democrático, antirracista e que tenha na contracolonização uma de suas principais metas. “A proposta sempre foi um festival que seja justo, fora dos padrões, fora do eixo, representativo e cada vez mais aberto às diversas vozes que compõem a sociedade. Para que isso se realize, passamos por diversas situações de enfrentamento ante uma sociedade que, no geral, ainda peca por padrões de comportamento estagnados na construção colonial, estruturada no racismo e no patriarcado. A consequência disso? A arte pode, para muitos, chocar”, defendem as idealizadoras e curadoras do festival, Priscila Amoni, Juliana Flores e Janaína Macruz, endossadas pelas duas curadoras convidadas do CURA 2020, Arissana Pataxó e Domitila de Paulo.
A cada edição, o Circuito Urbano de Arte apresenta artistas anti-hegemônicos que resgatam suas realidades, escancaram a sua diversidade e a desigualdade em que vivem, falam por outras estéticas que não as brancas, heterossexuais, eurocêntricas, católicas ou pentecostais. Assim, o festival decide, sempre, por se posicionar a favor do dissenso. As curadoras ressaltam, ainda, que “somos múltiplos, interculturais, estamos em processo de desconstrução do patriarcado, dos racismos e em reconstrução das masculinidades. Somos brancas, negras, indígenas, pixadoras, grafiteiras, mulheres, trans, mães e novos homens construindo esse evento com múltiplas mãos. Estaremos sempre pelos nossos artistas e pela liberdade de expressão de seus trabalhos, de suas identidades, sexualidades e afetos. O festival não aprova layout e a nossa única ressalva, apresentada em contrato, é que as obras não tenham propaganda político-partidária ou ofendam qualquer gênero, raça, orientação sexual ou religião.
Intolerância e ataques racistas também marcaram presença em outras edições
Não é somente em 2020 que obras e artistas que integram o festival sofreram ataques racistas. Em 2018, a grafiteira Criola pintou o edifício Chiquito Lopes, localizado na rua São Paulo, 351. Um morador reclamou que não foi consultado sobre a obra, mesmo o regulamento do condomínio dando poderes para o conselho fiscal para autorizar este tipo de ação. Foi feita, portanto, uma assembleia geral entre os condôminos onde todos, com exceção deste morador que reclamou, votaram a favor da permanência da obra. O morador seguiu insistindo que a obra fosse apagada e entrou com um processo na justiça contra o condomínio, solicitando o imediato apagamento do mural, alegando se tratar de uma obra de “gosto duvidoso”. O mural “Híbrida Astral – Guardiã Brasileira” mede 1.365 m2 e materializa, por meio da arte, um caminho interno de honra às mulheres e seu sangue sagrado, de honra aos povos originários brasileiros e seus descendentes como legítimos guardiões dos portais da espiritualidade que sustentam o nosso país.
No ano seguinte, em 2019, na edição especial no bairro Lagoinha, a artista piauiense Luna Bastos teve sua obra previamente censurada pelo Órbi Conecta, espaço que receberia o mural. A direção do espaço solicitou que a artista retirasse os elementos interpretados como religiosos, entre eles uma vela, um turbante e um terceiro olho. Obviamente, o festival e a artista não concordaram com a censura e procuraram outro espaço que acolhesse a obra, uma empena localizada na av. Antonio Carlos, 261. A pintura é fruto de pesquisa da artista sobre a história e as manifestações culturais da Lagoinha e, para a concepção da obra, Luna se inspirou na diversidade cultural e práticas de fé da região, um território onde se encontram vários tipos de religiões, cortejos, congados. Decidiu celebrar o território com um trabalho que exaltasse a fé como uma luz que nunca se apaga. A fé na festa, a fé em um futuro mais justo, a fé na Lagoinha que, mesmo sendo recortada e parcialmente destruída pelas obras viárias, seguiu viva e rica culturalmente. A vela da obra de Luna virou patch para que cada um, tocado pela obra, pudesse levar um pouco dessa luz para casa.
Foto: Divulgação
Selecionamos os melhores fornecedores de BH e região metropolitana para você realizar o seu evento.
