Notícias
Cordéis dos Canfundó mantém viva em Minas Geras corrente literária considerada patrimônio cultural brasileiro
Literatura de cordel recebeu título do Iphan em setembro; projeto se apresenta no Barreiro, dias 27 e 29 deste mês
No dia 19 de setembro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu, por unanimidade, a literatura de cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. A decisão foi tomada pelo Conselho Consultivo, em reunião no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, que contou com a presença do Ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, da presidente do Iphan, Kátia Bogéa e do presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira. Inserido na cultura brasileira pelos colonizadores portugueses, o cordel resulta da conexão entre as narrativas orais, a poesia cantada e declamada e a adaptação para a poesia de romances em prosa.
Surgido no Nordeste do Brasil, hoje o cordel está espalhado pelos quatro cantos do país. Prova disso é o projeto Cordéis dos Canfundó, que acontece desde 2012 em teatros e escolas de Minas Gerais. A iniciativa é realizada pela Parangolé Arte Mobilização, na figura de seu idealizador, Cascão, cordelista, teatrólogo e mobilizador social que milita pela cultura popular há mais de 30 anos. "A literatura de cordel remonta às nossas raízes ibéricas, se consolidou como uma cultura tipicamente nordestina e se espalhou pelo Brasil, único país da América Latina que a mantém viva desde a Colônia. Levantamentos mostram que, hoje, há cerca de três a quatro mil cordelistas ativos no Brasil e pelo menos 30 mil livros publicados até então. É uma literatura de muita força, que tem a ver exatamente com o conceito de patrimônio imaterial, que são os saberes enraizados no cotidiano das comunidades", afirma Cascão.
O especialista lembra ainda que o cordel é "uma expressão artística, popular, democrática e horizontal", que também cumpria função informativa. "O cordel, como folheto, especialmente no século passado, foi um jornal do sertão, um exemplo da literatura de circunstância. Por exemplo, na morte de Getúlio Vargas foram impressos mais de um milhão de exemplares. Foi também a obra de arte que chegava nos grotões, traduzida por poetas populares, que influenciou grandes escritores, como Ariano Suassuna, Jorge Amado, José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto", afirma Cascão, ressaltando o caráter educativo da vertente literária. "Com o cordel, o professor do sertão alfabetizava as pessoas. Ainda hoje, especialmente no Nordeste, existem secretarias municipais ou de Estado que alfabetizam através do cordel, porque é uma ferramenta lúdica, estimulante, que como arte sintetiza educação e cultura", defende.
Cordéis dos Canfundó O Cordéis dos Cafundó começou como um espetáculo que tem como base a história da literatura de cordel e da poesia matuta, com declamações de vários autores populares. Nos entreatos, há a incorporação de manifestações artísticas, como a dança da nêga maluca, mamulengos e projeções audiovisuais numa cenografia telúrica que remetem ao universo das feiras, das quermesses e dos engenhos. Tudo ao som do Trio dos Cafundó, que acompanha o trovador em sua saga pelos recantos da alma sertaneja. "Este espetáculo, que estreou em 2012, foi construído coletivamente pela minha família e por amigos. E de lá para cá eu tenho feito diversas apresentações", conta Cascão. "Mais recentemente, desde 2015, o projeto se desdobrou em duas frentes. Uma é a pedagógica, que trabalha em escolas, com alunos e professores; e outra é um grupo mais adulto e afeito à construção artística. Damos suporte para ambos, oferecendo oficinas de teatro, música e cordel", completa.
Nas escolas, o projeto atua junto a alunos, criando espetáculos e livretos de cordel, tendo sido realizado em cidades como Naque, Peçanha, Belo Oriente e Coronel Fabriciano. Atualmente, são desenvolvidos trabalhos nas escolas municipais Itamar Franco e Dinoráh Magalhães Fabri, no Barreiro, em Belo Horizonte. "São escolas que atendem uma comunidade principalmente de ocupações e periferias. Fazemos esse trabalho, em que os próprios alunos geram cordéis e os apresentam em espetáculos. O cordel está no nosso imaginário, é uma expressão que atinge todas as almas humanas e, portanto, tem uma influência muito grande na escola, como ferramenta de cultura da literatura e da poesia", diz Cascão.
Já o projeto de teatro – que trabalha com artistas, produtores e grupos artísticos – já resultou em espetáculos em Governador Valadares e em Belo Horizonte, junto ao Grupo Novas Raízes, do Barreiro (cujo espetáculo, que conta a história da região em cordéis, continua em circulação), na Ocupação Eliana Silva e na Vila Cemig. "O cordel abre a linha pedagógica de trabalho e o pessoal começa a criar. Escolhem um tema e isso se desdobra num roteiro dramatúrgico, que é transformado em oficinas, teatralizado, dramatizado. O próprio teatro o retroalimenta com criação de novos cordéis, e a música dá o bordado, o brilho final. Resulta num espetáculo de autoria própria coletiva, apresentado sempre em praça pública. Com esse trabalho, a gente acredita que está fortalecendo nossa cultura popular e fazendo frente a essa pasteurização, a essa americanização da existência. É um trabalho de resistência e afirmação da nossa identidade", pontua Cascão.
Próximos passos
Atualmente em andamento, o projeto Cordéis dos Cafundó nas escolas municipais Itamar Franco e Dinoráh Magalhães Fabri é patrocinado pelos Freis Agostinianos. Nesta escolas, foram ministradas oficinas de cordel para professores que estão trabalhando a vertente literária em sala de aula durante todo o semestre. Alguns alunos estão envolvidos em oficinas de teatro e música que vai resultarão em dois espetáculos, a serem apresentados nos dias 27 e 29 de outubro, respectivamente no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) da Escola Municipal Itamar Franco e no Salão Paroquial da Vila Cemig.
Também neste ano, o Cordéis dos Cafundó aprovou pela Lei Rouanet um projeto de circulação da frente pedagógica em oito cidades do interior de Minas Gerais, que receberão oficinas e espetáculos durante todo o ano de 2019. São elas Bugre, Coroaci, Córrego Novo, Santo Antônio do Itambé, Santa Maria de Itabira, Sabinópolis, São Domingos do Prata e Santana do Paraíso. "Ainda neste semestre, vamos iniciar um trabalho de discussão com as secretarias municipais de educação e cultura para eleger escolas ou grupos ou salas de aulas que venham a ser beneficiados no ano que vem. Além dos espetáculos apresentados pelos alunos, editamos os cordéis criados por eles em folhetos que são distribuídos no dia da apresentação e fazemos vídeos que registra as diferentes fases do projeto", explica Cascão.
Foto: Área de Serviço
Selecionamos os melhores fornecedores de BH e região metropolitana para você realizar o seu evento.
