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Rua das Camélias estreia em novembro no Hotel Imperial Palace, da Guaicurus
Para contar o cotidiano de uma das maiores zonas de prostituição do Brasil, espetáculo promove financiamento coletivo para garantir a estreia no dia 4 de novembro
Setembro, 2016 - A Rua dos Guaicurus é o núcleo de uma das maiores e mais importantes zonas de prostituição do Brasil. Conta com um fluxo de, aproximadamente, 3.000 prostitutas que se dividem em turnos nos mais de 20 hotéis distribuídos nas imediações. Uma área no Centro de Belo Horizonte. No centro e à margem.
Em agosto do ano passado, a Companhia Vórtica começou uma pesquisa em busca das identidades das mulheres que trabalham nesses hotéis e das vidas que pulsam submersas em preconceito e fantasia. Quem são elas? Por quais motivos estão ali? O que tem de sedutor nesse lugar tão marginalizado, que tem atraído jovens de classe média em busca de festas em espaços “alternativos”? O feminismo, tão aclamado na academia, chega às mulheres da Guaicurus? Se sim, como e de que forma?
“Não tivemos o intuito de fazer teatro-documentário. Pesquisamos a linguagem da performatividade. Levantamos o material ao longo de 13 meses a partir de visitas e uma imersão de quatro meses em hotéis da Guaicurus, onde os atores passaram a ir semanalmente para conversar com as mulheres. Nesses encontros com as prostitutas, os atores buscavam ouvir o que elas tinham para dizer, e não entrevistá-las sobre o que nós gostaríamos de saber”, explica a diretora do espetáculo, Gabriela Luque.
Com estreia prevista para o dia 4 de novembro, o grupo independente criou um projeto de financiamento coletivo para viabilizar o espetáculo. As contrapartidas para quem apoiá-lo variam de R$ 10 a R$ 4.000, com prêmios que podem incluir cadernos e adereços personalizados, sessões de reiki, “kits prazer”, curso de elaboração de projetos culturais e até apresentações exclusivas. O grupo precisa levantar R$ 10.000 até o dia 4 de outubro, data em que o projeto inspira, mas só foram arrecadados 28% do valor previsto. “Manter a independência, além de ser uma questão de sobrevivência, é também garantir a autonomia durante o processo de construção da narrativa. O financiamento é a única forma de viabilizarmos o espetáculo da forma como queremos, por isso, a contribuição é tão importante”, contextualiza Luque.
Rua das Camélias
É muito difícil tirar conclusões sobre a Rua das Camélias. Quanto mais se aprofunda, mais cinza se tornam os contornos. Mas, com o olhar artístico, a companhia se propôs a contar algumas dessas histórias. Um espetáculo, uma ocupação, um processo investigativo. Para a diretora, a peça é, sobretudo, o fruto de dois desejos muito fortes: fazer teatro e levantar questionamentos. “A ideia do espetáculo surgiu quando nos deparamos com o livro Hilda Furação, de Roberto Drummond, e quisemos descobrir quem são as Hildas Furacão dos anos 2000. Quem são essas mulheres que se prostituem hoje, na Guaicurus? Outro ponto de partida foi a recente ocupação cultural que vem acontecendo na região. Esse movimento instigou o grupo a buscar compreender como se dava o diálogo entre os eventos e as mulheres que ali trabalham.”
A dramaturgia coletiva, orientada pelo jornalista, escritor e roteirista Daniel Toledo, deixa claro que o texto não tem qualquer pretensão de dar voz às prostitutas nem falar por elas. A ideia é apresentar o que elas quiseram compartilhar com o grupo durante a pesquisa e propor uma reflexão. Sara Maranhão assina a cenografia e iluminação; Flávia Pacheco, o figurino; e Deh Mussulini assume a direção musical. A preparação corporal é de Ítalo Augusto e Gutto Alves; e Bruna Sobreira realiza a produção. O elenco é composto por Ariadina Paulino, Edsel Duarte, Flávia Pacheco, Gabriel Zocrato, Istéfani Pontes, Marina Abelha e Regina Ganz.
Hotel Imperial Palace
“Buscávamos um espaço para apresentação que fosse na Guaicurus. Não havia como falar do lugar sem levar o público para vivenciar a rua marginalizada. Foi quando descobrimos o Hotel Imperial, que estava fechado há 10 anos”, conta Gabriela. Ao descobrir que o imóvel era pertencente ao Grupo Santa Casa, foi até a entidade solicitar a utilização e teve o retorno positivo de uma gestão sensibilizada com as artes. A companhia ocupa o hotel desde setembro e passou a usar a narrativa do espaço para contar a história, uma vez que ele passou a interagir e influenciar na encenação.
Romeo di Paoli, arquiteto italiano, foi quem projetou o Hotel Imperial Palace, situado na rua Guaicurus, nº 436, no Centro de Belo Horizonte. Foi doado pelo amigo Rafael Gagliard, também italiano, em agradecimento aos cuidados médicos recebidos pela Santa Casa de Misericórdia, atual proprietária do imóvel. Por se tratar de uma região de meretrício, por muito tempo o imóvel passou despercebido pelas autoridades patrimoniais e culturais.
Num primeiro instante, o edifício funcionou como sanatório para moléstias contagiosas. Segundo entrevista realizada com o administrador do hotel, o prédio foi construído no fim da década de 20, por motivos higienistas: como eram comuns os casos de tuberculose e gripe espanhola na recém-criada Belo Horizonte e o único cemitério existente era o Bonfim, no Bairro Lagoinha, o primeiro “hospital improvisado” foi ali, erguido estrategicamente para agilizar a locomoção dos cadáveres, que saíam pela Rua Guaicurus e subiam pela Rua Além Paraíba até o cemitério.
Na década de 40, Juscelino Kubistchek transformou o edifício num hotel, reconstruindo-o no estilo então em voga, o art déco. Nessa época, os hotéis da região ainda se caracterizavam por abrigar famílias vindas do interior e de outros estados para tentar a vida na capital. Os apartamentos, inicialmente destinados à cura de doentes, foram depois adaptados para hospedagem e milimetricamente divididos para que mais mulheres pudessem trabalhar.
Os quartos, hoje, são cubículos, muitos dos quais internos e sem janela (alcovas). Grande parte dos pórticos originais arredondados foi mantida, mas o piso primordial (taco) foi trocado por retalhos de cerâmica (o que faz do chão um mosaico kitsch). Um sobrevivente da arquitetura original, o elevador, embora interditado ao uso, conserva caracteres peculiares, como a grade de treliça. Ao lado dele, há uma placa de bronze com as insígnias do construtor, Romeo di Paoli, e mais à frente, a escadaria que conduz aos quatro andares.
Foto: Fernando Badharó
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