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Espetáculo Nastácia encerra temporada no CCBB BH e segue para o Rio de Janeiro

Com estreia nacional na capital mineira, o espetáculo “Nastácia” trouxe ao público uma adaptação da obra O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, com temáticas que permanecem atuais. Ao longo da temporada, iniciada em 9 de agosto, os ingressos esgotaram em todas as sessões, lotando o teatro II do CCBB Belo Horizonte. Quase duas mil pessoas assistiram a peça e mais de 2.800 visitaram a instalação assinada por Ronaldo Fraga, que conta com videoarte de Cao Guimarães.

O espetáculo chega ao seu último fim de semana, no próximo dia 6 de setembro, com os ingressos também já esgotados, mas o público ainda tem a oportunidade de conferir a Instalação Artística, em exibição no Teatro II do CCBB até o dia 9 de setembro. A visitação é gratuita e o espaço fica aberto de quarta a segunda-feira, de 10 às 17 horas. Depois de Belo Horizonte, “Nastácia” terá temporada no Rio de Janeiro (data e local serão divulgados oportunamente).

A Instalação Artística traz um diálogo com fortes temas abordados na obra de Dostoiévski, como a descrição dos rostos dos personagens. Uma das inspirações, o Príncipe Míchkin (o homem positivamente belo retratado pelo autor russo) diz que, ultimamente, se fixa muito nos rostos. “Ele é o único que consegue ver as pessoas além da aparência”. O contraste da beleza enquanto matéria e a beleza dos valores de amor e compaixão é algo muito presente na obra literária e uma característica também presente nos trabalhos de Ronaldo Fraga e Cao Guimarães.

Os artistas por trás de “Nastácia” são um destaque a parte. Com direção de Miwa Yanagizawa e dramaturgia de Pedro Brício, no elenco estão Chico Pelúcio (que vive Totski), Flávia Pyramo (Nastácia) e Odilon Esteves (interpretando Gánia). A consultoria teórica é de Paulo Bezerra, principal tradutor da obra de Dostoiévksi para o português e Flávio Ricardo Vassoler; a direção de movimento é de Tuca Pinheiro; luz de Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal; e trilha sonora de Gabriel Lisboa.

Democratização e acesso ao teatro

Para garantir que mais pessoas tivessem acesso ao espetáculo, ao longo da temporada foi realizado o programa Van ao Teatro que atendeu moradores de abrigos da capital mineira, alunos do programa de Educação para Jovens e Adultos de escolas municipais e integrantes de projetos sociais da capital. Além de ingressos gratuitos, foi disponibilizada para esses espectadores uma van para buscar e retornar para o bairro. “É uma tentativa de contribuir para a democratização do acesso aos bens culturais que estamos produzindo e, além disso, é uma ação de formação de plateia. É imprescindível popularizar o teatro”, destaca Flávia Pyramo, atriz e idealizadora do espetáculo “Nastácia”.

Tiveram a oportunidade de assistir ao espetáculo pessoas atendidas pelo Abrigo Anita Gomes dos Santos (Centro) e Abrigo Municipal Granja de Freitas (Taquaril); do EJA da Escola Municipal George Ricardo Salum, do Alto Vera Cruz, e Escola Municipal Professor Domiciano Vieira, no Horto.

"Eles se sentiram extremamente valorizados. A maioria só tem acesso aos locais de arte e cultura através dos passeios da escola. Quando participam dessas atividades se apropriam destes espaços em nossa cidade, sentem-se pertencentes a um espaço do qual muitos sentiam-se excluídos ou não merecedores. O brilho no olhar deles não há dinheiro que pague", declarou Edméa Pereira da Silva, coordenadora professora do EJA da Escola Municipal George Ricardo Salum, do Alto Vera Cruz.

Ainda são beneficiados pelo projeto Van ao Teatro as Meninas de Sinhá, do Alto Vera Cruz, que acompanharam a estreia da peça, e participantes do Centro Cultural Alto Vera Cruz e integrantes do “Lá na Favelinha”, do São Lucas.

O espetáculo Nastácia

Baseado na heroína do clássico O Idiota, de Fiódor Dostoiévski - o espetáculo une o teatro a outras linguagens artísticas (como instalação e videoarte) para contar a história de uma das mais instigantes personagens femininas da literatura universal. Segundo a atriz Flávia Pyramo, Nastácia é um exemplo de mulher que transformou fragilidade em força, que lutou por sua dignidade com muita coragem, mesmo vivendo um turbilhão interno e uma violência terrível. “Contar sua história foi meu objetivo nos últimos seis anos. Contar a história de Nastácia, no teatro, hoje, é uma forma de dar um grito coletivo: chega!”

A peça se passa no apartamento de Nastácia, na noite do seu aniversário. Ela deve anunciar seu casamento com Gánia, união articulada pelo oligarca Totski, homem que transformou Nastácia em concubina desde a adolescência e a submete a um verdadeiro leilão naquela noite. Flávia Pyramo conta que a ideia de fazer o espetáculo sobre uma personagem, com um recorte específico de um momento da sua história, veio do Kamas Ginkas, um diretor de teatro russo que montou a peça "KI from Crime", uma adaptação do livro "Crime e Castigo".

Passado e presente

Concebido entre 1867 e 1869, “O Idiota” está longe de ser anacrônico. Segundo o Datafolha, no ano passado 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil; e 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Para a diretora do espetáculo Miwa Yanagizawa, a arte é um espaço em que o artista pode, como mediador, reumanizar estatísticas devastadoras como essas.

“Às vezes, os números são terríveis, eles nos espantam sem tocar. São séculos de opressão e crueldade contra as mulheres e, muitas vezes, acho que não nos vemos responsáveis pela manutenção de tais tragédias humanas. Tomamos distância como se elas pertencessem a um outro universo, como coisas que acontecem somente fora de nossas casas. Então, lemos os números e seguimos nossas vidas repetindo gestos que alimentam a irracionalidade e a negligência com os outros, mas, “sem perceber”, estamos colaborando com o crescente e alarmante número da violência contra a mulher, por exemplo.”

“A história de Nastácia, como tudo em Dostoiévski, é de uma espantosa atualidade”, sublinha Paulo Bezerra. Primeiro ela é vítima de um grão-senhor e gentleman pedófilo, que se vale do repentino estado de miséria dela e do muito dinheiro que possui e a transforma em concubina aos doze anos de idade, sem sofrer qualquer censura da sociedade: é o poder do dinheiro falando mais alto. Depois, já adulta, é vítima de um amante paranoico, que, por não conseguir conquistar seu amor, simplesmente a mata. Portanto, duas formas de crime contra a mulher: o crime alicerçado no dinheiro e o crime derivado da impossibilidade de conquistar o coração e a mente da mulher. Ou seja, o crime motivado pelo sentimento de posse, pela tentativa de coisificação da mulher.”

Bezerra destaca que hoje, no Brasil, a mulher é vítima de várias formas de violência, uma delas, a mais frequente, deriva do tratamento da mulher como posse, como objeto, como coisa. “Assim, a principal característica de um clássico é a de transcender os valores do seu espaço e do seu tempo e ser lido de maneira nova e atual em outras épocas e outras culturas à luz dos valores dos novos tempos. O papel da arte, sobretudo da arte teatral, é o de trazer as questões levantadas pelos clássicos para a atualidade e recriá-las à luz da realidade e da cultura locais, permitindo ao espectador, no caso o brasileiro, associar o destino de Nastácia ao de muitas mulheres brasileiras tão vítimas da violência como ela.”

"Leia os jornais, por favor, porque a conexão visível entre todos os assuntos, gerais e particulares, está ficando cada vez mais forte e mais óbvia". Flávia Pyramo relata que foi assim que escreveu Dostoiévski sobre o caso (que estampou os jornais da Rússia no séc XIX) da adolescente Olga Umiétskaia que viveu sob tirania e desumanidade familiar, e acabou inspirando a criação de Nastácia Filíppovna. “São os conteúdos jornalísticos de hoje, de Belo Horizonte, do Brasil, do mundo, que denunciam a trágica realidade em que ainda vivemos”, ressalta.

Foto: Guto Muniz.

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