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O festival Janela de Dramaturgia completa 10 anos e lança edição comemorativa com nova geração de autores teatrais de Belo Horizonte
Nesta edição, o público confere leituras dramáticas de textos teatrais inéditos, encontros com os artistas veteranos Ione de Medeiros e Eduardo Moreira, além de um laboratório de escrita teatral
No dia 20 de agosto, no Sesc Palladium, começa a edição comemorativa de 10 anos do Janela de Dramaturgia, um festival de textos teatrais contemporâneos. De agosto a dezembro, uma vez ao mês, atores e atrizes convidados leem textos teatrais da nova geração de dramaturgos de Belo Horizonte. Sempre após as leituras, o público participa de um bate-papo com os autores sobre suas obras e seus processos criativos, mediado por um artista convidado.
Criado em 2012 com o intuito de divulgar novos autores teatrais da capital mineira, o Janela de Dramaturgia é hoje, em Belo Horizonte, o maior espaço de divulgação, estímulo e formação de dramaturgia contemporânea, e um dos principais do Brasil. Quando a artista e poeta Julia Panadés foi ao evento, o descreveu assim: “um singular acampamento dramatúrgico”. A ideia de acampamento dá o conceito da edição de 10 anos: acampar como um modo de estar, provisório e improvisado, para conhecer novas paisagens. Novas paisagens textuais, teatrais, sonoras e poéticas.
Encontros e diálogos entre gerações
A abertura do festival homenageia Ione de Medeiros, artista, diretora de teatro e realizadora do Verão Arte Contemporânea. Ione, que este ano comemora 80 anos de vida e 45 anos do seu Grupo Oficcina Multimedia, lerá junto aos atores do coletivo, fragmentos de textos que fizeram parte do repertório da companhia, além de alguns textos inéditos que não entraram nas peças teatrais. Antes da participação de Ione de Medeiros, o público confere uma aula-performance do artista Vinícius de Souza, um dos idealizadores do Janela de Dramaturgia. A aula, que inclui muitos elementos performáticos e autoficcionais, é uma experimentação do artista que há dez anos dá aulas de dramaturgia. Reflexões sobre a palavra, o teatro e a arte se misturam a temas mais amplos como o medo e a brevidade da vida.
Já o encerramento do festival, que acontece em dezembro, traz o ator, diretor e dramaturgo Eduardo Moreira, que este ano está comemorando os 40 anos do Grupo Galpão, coletivo que fundou em 1982, ao lado de seus companheiros. Eduardo, que já publicou vários livros e diários de montagem do Galpão, lê no festival duas peças inéditas, de sua autoria, que falam sobre a técnica do ator e as relações entre teatro e vida.
“A edição deste ano do Janela, que está comemorando os 10 anos do festival, apresenta ao público uma nova geração de autores e autoras de Belo Horizonte, que chega refrescando a cena teatral da cidade, mas sem deixar de reverenciar e dialogar com figuras fundamentais do teatro mineiro que seguem muito vivas artisticamente, como Ione e Eduardo”, afirma Vinícius de Souza, coordenador do festival.
Além da mostra de textos, o festival abre inscrições para o Laboratório de escrita, um espaço de prática e reflexão de dramaturgia. O laboratório, que acontece uma vez por semana de setembro a dezembro, se divide em quatro módulos. Cada um dos módulos é conduzido por um artista convidado, que compartilha com os participantes sua pesquisa, suas ferramentas de escrita e seu processo criativo. Os artistas, todos de intensa atividade artística na cidade, são: a dramaturga e atriz Marina Viana, o poeta e performer Renato Negrão, o ator e roteirista Germano Melo e o dramaturgo e ator Marcos Coletta.
A nova geração de dramaturgos de Belo Horizonte
Belo Horizonte é conhecida, nas últimas décadas, como uma cidade efervescente quando o assunto é dramaturgia. Exemplo disso é a escrita teatral de Grace Passô, dramaturga mineira que já figura como um dos principais nomes do teatro brasileiro do século XXI. Assim como Grace, outros nomes como Marina Viana, Anderson Feliciano e Assis Benevenuto, já passaram pelo Janela de Dramaturgia, em edições anteriores.
A curadoria do festival deste ano apresenta ao público uma novíssima geração de autores e autoras teatrais: Amora Tito, Arthur Barbosa, Carmen Marçal, Eduarda Fernandes, Nayara Leite e Tomás Sarquis. Jovens, todos entre vinte e trinta anos, apresentam estilos, estéticas e modos de criação bem diferentes, formando um panorama bem colorido. Os textos que serão lidos desses autores e autoras também oferecem temas, personagens e ambientes muito distintos.
A dramaturga Amora Tito entende seus textos teatrais como ações de legítima defesa, um modo de enfrentar o mundo. “Rebordose”, seu texto que será lido no festival, conta a história de um personagem que não sabe mais onde começa seu corpo (ou melhor, sua corpa!) e onde termina o mundo.
Nayara Leite, que também é atriz e arte-educadora, escreve a partir das histórias que ouve. “Por ter muita influência da oralidade, eu sempre gosto de imaginar que a minha escrita é feita para ser celebrada pela boca, que elas sejam ditas em voz alta", relata. Seu texto “Receita” foi escrito a partir da observação das mulheres da sua família e a percepção de um ciclo de violência que as persegue, de geração a geração.
Tomás Sarquis, que se formou como ator na escola de teatro do Palácio das Artes, problematiza a relação da espécie humana com a natureza. “A natureza tem eras de história. Nela, a experiência humana é um momento, até então, breve. ” Seu texto, “Milumestórias”, será lido pelos poetas Nívea Sabino e Pedro Bomba.
Idealizadora do coletivo Diz Trava Através do Olhar, Carmen Marçal escreve a partir de uma perspectiva decolonial. “Botão zíper”, que será lido no festival, reflete sobre os modos como uma pessoa transgênera vivencia o tempo e os ciclos da vida.
Arthur Barbosa, formado em dramaturgia pela SP Escola de Teatro, desenvolve seus textos a partir de um fluxo de escrita. “Esses fluxos de pensamento algumas vezes aparecem no texto mas por vezes ficam ali como um embrião da escrita, um fantasma que me ronda e volta, de vez em quando, em fragmentos.” “Caleidoscópio”, sua dramaturgia, propõe muitos pontos de vista sobre um mesmo acontecimento.
A dramaturga e atriz Eduarda Fernandes, cofundadora-integrante do grupo Quartatela, conta que “também se aprende a escrever com as pedras, os animais, a geografia, a biologia, os mapas, as línguas que não falamos, as cidades em ruínas, as florestas erguidas, a história contada e a história de fato”. O texto que ela apresenta no festival vem cheio de símbolos, narrativas ilógicas e oníricas.
Sobre o Janela de Dramaturgia
O Janela de Dramaturgia surgiu em 2012, idealizado pelos artistas Vinícius de Souza e Sara Pinheiro, em parceria com o Teatro Espanca!. Foi criado num momento de intensa atividade cultural na cidade, ao lado da Praia da Estação e de projetos parecidos como a Mostra Cantautores e o Cinema de Fachada, que propunham novas ocupações do centro urbano, divulgação dos artistas da cidade e intercâmbios artísticos.
O festival era voltado exclusivamente para a produção belo-horizontina, mas, a partir da terceira edição, passou a receber dramaturgos de todas as regiões do Brasil e de outros países como Argentina e Portugal. Nomes importantes como Grace Passô, Marcio Abreu, Eid Ribeiro, Dione Carlos, Silvia Gomez, Cida Falabella e Rita Clemente já passaram pelo projeto. Nesses 10 anos, mais de 80 textos teatrais inéditos foram apresentados. Desses textos, vários foram encenados (como Vaga Carne, de Grace Passô, Get Out!, de Assis Benevenuto, e Danação, de Raysner de Paula) e muitos publicados pela Editora Javali. A Editora Perspectiva chegou a publicar a Coleção Janela de Dramaturgia, com os textos das três primeiras edições.
Realizado em diferentes locais da cidade, do CCBB ao Teatro Espanca!, o festival sempre promoveu, além da mostra de textos, debates com os artistas, oficinas e workshops de dramaturgia, lançamento de livros e tradução de peças estrangeiras.
A edição de 10 anos do Janela de Dramaturgia é correalizada pelo Sesc Palladium.
SERVIÇO: Janela de Dramaturgia – Edição 10 Anos
@janeladedramaturgia
PROGRAMAÇÃO
Sessão de Abertura
20 de Agosto, sábado, no Sesc Palladium
17h: Aula-performance, com Vinícius de Souza
18h: A dramaturgia de Ione de Medeiros, com Grupo Oficcina Multimedia
19h: Discotecagem de Para-vinícius
1ª Sessão da Mostra
03 de setembro, sábado, no Sesc Palladium
17h: Milumahistórias, de Tomás Sarquis
18h: Texto de Eduarda Fernandes
19h: Bate-papo com os autores, mediado por Mario Rosa
2ª Sessão da Mostra
01 de outubro, sábado, no Sesc Palladium
17h: Caleidoscópio, de Arthur Barbosa
18h: Rebordose, de Amora Tito
19h: Bate-papo com os autores, mediado por Daniel Toledo
3ª Sessão da Mostra
05 de novembro, sábado, no Sesc Palladium
17h: Botão Zíper, de Carmen Marçal
18h: Receita, de Nayara Leite
19h: Bate-papo com as autoras, mediado por Guilherme Diniz
Sessão de Encerramento
03 de dezembro, no Sesc Palladium
17h: Método Domec de interpretação, de Eduardo Moreira
18h: O ator das multidões, de Eduardo Moreira
19h: Bate-papo com Eduardo Moreira
Ingressos R$15 inteira / R$7,50 meia
Laboratório de Escrita
Toda quinta-feira, de setembro a dezembro, de 19 às 22h, no Sesc Palladium.
Participação mediante inscrição.
Mais informações sobre as inscrições na página do Instagram @janeladedramaturgia
Foto: Athos Souza
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