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“MULHERES ENCENADORAS em rede” presta homenagem a Haydée Bittecourt com discussões sobre a mulher na direção teatral, em diversas plataformas digitais

De 17 de agosto a 16 de setembro, o coletivo de mulheres artistas da encenação debate, entre outras pautas, o protagonismo e a visibilização do segmento por meio de palestra-performance, com discussão ao vivo, oficinas, residências artísticas e podcasts

No dia 17 de agosto, terça-feira, o coletivo Mulheres Encenadoras realiza o “Mulheres Encenadoras em Rede”, iniciativa inédita em Belo Horizonte que propõe discussões em torno da atuação de mulheres artistas no campo da direção teatral, por meio de palestra-performance, mesas de debate, oficinas, residência artística e podcasts. Cida Falabella (MG), Maria Thaís (SP), Onisajé (BA) e a chilena Sara Rojo são algumas das encenadoras convidadas para compor a programação. Este projeto, que é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, presta homenagem à diretora, atriz e pedagoga Haydée Bittecourt (SP), expoente da encenação nacional com forte atuação e influência na construção do teatro mineiro. Para a abertura está prevista palestra performativa com a atriz, dramaturga e poeta transvestigênera Ave Terrena (SP), a partir das 20h, ao vivo, no canal do evento. Toda a programação é gratuita e ocorre no Instagram, Youtube e Spotify do @mulheresencenadoras. É necessária inscrição prévia para oficinas e residências artísticas.

“Fazer Mulheres Encenadoras em Rede é dar força para nossa existência dentro do teatro. Na história dominante, a gente percebe um apagamento e uma invisibilização das mulheres ocupando funções conceptivas. E a gente sabe que o teatro reflete a sociedade racista e machista, e dentro dessa estrutura, a gente não está livre das opressões”, explica a diretora, palhaça, drag king e educadora social Michelle Sá, integrante do coletivo e investigadora do teatro negrA e cenas decoloniais.

Cláudia Henrique, outra encenadora do coletivo, acrescenta que as mulheres ficam, muitas vezes, atrás das cortinas. “São muito saberes guardados nos bastidores da cena. Compartilhar esses processos é importante para o pertencimento e para a colaboração entre as criadoras que trazem trajetórias femininas diversas e potentes”. A atriz, pedagoga, gestora da Cia Candongas e Outras Firulas e atuante no teatro de comunidade completa que a escuta vai ser a base do encontro, “para que a gente veja e descubra outras mulheres que estão nesse mesmo movimento”, diz.

Além da profunda lacuna em relação à memória do trabalho de diretoras que construíram importantes caminhos estéticos, éticos e políticos, para uma das idealizadoras do projeto, a diretora, atriz e professora universitária Raquel Castro, a história da encenação ainda é marcada pela presença masculina, branca e cisgênera. “Há um pensamento naturalizado e preconceituoso de que funções técnicas, assim como as de ‘autoridade’ e ‘coordenação’ no campo teatral não são destinadas à mulher. Nosso objetivo é incentivar que as mulheres sejam encenadoras de várias formas, num conceito ampliado. Não tem uma forma só de exercer essa função. A gente busca uma perspectiva bem horizontal nas relações, que é uma ideia bem diferente do contexto da encenação masculina e patriarcal. Acho que passa por ampliar as formas e linguagens comtemplando a diversidade, explica.

O coletivo Mulheres Encenadoras composto pelas artistas Cláudia Henrique, Raquel Castro, Manu Pessoa, Gláucia Vandeveld, Ana Cecília Lima, Kelly Crifer, Michelle Sá, Thálita Motta, Camila Morena, Camila Vendramini, e Júlia Camargos, é criado em 2020. Mas em 2017, começa a tomar forma a partir de encontros entre as artistas, dentro do Núcleo de Pesquisa em Direção Teatral do Galpão Cine Horto, coordenado na época por Raquel Castro. Desde então, têm sido realizadas trocas, conversas e compartilhamento de práticas entre as artistas, com o intuito de formar uma rede de mulheres interessadas no estudo e na criação artística pelo viés da encenação. “Até existem outros festivais de teatro com recortes em torno do feminino, mas com essa pegada específica da difusão das mulheres diretoras é uma novidade”, explica a atriz, diretora e produtora Manu Pessoa, que também integra o “Mulheres Encenadoras”.

Na abertura do evento (17), terça-feira, às 20h, a palestra performativa - concebida pela atriz, escritora e um dos ícones da representatividade trans no mundo artístico, Ave Terrena (SP) - une o processo de criação de suas peças sobre a ditadura militar com trechos do livro de poesias, por ela escrito, intitulado “Segunda Queda”. A artista somou a esses trabalhos trechos de livros publicados por pessoas LGBT+ desde a década de 1980 até os dias de hoje. A obra propõe uma reflexão poética no corpo sobre as narrativas silenciadas na história do teatro e da literatura. “O formato performativo é bastante interessante porque está ali na fronteira entre a performance artística e uma palestra, friccionando a teoria e a prática, trazendo reflexão e dando o gostinho da cena”, explica Raquel Castro. A transmissão ocorre ao vivo no youtube.com/mulheresencenadoras.

As mesas gratuitas são abertas ao público e serão transmitidas, ao vivo, sob mediação das artistas do coletivo Mulheres Encenadoras. A mesa sobre “Teatra NegrA e cenas decoloniais” recebe a diretora, dramaturga, arte-educadora e co-fundadora da Cia de teatro “Os Crespos”, Lucelia Sergio (SP), e também a diretora, dramaturga, mestra em Artes cênicas e Yakekerê (segunda sacerdotisa) do Ilê Axé Oyá L´adê Inan, Onisajé (BA); Já em “A Encenadora pedagoga: poéticas femininas de encenação e aprendizagem nas artes cênicas” participam a atriz, diretora e pedagoga, Gláucia Vandeveld (MG), e a diretora do CPT – SP e professora universitária, Maria Thaís (SP).

Ainda sobre a programação das mesas, o público assiste aos debates de “O coração é o norte: diretoras de outros eixos” que traz as convidadas Cecília Maria (BA) - diretora e escritora - e Wlad Lima (PA) - diretora e cenógrafa; A mesa “Mulher, teatro e Comunidade” tem a presença de Hérlen Romão - atriz, dramaturga e diretora, moradora do Aglomerado da Serra/BH - e de Dodi Leal. “Dodi é doutora, artista trans, e uma das maiores referências brasileiras no tema. Ela fala em suas pesquisas sobre as ‘corpas’ do teatro das oprimidas. Uma mulher que abriu caminhos na instituição dentro da academia”, contextualiza Raquel Castro.

Durante a programação, as artistas Ione de Medeiros, Cida Falabella, Janaína Leite, Thalita Braga, Ju Pautilla, Marina Viana, Soraya Martins, Júlia Tizumba, Bernadeth Alves, Aline Andrade, Meire Regina e Cláudia Henrique, Sara Rojo e Romina Paula participam de podcasts com mediação das artistas do coletivo. Entre os temas abordados, “Encenação e gestão”, “Relações entre teatro e comunidades: território, pedagogia e encenação”, “Feminismo e encenação – o teatro dos anos 10”, Processo de formação de diretoras: desafios e caminhos possíveis no Brasil”, “O teatro na encruzilhada”, “Mulheres diretoras na América do Sul” e “Teatros do real por mulheres encenadoras”. “Apesar do longo processo histórico de invisibilidade, a gente tem a oportunidade de ouvir inúmeras artistas que estão fazendo trabalhos incríveis, autênticos, originais e de enorme relevância”, ressalta Raquel Castro.

Ainda sobre a série de podcasts, para Manu Pessoa “o ouvinte ou a ouvinte pode estar em trânsito fazendo alguma coisa, e isso vai fazendo sentido ali no cotidiano”. Michelle Sá, apreciadora da ferramenta, reforça que “possibilita fazer os afazeres domésticos enquanto se escuta, algo muito relacionado ao contexto da mulher brasileira que realiza múltiplas jornadas de trabalho, sendo uma delas o cuidado com a casa”. Ela lembra que as mulheres eram as principais ouvintes de radionovelas. “Além de ampliar as vozes, o podcast e as ferramentas digitais em geral também alcançam novos territórios e públicos”. Raquel Castro concorda que há vantagens, mas também desafios. “Ser ouvida na rede é um desafio. Mas a gente acredita que as partilhas podem ser feitas sim, que tem aí sim um espaço para ocupar, pesquisar, estudar, dividir, compartilhar experiências e visões sobre a encenação”, afirma.

Entre as oficinas, estão previstas "Dramaturgia Afrodiaspórica - um foco na construção de narrativas negras" com a diretora Onisajé (BA), "Encenação e Dramaturgia do Espaço" com Camila Vendramini (Coletivo Mulheres Encenadoras), "Direção de Arte e Encenação" com Camila Morena e Thálita Motta (Coletivo Mulheres Encenadoras) e a "Incubadora de Projetos de Encenação para Mães Diretoras", com Raquel Castro (Coletivo Mulheres Encenadoras). Esta última traz a presença de brincantes profissionais para que as mães possam deixar as crianças em atividade durante a oficina.

A Residência artística “Encenar, no feminino - quais os caminhos?” será conduzida a partir de encontros com Maria Thaís - autora de livros, professora sênior do Museu Paulista-USP professora Senior e diretora-residente no CPT –– SESC. Com a Cia Balagan (SP) realiza projetos de pesquisa e espetáculos e como diretora e pedagoga teatral coordena e orienta atividades artísticas-pedagógicas e acadêmicas no Brasil e em países como Itália, Rússia, Colômbia, França, México. A residência propõe encontros que pretendem, através da reflexão e do exercício criativo e poético, prospectar outros modos de operar a encenação e de ocupar o lugar/função de encenador’s e diretor’s cênico. A residência é voltada para artistas e/ou estudantes de arte (teatro, dança, performance, cinema, literatura, etc.).

Em 2020, foi centenário da artista Haydée Bittecourt (SP), mas o coletivo não quis deixar de marcar a data. “Haydée é extremamente importante na história do teatro brasileiro. No início da segunda metade do século XX, essa mulher ocupou a função de direção, que até então na história do teatro brasileiro era predominantemente ocupada por homens”, afirma Michelle Sá. Segundo a artista, Haydée foi uma das primeiras mulheres a lecionar na Escola de Arte Dramática de São Paulo e dirigiu por 21 anos o T.U., uma das principais escolas técnicas de formação de Belo Horizonte, a convite de Sábato Magaldi. “A gente precisa lembrar desses nomes. Não somente de diretores, mas de mulheres, fazer com que elas e outras várias dramaturgas e encenadoras que estão e estiveram aí fazendo sua caminhada na direção teatral, sejam valorizadas. É um marco na cena teatral feminina brasileira. Haydée é um marco e nos inspira”, conclui.

Foto: Luiza Villarroel

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