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A bruxa
Ingressos para Letra em Cena. Como ler Clarice Lispector estão esgotados
A sexta edição do projeto Letra em Cena. Como ler... do Centro Cultural Minas Tênis Clube apresentará o texto de Clarice Lispector sob o olhar da professora doutora de literatura Portuguesa e Brasileira, Nádia Battella Gotlib. A leitura dos textos de Clarice ficará a cargo da atriz Christiane Antuña. Os ingressos gratuitos para a única sessão, no dia 9 de agosto, quarta-feira, às 19h, já estão esgotados.
Segundo Nádia Gotlib o texto de Clarice não possui uma característica marcante, o escrito da autora ucraniana radicada no Rio de Janeiro é inteiramente inovador. “Há um conjunto de características responsáveis pelo texto de Clarice ser o que é. Ela instaurou um novo modo de construir narrativas e de lidar com a linguagem”, afirma. Nádia, que escreveu dois livros sobre Clarice e algumas dezenas de artigos sobre a autora, diz que “”Perto do coração selvagem”, seu primeiro romance, lançado no final de 1943, surpreendeu a crítica a própria Clarice, que não esperava tamanha repercussão”, conta. Por esta publicação a autora recebeu críticas cruéis. “A crítica negativa, como a de Álvaro Lins (1912-1970), ajuda a entender a importância do romance. Ele considerou o romance 'incompleto’. Acontece que a romancista optou por uma estrutura de caráter fragmentário, que valoriza os subentendidos patentes nas entrelinhas, valoriza as sugestões, que substituem as certezas de antes”, explica.
Algo marcante no texto de Clarice apontado por especialistas e amantes da escritora é a profundidade com que ela mostra seus personagens, apresentando para eles a dimensão do inconsciente. Segundo Nádia, esta forma “foi uma inovação na medida em que a escritora usa o que o crítico Antônio Cândido (1918 -2017) chamou de 'romance de aproximação'. Não se trata de 'romance psicológico', que, naquela altura, já era considerado ultrapassado. Trata-se de uma tentativa de o narrador se aproximar, gradativamente, do seu personagem, como se estivesse mesmo acompanhando-o nas suas experiências mais íntimas. Por vezes, esse percurso se faz de modo muito intenso, sem dar fôlego ao seu leitor, é o caso do romance “A paixão segundo G.H.”, um dos momentos mais literariamente bem-sucedidos de sua obra”, constata.
E é por meio dessas intimidades que Clarice colocou para os leitores que, de acordo com Nádia, estes são conquistados e se apaixonam pela escritora. “A identificação surge da leitura de textos de Clarice. Basta acompanhar os seus personagens, os percursos pela intimidade deles, para perceber que há algo em comum entre tais personagens e seus leitores. Aliás, Clarice passou por essa experiência. 'Mas essa sou eu', afirmou a autora, ao ler os contos de Katherine Mansfield”, diz. A aura de bruxa que Clarice carrega também tem explicação nessa questão do mistério da intimidade, na busca pelo sentido da literatura. “Clarice age mesmo como uma 'bruxa' em certos textos. Sadicamente prepara receitas ficcionais que nos atingem no âmago, mexem com nossas entranhas, questiona padrões de comportamento, desmancha certezas de sistemas fechados, abre novas perspectivas de visão de mundo”, explica.
Alguns fãs chamam Clarice de poeta, mas não é correto denomina-la assim. “Clarice não é poeta. Escreveu um livro de poemas que se perdeu. Há alguns poemas, poucos, que foram encontrados pela pesquisadora Aparecida Maria Nunes. Não podemos, pois, considerar que Clarice seja uma poeta (ou poetisa, segundo alguns). Mas é poeta na medida em que pratica a 'arte poética' ou 'literária' com tons de acentuado lirismo em alguns dos seus textos. E “Água viva” é um desses exemplos”, constata Nádia.
É importante destacar que Clarice é uma referência feminina na literatura nacional. “Sua obra começou a ser traduzida nos anos 1950, na França. E nos anos 1960 já tinha tradução em inglês de “A maçã no escuro”, por um eminente tradutor, Gregory Rabassa. Nas décadas seguintes as traduções foram aumentando de modo surpreendente por vários países. Há uns dez anos, sua obra já tinha sido traduzida em quase trinta línguas. Não é pouco”, analisa.
Foto: Divulgação
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