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Artistas do projeto Circunvizinhança apresentam mostra e intervenções urbanas sobre o bairro Santa Efigênia
No dia 10 de agosto (sábado), integrantes da residência do ateliê ESPAI apresentarão intervenções sobre narrativas e aspectos históricos da região
Episódios históricos, características geográficas, costumes e narrativas do chamado "baixo Santa Efigênia". São esses alguns pilares das pesquisas desenvolvidas no projeto Circunvizinhança, proposto pelo ateliê ESPAI. A residência artística, que começou em março, realiza mais uma etapa no dia 10 de agosto (sábado), das 10h às 17h, no ESPAI. Trata-se do evento "Crônicas Visuais: Mostra & Intervenções", em que Nydia Negromonte, Flávia Péret, Ricardo Portilho, Roberto Freitas e Ricardo Burgarelli mostrarão aos moradores do bairro e ao público geral instalações e ações artísticas resultantes das expedições, pesquisas e entrevistas desenvolvidas no bairro. Durante o período da mostra dos dias 11 a 17 de agosto, sempre às 15h, os artistas farão visitas guiadas para apresentar seus trabalhos à comunidade.
A primeira ação do Projeto Circunvizinhança, foi, cartograficamente, dividir a área do bairro Santa Efigênia, fora da Avenida do Contorno, em 5 rotas e distribuir entre os cinco artistas, com interesses e linguagens diversos, como artes visuais, design e literatura. Os resultados decorrentes dessa pesquisa de campo foram apresentados aos moradores do bairro pela primeira vez na "Mostra em Diagrama", que aconteceu no dia 4 de maio, no ESPAI. Agora, é a vez dos participantes do projeto transformarem em obras artísticas todo o material coletado. Nas ruas do bairro Santa Efigênia, serão apresentadas serigrafias, objetos e instalações, distribuídas publicações e realizadas ações.
Durante o dia, os artistas intervirão no bairro, envolvendo ativamente os moradores e frequentadores. Desta ação coletiva resultará uma nova cartografia, aproximando histórias, pessoas e lugares. Um mapa servirá de convite para que a comunidade participe das visitas às intervenções, sendo que algumas delas terão os próprios artistas como guias. Para Nydia Negromonte, que também divide a curadoria do projeto com Marcelo Drummond, ambos gestores do ESPAI, esta etapa é uma das mais importantes de todo o projeto.
“A materialização dos projetos, tendo o bairro Santa Efigênia como território de pesquisa, será fundamental para estreitar ainda mais a conexão e o diálogo com seus moradores e, por extensão, desta região com a cidade de Belo Horizonte", defende a artista e curadora do projeto. “Certamente, o retorno será grande e nos dará subsídios para futuras ações a serem desdobradas pela cidade", completa Negromonte.
Para concluir o projeto, será editado um guia-cartilha, peça gráfica que reunirá crônicas do baixo Santa Efigênia, registrando a memória textual, documental e imagética do trabalho realizado pelo ESPAI durante a residência dos cinco artistas. A publicação, que também sairá em formato digital, será distribuída em pontos estratégicos, contemplando as duas zonas pertencentes ao bairro, dentro e fora da Avenida do Contorno: ateliês, bancas, padarias, farmácias, bares e armazéns.
Pontos de partida
Durante a "Mostra em Diagrama", os artistas apresentaram os primeiros resultados da pesquisa de campo. Enquanto Ricardo Burgarelli se desdobrou pelos momentos obscuros da ditadura militar e pela história de formação e resistência das vilas e favelas da região, Ricardo Portilho buscou na Tipografia Mathias o arquivo de cartões de visitas de um dos tipógrafos mais antigos da cidade, traçando ligações com os dias atuais através de buscas no Google Maps.
Já Roberto Freitas investigou a questão e os efeitos dos rios canalizados da região, estabelecendo parâmetros geográficos da cidade de Belo Horizonte com a região da Serra do Cipó. Nydia Negromonte, por sua vez, apoiou-se na pesquisa das árvores frutíferas presentes em sua rota, catalogando-as e facilitando sua proliferação, além de desenvolver laços com o tradicional Rei do Amendoim. Flávia Péret escolheu buscar narrativas orais, transformadas em texto, sobre a pluralidade e a história das mulheres do bairro.
No evento, moradores do bairro puderam interagir com os artistas participantes e ampliar suas visões sobre a região, e os artistas, agregar novas informações para suas pesquisas. Foi o caso da presença de Dona Elza de Moura, educadora e filha de Tenente Anastácio de Moura, que nomeia a rua onde está a antiga casa que abriga o ESPAI, construída em 1926.
Veja em anexo o texto de cada um dos artistas sobre os resultados colhidos durante as expedições da residência artísticas.
Envolvimento e troca
Um dos bairros mais antigos de BH, o Santa Efigênia fica situado nos vales de dois córregos que fazem parte da bacia hidrográfica do ribeirão Arrudas. Nesse local, foram instaladas as colônias agrícolas que produziam alimentos a serem consumidos na recém-criada capital mineira. Sua história também está intimamente ligada à construção do 1º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais. Primeiramente nomeado como Quartel, o bairro passou a se chamar Santa Efigênia, padroeira dos militares.
Esta influência militar se estendeu até os dias atuais, parcela significativa dos topônimos do bairro prestam homenagem aos muitos militares que ali viveram. Nos primeiros anos da nova capital de Minas, o lugar também abrigou muitos dos trabalhadores que ajudaram a erguer a cidade planejada, além de médicos, enfermeiros, estudantes, professores e funcionários públicos de diferentes setores que por lá foram se estabelecendo, depois de inaugurada a cidade.
Desde 2014 encravado na Zona Leste de BH, o ESPAI vem estreitando relações e explorando a vizinhança como recurso de prospecção e reconhecimento do bairro. Em 2015, junto ao Instituto Undió, o ESPAI realizou no SESC Palladium o projeto “As Casas de Lili”, que deu visibilidade às narrativas locais. Na esteira de outros processos de reflexão artística, o ESPAI promoveu duas expedições consecutivas: “Expedição Fazendinha”, no município de Brumadinho, em 2014; e “Expedição Objetos da Natureza”, em Itabirito, em 2017.
Desses processos vivenciados brotam com força o conceito de Circunvizinhança, em que o ESPAI reafirma o desejo de dedicar-se cada vez mais a seu entorno, cuja vizinhança tem personagens como Dona Elza, filha do Tenente Anastácio de Moura; Senhor Hélio, dono do tradicional “Bar Berberik”, que funciona desde 1933 como ponto boêmio do bairro; ao Senhor Ademir, que dirige a Tipografia Mathias, fundada por seu pai, Leôncio, em 1958; ao “Rei do Amendoim”, tradicional armazém de secos e molhados, fundado em 1953.
O Circunvizinhança é um projeto realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
Sobre o ESPAI
O ESPAI foi criado pelos artistas visuais e pesquisadores Nydia Negromonte e Marcelo Drummond visando oferecer ao público mineiro a oportunidade de participar de cursos e de desenvolver projetos artísticos. ESPAI, que significa espaço na língua catalã, é mais do que um ateliê nos moldes usuais. A simpática casa dos anos 20, além de ser utilizada como espaço de pesquisa e construção de projetos em artes visuais, tem vocação para iniciativas coletivas e dialoga com outras áreas do conhecimento, tais como literatura, culinária, dança, música, antropologia, filosofia e arquitetura são interlocutores constantes nesse espaço.
Nascida em Lima, no Peru, e crescida em Belo Horizonte, Nydia Negromonte é artista plástica, formada em desenho pela Escola de Belas Artes da UFMG em 1989. Especializou-se em gravura, em 1998, pela faculdade de Belas Artes, Universidade de Barcelona, na Espanha, onde foi artista residente do Atelier Hangar de 1999 a 2001. Participou de importantes mostras e feiras de arte, tais como "ARCO", "Feria Internacional de Arte Contemporáneo" (Madrid), Trigésima Bienal de São Paulo, “A Iminência das Poéticas” e mostra individual, “Lição de Coisas”, no Museu de Arte da Pampulha. Foi recentemente selecionada como uma das artistas finalistas da 7ª edição do Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça.
Já o itabirano Marcelo Drummond é artista gráfico formado pela FUMA/UEMG e professor da Habilitação em Artes Gráficas da Escola de Belas Artes da UFMG. Já foi agraciado em premiações como o 51º Prêmio Jabuti (melhor projeto gráfico), da Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo, em 2009; Concurso Arte no Ônibus, em Belo Horizonte, em 2005; Prêmio Internacional de Poesia Visual Joan Brossa, em Barcelona, na Espanha, em 1999. Em 2016, realizou a exposição individual “Daquilo Que é Próprio”, na Galeria Periscópio Arte Contemporânea, em Belo Horizonte.
Foto: Paula Huven
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