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A Coluna “Palavra Livre”, de Marcos Fabrício, apresenta o artigo com título de "O pato e o pacto"

A “crise do milagre brasileiro” ou do “milagre econômico”, nos finais da década de 1970, em conjunto com as crises econômicas mundiais como a crise do petróleo no Oriente Médio, por exemplo, afetou verdadeiramente a vida social e financeira de vários brasileiros. Entre os anos 1980 e 1990, o Brasil vivenciava excessivos problemas socioeconômicos, que se davam durante a passagem da Ditadura Militar brasileira para a Nova República em 1985, esses anos ficaram batizados por certos economistas como “a década perdida”. A década de 1980 brasileira é vista num certo sentido como aquela que se abalou não apenas pelas crises econômicas mas também como uma crise de ordem cultural. Assim, vista de maneira generalizadora ou homogeneizante, essas acusações tendem, por vezes, a menorizar, criticar e reduzir, com prejuízo de valor, os significados culturais de uma época. O exemplo analisado desta época é a música do rock brasileiro dos anos 80.

Durante a década de 1980 surgiram no Brasil destacados grupos de rock nacional. Os Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Ira!, Engenheiros do Hawaí, Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Titãs, Barão Vermelho, entre outros, alcançaram notável ressonância em nível nacional e por vezes até internacional. Eis algumas referências discográficas que marcaram época e continuam atuais: Cabeça Dinossauro (Titãs, 1986); Nós vamos invadir sua praia (Ultraje a Rigor, 1985); Revoluções por minuto (RPM, 1985); Que país é este – 1978/1987 (Legião Urbana, 1987); Longe demais das capitais (Engenheiros do Hawaii, 1986); O concreto já rachou (Plebe Rude, 1986); Cidades em torrente (Biquini Cavadão, 1986); Nenhum de nós (Nenhum de nós, 1987); Exagerado (Cazuza, 1985); Cena de cinema (Lobão, 1982); Viva (Camisa de Vênus, 1986); Magazine (Magazine, 1983); Tempos Modernos (Lulu Santos, 1982); Rock´n geral (Barão Vermelho, 1987); Rock voador (coletânea, 1983).

Os militares golpearam a República em 1964, ao colocarem em marcha a Operação Popeye, e tomaram o poder do então presidente João Goulart (1919-1976). Com auxílio de forças civis vieram, no argumento golpista, livrar o Brasil da desordem e dos males do comunismo e do sindicalismo. Acabaram, por certo, militarizando o Estado e ficando por mais tempo do que o esperado. Uma ocupação de mais de duas décadas do Poder Executivo. Em função dessa estendida permanência, o Estado e os militares foram alvo das reflexões musicais da geração de compositores do Rock Nacional, que, em regra, os associa à violência e ao arbítrio, num viés de denúncia e de recusa ao autoritarismo. Os Titãs acusaram o Estado de violento e hipócrita, numa canção que sutilmente remetia às práticas de interrogatório e tortura. A letra na íntegra:

“Sinto no meu corpo/A dor que angustia/A lei ao meu redor/A lei que eu não queria/Estado Violência/Estado Hipocrisia/A lei que não é minha/A lei que eu não queria/Meu corpo não é meu/Meu coração é teu/Atrás de portas frias/O homem está só/Homem em silêncio/Homem na prisão/Homem no escuro/Futuro da nação/Estado Violência/Deixem-me querer/Estado Violência/Deixem-me pensar/Estado Violência/Deixem-me sentir/Estado Violência /Deixem-me em paz”. O sujeito da canção pede ao Estado que o deixe querer, pensar, sentir, e que o deixe em paz. Súplicas que dizem respeito à liberdade individual, aos direitos civis. A composição de Charles Gavin mira o Estado e o apresenta como inibidor das liberdades individuais. Estado Violência faz parte do disco Cabeça Dinossauro, um verdadeiro panfleto crítico às variadas formas de autoridade social e política.

No álbum Nunca fomos tão brasileiros, de 1987, os músicos da Plebe Rude davam voz a um representante do Estado na canção Códigos. “Eu decido o seu futuro/eu e os meus fuzis/minhas normas determinam/seus direitos civis/(…)/O que você faz escondido diverte, me faz rir/você pode me subestimar, mas vou te punir/(…)/Você acha que é livre para agir como quer?/Mas o seu futuro foi traçado antes de nascer/Se eu largar a tua mão você vai se perder/eu já estou até aqui de corrigir você”. A narrativa da canção mobiliza o imaginário político acerca do Estado ditatorial, fortemente marcado pelo extravio dos direitos civis. A referência aos “fuzis”, no introito da canção, acionava a memória social de um Estado acostumado a corrigir, punir. “Correção” aplicada, no caso, a partir de pressupostos e valores do Governo, e não na defesa dos cidadãos, como um conjunto amplo.

Criticando as forças policiais como violentas, arbitrárias, repressoras, de maneira frontal e aberta, Polícia (1986), dos Titãs, cuja letra, após anunciar que “dizem que ela existe pra ajudar, dizem que ela existe pra proteger”, alertava, em contraste, que “ela pode te parar, ela pode te prender”; para, no refrão, queixar-se em denúncia: “polícia para quem precisa de polícia”. Em Que país é este?, canção da Legião Urbana, ouve-se “terceiro mundo, se for/piada no exterior”. O Brasil como piada reaparece em Portuga, gravada por Cazuza (1958-1990) e lançada em disco póstumo (Por aí, 1991). Essa canção enfatiza o elemento lusitano na colonização e propõe refazê-la de um modo mais belo.

Ao fim, inverte a comum brincadeira entre nós de que os portugueses não seriam muito sagazes: “Eu acredito na força do português no mundo/do português burro no mundo/Porque a grande piada é o Brasil”. Entender a piada seria uma porta de entrada para intuir os próprios descaminhos da construção democrática entre nós. Conforme a canção anterior (Que país é este?), da Legião Urbana, o Brasil seria piada aos olhos dos outros em decorrência da corrupção e do pouco apreço pelas leis, o que é sugerido nos versos: “Nas favelas, no Senado/Sujeira pra todo lado/Ninguém respeita a Constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação”.

https://www.youtube.com/watch?v=qIzKk4VOm2g

*Marcos Fabrício Lopes da Silva

* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

Foto: Divulgação

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