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Heroína de Dostoiévski, Nastácia ganha montagem inédita no teatro

Com estreia nacional em 9 de agosto no CCBB Belo Horizonte, o espetáculo reúne artistas de peso como Chico Pelúcio, Flávia Pyramo, MiwaYanagizawa, Pedro Brício, Odilon Esteves, Paulo Bezerra e conta com participação de Cao Guimarães e Ronaldo Fraga.

Em uma sociedade patriarcal que se curva ao poder do dinheiro, ter posses e sobrenome é o aval para a satisfação de desejos a qualquer custo. É a absolvição para a prática de abusos, humilhações, violência física e moral, especialmente contra mulheres. Nastácia, espetáculo que estreia no dia 9 de agosto, no Teatro II do CCBB Belo Horizonte, chama atenção para essa realidade perversa e mostra a potência da arte para repensar e combater “valores” tão sórdidos quanto arraigados. A peça, que tem patrocínio do Banco do Brasil e integra a programação do mês de aniversário do CCBB BH, fica em cartaz até 9 de setembro, de sexta à segunda-feira, às 19 horas. Os ingressos, disponíveis no site eventim.com.br, custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada); clientes Banco do Brasil têm 50% de desconto nos ingressos. Mais informações em culturabancodobrasil.com.br

Baseado em Nastácia Filíppovna - heroína do clássico O Idiota, de Fiódor Dostoiévski - o espetáculo une o teatro a outras linguagens artísticas (como instalação e videoarte) para contar a história de uma das mais instigantes personagens femininas da literatura universal. Segundo a atriz Flávia Pyramo, idealizadora da peça e que interpreta Nastácia, ela é um exemplo de mulher que transformou fragilidade em força, que lutou por sua dignidade com muita coragem, mesmo vivendo um turbilhão interno e uma violência terrível. “Contar sua história foi meu objetivo nos últimos seis anos. Contar a história de Nastácia, no teatro, hoje, é uma forma de dar um grito coletivo: chega!”

Os artistas por trás de Nastácia são um destaque a parte. Com direção de Miwa Yanagizawa e dramaturgia de Pedro Brício, no elenco estão Chico Pelúcio (que vive Totski) e Odilon Esteves (interpretando Gánia). A consultoria teórica é de Paulo Bezerra, principal tradutor da obra de Dostoiévksi para o português e Flávio Ricardo Vassoler; a direção de movimento é de Tuca Pinheiro; luz de Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal; e trilha sonora de Gabriel Lisboa. O projeto conta ainda com Instalação Artística, direção de arte e figurino de Ronaldo Fraga; e videoarte de Cao Guimarães (mais informações logo abaixo). “Os artistas envolvidos no projeto foram escolhidos a dedo. É a ficha técnica dos meus sonhos. Foi muita sorte todos eles aceitarem o convite! Mas o mérito disso é dela, Nastácia. Quem não se apaixona pela sua força?” sublinha Flávia Pyramo.

A narrativa

A peça se passa no apartamento de Nastácia, na noite do seu aniversário. Ela deve anunciar seu casamento com Gánia, união articulada pelo oligarca Totski, homem que transformou Nastácia em concubina desde a adolescência e a submete a um verdadeiro leilão naquela noite. Flávia Pyramo conta que a ideia de fazer o espetáculo sobre uma personagem, com um recorte específico de um momento da sua história, veio do Kamas Ginkas, um diretor de teatro russo que montou a peça "KI from Crime", uma adaptação do livro "Crime e Castigo".

“Essa peça me marcou muito, eu já amava o livro e fiquei com muita vontade de fazer um espetáculo sobre a Sônia, uma personagem linda de 'Crime e Castigo', mas quando eu conheci Nastácia, fiquei louca por ela. A escolha do recorte na festa do seu aniversário se deu pela importância deste momento da história dela, o momento em que ela enfrenta seu algoz e toda a sociedade que a rodeia, e trata a todos e ao seu dinheiro (com o qual tentaram comprá-la) com o mais altivo desdém. Enquanto todos à sua volta chegam à escala mais baixa da sua dignidade por causa de dinheiro, para Nastácia ele é objeto de repulsa por ser também o seu desencontro com o mundo.”

Para Pedro Bricio, repulsa e atração são forças conflitantes nos três personagens. Em relação ao desejo, ao casamento, ao dinheiro. “Na festa, além deles, há outros convidados que não vemos, estão subtraídos na encenação, são apenas mencionados. São aparências e ausências”, conta. Na dramaturgia, ele diz, os três personagens do texto contracenam e também monologam sobre suas estórias. A festa não acontece de maneira cronológica. Na imagem do tempo e na sua manifestação no palco, os limites também estão borrados. “O passado irrompe de repente e toma conta da cena. A força do que aconteceu antes da festa está ali. Entendemos claramente a estória; a potência do drama dos personagens é o que nos arrebata, por ser tão vertiginoso, por se transformar de uma hora para outra, diante dos nossos olhos.”

Passado e presente

Concebido entre 1867 e 1869, “O Idiota” está longe de ser anacrônico. Segundo o Datafolha, no ano passado 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil; e 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Para a diretora do espetáculo Miwa Yanagizawa, a arte é um espaço em que o artista pode, como mediador, reumanizar estatísticas devastadoras como essas.

“Às vezes, os números são terríveis, eles nos espantam sem tocar. São séculos de opressão e crueldade contra as mulheres e, muitas vezes, acho que não nos vemos responsáveis pela manutenção de tais tragédias humanas. Tomamos distância como se elas pertencessem a um outro universo, como coisas que acontecem somente fora de nossas casas. Então, lemos os números e seguimos nossas vidas repetindo gestos que alimentam a irracionalidade e a negligência com os outros, mas, “sem perceber”, estamos colaborando com o crescente e alarmante número da violência contra a mulher, por exemplo.”

“A história de Nastácia, como tudo em Dostoiévski, é de uma espantosa atualidade”, sublinha Paulo Bezerra. Primeiro ela é vítima de um grão-senhor e gentleman pedófilo, que se vale do repentino estado de miséria dela e do muito dinheiro que possui e a transforma em concubina aos doze anos de idade, sem sofrer qualquer censura da sociedade: é o poder do dinheiro falando mais alto. Depois, já adulta, é vítima de um amante paranoico, que, por não conseguir conquistar seu amor, simplesmente a mata. Portanto, duas formas de crime contra a mulher: o crime alicerçado no dinheiro e o crime derivado da impossibilidade de conquistar o coração e a mente da mulher. Ou seja, o crime motivado pelo sentimento de posse, pela tentativa de coisificação da mulher.”

Bezerra destaca que hoje, no Brasil, a mulher é vítima de várias formas de violência, uma delas, a mais frequente, deriva do tratamento da mulher como posse, como objeto, como coisa. “Assim, a principal característica de um clássico é a de transcender os valores do seu espaço e do seu tempo e ser lido de maneira nova e atual em outras épocas e outras culturas à luz dos valores dos novos tempos. O papel da arte, sobretudo da arte teatral, é o de trazer as questões levantadas pelos clássicos para a atualidade e recriá-las à luz da realidade e da cultura locais, permitindo ao espectador, no caso o brasileiro, associar o destino de Nastácia ao de muitas mulheres brasileiras tão vítimas da violência como ela.”

"Leia os jornais, por favor, porque a conexão visível entre todos os assuntos, gerais e particulares, está ficando cada vez mais forte e mais óbvia". Flávia Pyramo relata que foi assim que escreveu Dostoiévski sobre o caso (que estampou os jornais da Rússia no séc XIX) da adolescente Olga Umiétskaia que viveu sob tirania e desumanidade familiar, e acabou inspirando a criação de Nastácia Filíppovna. “São os conteúdos jornalísticos de hoje, de Belo Horizonte, do Brasil, do mundo, que denunciam a trágica realidade em que ainda vivemos”, ressalta.

A instalação

Assinada por Ronaldo Fraga, a Instalação Artística, em exibição no hall do Teatro II, de quarta a segunda-feira, entre 10h e 17 horas, é uma forma de amplificar a crítica presente em Nastácia e dialoga ainda com outros fortes temas abordados em O Idiota, como a descrição dos rostos dos personagens. O

Príncipe Míchkin (o homem positivamente belo retratado por Dostoiévski) diz que, ultimamente, se fixa muito nos rostos. “Ele é o único que consegue ver as pessoas além da aparência”. A questão da beleza é também muito presente no romance: o contraste da beleza enquanto matéria e a beleza dos valores de amor e compaixão.

 

A imagem do Cristo Morto de Holbein que foi a maior inspiração para a criação da obra "O Idiota", impressionou Dostoiévski ao ver um ser humano torturado e decadente, cujo rosto não tem nada da "extraordinária beleza" com a qual, como ele escreveria no romance, Cristo costuma ser pintado. Em vez disso, essa pintura expressa a sujeição do Cristo sobrenatural à ordem física da natureza, concebida "sob a forma de uma enorme máquina da mais moderna construção que, surda, e insensível, agarrou, esmagou e engoliu um grande Ser de valor inestimável..." (Dostoiévski).

 

A narrativa dos retratos de Dostoiévski também foi inspiração para o cineasta Cao Guimarães, autor da videoarte que integra a instalação. Em sua primeira incursão no teatro, ele diz que o trabalho foi realizado por meio de imagens e sons que se relacionam direta e indiretamente comNastácia e O Idiota. Mas o principal objetivo, segundo ele, é ampliar a crítica e a reflexão em torno de um comportamento costumaz e perverso: a objetificação da mulher.

 

Educação e acessibilidade

Para contribuir com a formação de cidadãos mais participativos do contexto social, será realizado o programa Trocultura, que consiste em um curso/oficina com Miwa Yanagizawa, de 15 a 19 de julho, de 15h às 19 horas, no CCBB Belo Horizonte; e palestra com Paulo Bezerra, no dia 22 de agosto, às 19h30, no Teatro I do CCBB BH. Ambas as atividades são gratuitas. Para a palestra não será necessário realizar inscrição, já para a oficina, as inscrições devem ser solicitadas pelo e-mail agentz@agentz.com.br. Mais informações pelo telefone 31 3110 2600.

Flávia Pyramo conta que as iniciativas sócio-educativas surgiram de uma experiência que ela e Miwa tiveram ao assistir uma aula/palestra de Paulo Bezerra sobre o livro Crime e Castigo. “A experiência foi tão rica que eu gostaria que mais pessoas tivessem essa oportunidade, então programamos uma aula/palestra sobre O Idiota. É uma forma do teatro se unir à literatura.” A palestra de Bezerra contará ainda com interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Já na oficina, o objetivo é compartilhar o processo de criação. “É uma mistura de abertura do processo criativo com residência. Vamos oferecer essa experiência para alunos de artes cênicas que tenham interesse em acompanhar o processo de criação de uma peça e ao mesmo tempo contribuir para este processo. Será uma troca de vivências.”

Além da oficina e palestra, será realizado o programa Van ao Teatro voltado para 160 moradores da comunidade do Alto Vera Cruz. Além de ingressos gratuitos, será disponibilizada uma van para buscar e retornar com os moradores para o bairro. “É uma tentativa de contribuir para a democratização do acesso aos bens culturais que estamos produzindo e, além disso, é uma ação de formação de plateia. É imprescindível popularizar o teatro”, destaca Flávia Pyramo.

Para que todos possam vivenciar o espetáculo por completo, tendo uma experiência diferenciada e especial, todas as sessões de “Nastácia” serão apresentadas com legendagem em mídia digital. Para usufruir deste recurso, os interessados devem procurar pela produção da peça para serem posicionados dentro da sala. Os avisos estarão disponíveis na bilheteria e na porta do teatro.

Foto: Ana Colla

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