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A Coluna “Palavra Livre”, de Marcos Fabrício, com título de GENIS E LÁZAROS - Disciplinados, vigiados, ordenados, normatizados os corpos e os seres da modernidade. Como máquinas, são manipulados.
GENIS E LÁZAROS
A principal função da comicidade é manter viva uma ideia de irreverência, de que nada deve ser reverenciado, de que nada é sagrado, tudo pode ser questionado, criticado, e, sendo criticado, pode ser melhorado. O humor e a comicidade guardam afinidades semânticas entre si e se relacionam intimamente com o riso, por isso, tais termos são confundidos e empregados, quase sempre, sem critérios. Sumariamente, podemos dizer que o cômico se refere ao prazer, ao lúdico e está mais relacionado ao divertimento. Já o humor deve ser visto como uma forma de levar o indivíduo a inferir, a comparar, a confrontar e a formular hipóteses, não se tratando simplesmente do riso pelo riso, mas daquilo que o motivou. Todo riso, por sua vez, tem como causa a elaboração de um pensamento crítico. Só ri quem consegue compreender e analisar uma dada situação e o que ela sugere.
O riso, desse modo, é um tipo de ação humana que, basicamente, diferencia o homem dos animais. Rir é uma atividade intrínseca à natureza humana e, quase sempre, manifesta o senso crítico do homem, ao mesmo tempo que o diverte. O descrédito reservado ao cômico se deve, segundo Baêta Neves, à ideologia da seriedade, que reduz o riso a um momento de fruição, de entretenimento, a uma pausa recreativa, cujo efeito se ambiciona seja leve e não cause maiores consequências. Rebaixando o riso, a ideologia da seriedade privilegia um campo temático nobre, pautado pelo bom-senso, pela regra e pela razão, expressando, ainda, sentimentos e temas considerados “elevados”, a partir de gêneros que engrandeçam a alma humana, como o lírico, o épico e o dramático.
Disciplinados, organizados, vigiados, seriados, ordenados, normatizados os corpos e os seres da modernidade. Como máquinas, são manipulados nos diversos aspectos de sua existência, no mais íntimo dos seus leitos, nas mais vastas formas de se portar e agir. As correções e os aparatos de punição encontram-se em toda parte, em diversas instituições. Para os loucos, o hospício. Para as crianças, a escola. Para os pervertidos, a prisão. Para os doentes, o hospital. Com o advento do Iluminismo e o desenvolvimento da sociedade técnico-industrial, homens e mulheres tiveram seus corpos reduzidos a ações de rotina, dentro de ritmos predeterminados. Criaram-se normas que visavam a produtividade, a criação em série, os modos do “bem fazer”.
“De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/Ela já foi namorada/O seu corpo é dos errantes/Dos cegos, dos retirantes/É de quem não tem mais nada/Dá-se assim desde menina/Na garagem, na cantina/Atrás do tanque, no mato/É a rainha dos detentos/Das loucas, dos lazarentos/Dos moleques do internato/E também vai amiúde/Co’os velhinhos sem saúde/E as viúvas sem porvir/Ela é um poço de bondade/E é por isso que a cidade/Vive sempre a repetir/Joga pedra na Geni/Joga pedra na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni/
Um dia surgiu, brilhante/Entre as nuvens, flutuante/Um enorme zepelim/Pairou sobre os edifícios/Abriu dois mil orifícios/Com dois mil canhões assim/A cidade apavorada/Se quedou paralisada/Pronta pra virar geleia/Mas do zepelim gigante/Desceu o seu comandante/Dizendo – Mudei de ideia/– Quando vi nesta cidade/– Tanto horror e iniquidade/– Resolvi tudo explodir/– Mas posso evitar o drama/– Se aquela formosa dama/– Esta noite me servir/Essa dama era Geni/Mas não pode ser Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni/
Mas de fato, logo ela/Tão coitada e tão singela/Cativara o forasteiro/O guerreiro tão vistoso/Tão temido e poderoso/Era dela, prisioneiro/Acontece que a donzela/– e isso era segredo dela –/Também tinha seus caprichos/E a deitar com homem tão nobre/Tão cheirando a brilho e a cobre/Preferia amar com os bichos/Ao ouvir tal heresia/A cidade em romaria/Foi beijar a sua mão/O prefeito de joelhos/O bispo de olhos vermelhos/E o banqueiro com um milhão/Vai com ele, vai Geni/Vai com ele, vai Geni/Você pode nos salvar/Você vai nos redimir/Você dá pra qualquer um/Bendita Geni/
Foram tantos os pedidos/Tão sinceros, tão sentidos/Que ela dominou seu asco/Nessa noite lancinante/Entregou-se a tal amante/Como quem dá-se ao carrasco/Ele fez tanta sujeira/Lambuzou-se a noite inteira/Até ficar saciado/E nem bem amanhecia/Partiu numa nuvem fria/Com seu zepelim prateado/Num suspiro aliviado/Ela se virou de lado/E tentou até sorrir/Mas logo raiou o dia/E a cidade em cantoria/Não deixou ela dormir/Joga pedra na Geni/Joga bosta na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni”.
Chico Buarque, em Geni e o zepelin (1977-1978), tocou no mesmo ponto que Michel Foucault (1926-1984), em Vigiar e punir (1975): “A prisão… A forma-prisão… Ela se constitui fora do aparelho judiciário, quando se elaboraram, por todo o corpo social, os processos para repartir os indivíduos, fixá-los e distribui-los espacialmente, classifica-los, tirar deles o máximo de tempo, e o máximo de forças, treinar seus corpos, codificar seu comportamento contínuo, mantê-los numa visibilidade sem lacuna, formar em torno deles um aparelho completo de observação, registro e notações, constituir entre eles um saber que se acumula e se centraliza”.
Michel Foucault
Solenes e sérias, formatadoras de corpos e de hábitos, as instituições escolares e as práticas professorais são utilizadas como garantias de um discurso de ordem e de vigilância. Na busca por controle, produzem uma ordenação gramatical que determina um tipo de discurso a ser constantemente repetido. Com isso, cria-se a sensação de um eco, pelo fato de o indivíduo reproduzir um repertório de elementos com características, ritmos e formas similares. Por isso tudo, matam-se Lázaros com prazer policial. Jogar pedra na Geni continua sendo a grande atração do pedaço. Aonde foi parar o velho jogo de cintura?
Marcos Fabrício Lopes da Silva*
* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.
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https://libertasnews.com.br/category/colunas/palavra-livre-marcos-fabricio/
Foto: Divulgação
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