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Exposição de artista plástica mineira resgata memória histórica e afetiva das caixas de correio

Imagens transcendem o objeto e o revelam como guardião de segredos e emoções humanas

Ao visitar a exposição "Anônimas" da artista plástica mineira Tânia Araújo no Centro Cultural Correios, na cidade de São Paulo, entre os dias 8 de julho a 3 de setembro, no Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista, as pessoas se surpreenderão ao redescobrirem o antecessor do email e perceberem como num curto espaço de tempo estamos perdendo nossa memória e nossas referências. Este convite à reflexão sobre a velocidade com que estamos apagando nossas pegadas na trajetória que nos trouxe até aqui e a falta que esta amnésia histórica poderá nos fazer num futuro próximo, por si só já vale a visita.

As fotografias da mostra fazem parte da série “Anônimas” – imagens de caixas de correio coletadas pela artista sistematicamente, desde 1995 até este ano, a maioria delas na arquitetura urbana de Belo Horizonte (MG). O acervo contém mais de 400 fotos e o trabalho desdobra-se em vídeo-instalação, plotagens, objetos, gravuras e cartões-postais. As imagens foram apresentadas, originalmente, em exposição que fez parte da defesa de tese de doutorado, defendida pela autora em 2016, na Escola de Belas Artes da UFMG, intitulada Caixa de correio – lugar de entrada, de passagem e de acúmulo de memórias.

"Esta exposição pretende levantar questões relacionadas ao universo da arte, da política, da escrita, do feminino e das novas mídias, provocadas a partir da descoberta das caixas de correio na arquitetura urbana de Belo Horizonte. Mostrar e resgatar a memória de como a caixa de correio, um objeto antigo, ainda está presente na contemporaneidade, enfrentando o tempo e as novas tecnologias, atestando a sua resistência frente às novas temporalidades, uma metáfora da espera do que nos pode acontecer, prevalecendo o sentimento de esperança", explica Tânia Araújo.

Para o professor dos cursos de graduação e pós-graduação da Escola de Belas-Artes da UFMG, Marcos Hill, especialmente no nosso presente, a enorme aceleração de tudo tem nos obrigado a rever o sentido mesmo de nostalgia e obsolescência. Quando olhamos, por exemplo, para fotografias de uma fita cassete,de um disquete ou mesmo de um walk-man, objetos já considerados de alta tecnologia, nos damos conta do absurdo da aceleração da indústria de consumo. Para jovens com a atual idade de vinte anos, tais imagens chegam a ser algo absolutamente desconhecido. "A maioria desses jovens não tem sido educada para preservar a memória de passados recentíssimos", observa o professor. Mas, segundo ele, é preciso fazê-lo, sob o risco de se apagar definitivamente da memória presente a riqueza de esforços e processos que alimentaram a inteligência e que conduziram o ser humano aos seus êxitos e às suas derrotas contemporâneas.

"Tudo indica que esse é o legado provocativo que o ensaio fotográfico de Tânia Araújo nos quer transmitir. Pois ao fotografar caixas de correio ainda existentes pela cidade, além da artista estar revitalizando um dispositivo que muito participou da troca humana de informação, ela nos avisa sobre o risco de não nos lembrarmos mais das correspondências epistolares que, durante séculos, animaram e decidiram momentos importantes da vida individual e coletiva dos humanos", deduz Hill.

O professor da UFMG ressalta que é curioso como tais “caixas” tornadas imagens através dessas fotos ganham aparência de resíduo arqueológico longínquo."A beleza tristonha que emana das fotos de Tânia nos impele a reconhecera caixa de correio como algo muito mais que um simplesdepósito de correspondências", constata Marcos Hill. Segundo ele, é como se gratidões, retribuições, declarações, confidências, confissões e agradecimentos ainda ecoassem nessas caixas de ressonância de sentimentos de outras épocas, sempre dinamizando elos com a prática ininterruptade uma escrita que por muitos séculos expressou,através da mão, a arte de traçar linhas traduzindo a afetividade de todas as vidas.

Para ele, olhar para uma dessas fotos portando um celular, esta central atualíssima de tantas redes sociais e outros artifícios, acaba nos instigando, mesmo que temporariamente,a quebrar o transe hipnótico,o frenesi tecnológico no qual temos sido mergulhados, nos reconduzindo a um entendimentoque nos conectacom preciosos segredos sobre a nossa própria impermanência.

A abertura da instigante exposição de fotografias de Tânia Araújo será no dia 8 de julho (sábado) às 11 h, no Centro Cultural Correios – Av. São João, s/n, Vale do Anhangabaú – Centro, São Paulo-SP. Vale a pena conferir!

AGENTE DE CULTURA

Com o objetivo de proporcionar o acesso de todos à cultura, os Correios promovem manifestações artísticas como artes visuais, música e humanidades em seus centros e espaços culturais em São Paulo (SP), Recife (PE), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ) e no Museu Nacional dos Correios em Brasília.

Desde 2013, o Centro Cultural Correios em São Paulo vem oferecendo ao público uma programação cultural diversificada, de qualidade e gratuita. O espaço ocupa uma área de 1.280m² do amplo Prédio Histórico dos Correios, que abriga também a Agência Central dos Correios de São Paulo, considerada a maior do país, e a Agência Filatélica D. Pedro II. Inaugurado em 1922, o Prédio Histórico é um dos cartões postais do centro de São Paulo, pelas suas dimensões arquitetônicas, tamanho e localização.

Há mais de 30 anos os Correios contribuem para a preservação, resgate e promoção das mais diversas expressões artísticas por meio de suas unidades culturais, desempenhando um importante papel na valorização da cultura, do turismo e da inclusão social.

Foto: Divulgação / Facebook

 

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