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A Coluna “Palavra Livre”, de Marcos Fabrício, com título de "Privação de capacidades"
“The world is a fine place and worth fighting for and I hate very much to leave it” (“O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo”, em tradução livre). A frase, contida no livro Por quem os sinos dobram (1940), obra clássica de Ernest Hemingway (1899-1961), ilustra o otimismo intrínseco da natureza humana, mesmo diante dos mais difíceis obstáculos. Ser inovador, o homem vive a busca constante pela elevação da espécie, mesmo que muitas vezes os caminhos escolhidos sejam penosos e sacrificantes. Inegavelmente, foi o investimento em inovação e tecnologia que nos permitiu diferenciar-nos, chegar até aqui. Possibilitou-nos ainda perseverar na procura por esse mundo ideal, a despeito das inúmeras escorregadas rumo a esse futuro melhor.
O capitalismo, ao canalizar a liberdade humana para a competitividade e a inovação, não deu às diversas camadas sociais condições idênticas de partida. Com isso, aqueles que possuem renda começam a se preparar para essa corrida para longe da pobreza em melhores escolas, com melhor atendimento de saúde e melhores condições de alimentação. A desigualdade se mostra logo no início da partida, e isso já faz a grande diferença. O aumento exponencial da população mundial, assim como os fatores hodiernos que provocaram as mudanças climáticas bruscas, com o aquecimento global, só fizeram elevar o problema da pobreza a uma condição absolutamente preocupante, levando a humanidade à sua mais complexa e urgente encruzilhada desde o aparecimento dos homens neste planeta.
De acordo com estatísticas produzidas pelo Banco Mundial, pobres são aqueles indivíduos que vivem com até US$ 1,9 por dia. Mas, ainda assim, é possível classificar os níveis de pobreza naquelas pessoas que vivem com uma renda um pouco superior. O Prêmio Nobel de Economia foi dado a três pesquisadores que propuseram estudos que abordam esse problema sob uma nova ótica, o que pode possibilitar, também, novas soluções. Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer apresentaram estudos que tratam do fenômeno da pobreza como um problema multidimensional, que ultrapassa a questão simples da falta de recursos e outros fatores. Para esses estudiosos, como já havia sido abordado anteriormente em 1998 por outro Prêmio Nobel Amartya Sen, a pobreza é também a “privação de capacidades”.
O século 21 tem pela frente o desafio de encontrar soluções para esse problema que aumenta dia a dia, agora agravado com a pandemia. É preciso fortalecer todos os itens ligados a educação, saúde e infraestrutura, para dar início ao processo de superação da pobreza extrema. Urge superar a ideia de que gastar com educação é uma perda de tempo e um desperdício de recursos. O Brasil reacionário teve a pachorra de eleger um ditador mentecapto para Presidência da República, menosprezando a alternativa civilizada de ser liderado por um professor gabaritado e ministro da Educação com realizações inclusivas importantes, considerando o nosso processo histórico elitizado no pior sentido do termo. Jair Bolsonaro disse que os jovens brasileiros têm “tara” pelo diploma superior, e que seria melhor se muitos deles buscassem o ensino profissionalizante para atuar em funções como técnico em conserto de eletrodomésticos e mecânico de automóvel.
O projeto de deseducação do Brasil é um crime premeditado. Autor do crime: os Três Poderes de braços cruzados, enquanto o Mercado leva o Estado na flauta. Escolher autoritários e desprezar democratas têm sido uma ciência política muito bem praticada por impostores que exaltam Brás Cubas e desprezam Machado de Assis (1839-1908). Incentivada pela sabedoria de Raul Seixas (1945-1989), pessoa educada pode, sem medo de ser feliz, dizer: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” (Metamorfose Ambulante, 1973). Condenar o conhecimento à zona de rebaixamento significa promover a ignorância para o grupo especial que não lhe pertence. A cidadania deve zelar especialmente por todos porque a dignidade significa a verdadeira qualidade de vida.
Não por acaso, fazer arte representa o Projeto Político Pedagógico (PPP) mais avançado que existe. As escolas do passado ensinavam, basicamente, a ler e a reter dados. De fato, a educação precisa ser libertadora e influenciada por nossas ações e atitudes, nossos exemplos e muito pouco por nossa fala. Arrojadamente, alertava o pedagogo estadunidense Amos Bronson Alcott (1799-1888): “O verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria influência”. Compete ao professor incentivar pessoas a pensar, refletir, ter opinião própria, saber se posicionar e, quando necessário, reconhecer seus erros. A educação deve ser libertadora e influenciada por nossas ações e atitudes, nossos exemplos e muito pouco por nossa fala.
Em primeiro lugar, no que diz respeito ao acolhimento da riqueza dos saberes, da multiplicidade de ideias, de ideologias e de concepções – pois, se a Universidade se tornar dogmática, se o foco de produção do saber se colocar num lugar de verdade absoluta, se as teorias se tornarem intolerantes, se a Universidade se reivindicar possuidora de só uma voz, desvalorizando qualquer outro timbre que não lhe pareça familiar, será certamente o início do fim desse lugar, que deve ser o gerador e difusor principal do conhecimento na sua acepção mais plural e tolerante. Acolher a pluralidade dos saberes é riqueza; manejar instrumentos variados de leitura e de diagnóstico é abertura; respeitar o pensar diferente é imperativo ético. É isso, senhoras e senhores: a nossa riqueza se encontra na pluralidade e na diversidade. Como disse o poeta mexicano Octavio Paz (1914-1998), “o que põe o mundo em movimento é a interação das diferenças, suas atrações e repulsões; a vida é pluralidade, morte é uniformidade”.
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https://libertasnews.com.br/category/colunas/palavra-livre-marcos-fabricio/
Foto: Divulgação
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