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Espetáculo “Talvez eu me despeça”, solo de Beatriz França, reestreia com atualizações de encenação e dramaturgia em diálogo com a urgência social e política do país
O espetáculo Talvez eu me despeça, solo da atriz Beatriz França, dirigido por Ludmilla Ramalho, reestreia em Belo Horizonte com circulação por sedes de grupos de teatro da cidade: Casa do Beco (14 a 17 de junho), Espaço Aberto Pierrot Lunar (21 a 24 de junho) e Casa de Candongas (28 de junho a 01 de julho), sempre de quinta a domingo, às 20h. A peça tem como fio condutor a ausência da atriz Cecília Bizzotto, assassinada em 2012, durante um assalto, porém agora atravessada por urgências que se impõem tanto em âmbito pessoal, quanto na vida social do país.
Na Casa do Beco (Barragem Santa Lúcia), espaço de forte atuação no aglomerado do Morro do Papagaio que inaugura o projeto, a entrada é gratuita com retirada de senhas uma hora antes da apresentação. Nos demais locais de apresentação, os ingressos custam R$10 e R$5 (meia-entrada) e estarão à venda na bilheteria uma hora antes da sessão ou pelo site do sympla, a partir de 11/06 (segunda). O projeto prevê ainda três oficinas sobre Teatro Documentário e Autobiográfico: uma direcionada aos jovens em situação de semiliberdade, do Centro Dom Bosco, e outras duas, na Casa do Beco (14 e 15 de julho) e no espaço Casa de Candongas (19 e 20 de julho). As inscrições podem ser feitas até 01 de julho, mediante envio de currículo e carta de intenção para o e-mail talvezeumedespeca@gmail.com. Público-alvo: artistas, estudantes e interessados na criação a partir da relação arte e vida. A idade mínima é de 15 anos. Mais informações: facebook: /espetaculotalvezeumedespeca e instagram: @talvezeumedespeca.
A ideia de realizar apresentações fora do eixo cultural da cidade nasceu em 2015, quando em uma das temporadas do espetáculo, a equipe de produção foi procurada, espontaneamente, por um dos centros de internação provisória de jovens em situação de semiliberdade da prefeitura. "Os agentes entraram em contato e levaram os jovens sem saber ao certo do que se tratava a peça. Foi uma experiência de troca interessante que me fez refletir sobre a morte da Ciça não como algo isolado, mas como parte de uma guerra urbana, algo ainda mais próximo e cotidiano desses menores, o que me deu vontade de repensar alguns pontos do espetáculo e levá-lo a outros públicos ", conta Beatriz França.
Desse desejo nasceu o projeto de circulação por sedes de grupo de teatro de BH, que foi aprovado em 2016, pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Durante o percurso, Beatriz engravida e precisa adiar a realização para junho de 2018. Os trabalhos para repensar a nova dramaturgia e a encenação da peça, que assumiriam agora um lugar mais político e social, recomeçam no início deste ano, quando em 14 de março o país leva um tiro no peito: Marielle é assassinada. "No contexto atual, já não podemos tratar o assassinato de Cecília sem entendê-lo como reflexo de uma realidade social em que muitas vidas humanas parecem valer muito pouco", afirma Daniel Toledo, que assina a dramaturgia. Segundo ele, "enquanto governantes e candidatos apostam em intervenção militar como antídoto à crise social brasileira, o tiro parece sair pela culatra. Nossa intenção agora é convocar o público a se perceber como parte de uma mesma guerra, entendendo que a almejada paz só virá quando, enfim, houver justiça social", acrescenta.
Nesse sentido, a equipe artística foi provocada a atualizar o espetáculo, mas sem perder a proposta original. Entre as mudanças, vozes de mulheres e um recital de manchetes de jornal invadem o palco. O novo áudio faz menção aos assassinatos de mulheres que ultrapassaram o ambiente doméstico e alcançaram postos de protagonismo e liderança, como Marielle, até chegar ao caso de Cecília Bizzotto. Imagens reais, que anunciam situações de pré-guerra, também são acrescidas às antigas projeções, ao longo da peça. "Talvez eu me despeça", desde a sua estreia, adentra a memória equilibrando reflexões universais sobre a perda e a finitude das relações humanas e aspectos pessoais sobre a solidão e os riscos que permeiam a arte e a vida. É inevitável que, frente ao contexto atual do país, a dramaturgia também seja repensada e crie mais uma camada de sentidos, mantendo assim a obra viva.
"Trabalhos autobiográficos, como o 'Talvez', costumam ser feitos em momentos de urgência. Depois de quatro anos de sua estreia, eu mudei, me tornei mãe, o mundo mudou. As inquietações são outras e é natural que a obra acompanhe. De poucos anos pra cá, as pessoas passaram a discutir questões que antes não vinham à tona. Assistimos a minorias se fortalecendo, ganhando voz, e, ao mesmo tempo, uma crescente onda de intolerância, violência e militarização do país. Especialmente depois do assassinato de Marielle, ficou ainda mais difícil, por exemplo, falar de violência e assassinato sem tocar na questão das mulheres brasileiras (negras, brancas, indígenas etc.), invisíveis, marginais e silenciadas nas periferias, mortas todos os dias no meio do fogo cruzado de guerras que não iniciaram. Guerras iniciadas por homens", afirma a atriz Beatriz França.
Além de atualizações no texto, trilha e nas projeções de vídeo, ao grupo de cartas de despedida - lidas originalmente para Ciça, durante o espetáculo, e escritas por amigos da artista falecida - , serão incorporadas novas cartas dedicadas a outras mulheres assassinadas, inclusive para a vereadora Marielle Franco. Os textos foram colhidos na fase de pré-produção do projeto, com artistas e a partir do relacionamento da equipe do projeto com moradores que residem nas comunidades do entorno das sedes dos grupos.
Foto: Vinícius Carvalho
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