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Exposição dá luz, poder e protagonismo às pessoas da periferia
‘Comigo, ninguém pode!’ reúne 10 quadros de Caio Ronin, morador de comunidade próxima ao bairro Palmital, em Santa Luzia. As obras podem ser conferidas, gratuitamente, no DiamondMall, a partir do próximo dia 18
Quando começou a rabiscar os primeiros desenhos, com apenas 5 anos de idade, o artista plástico Caio Ronin sequer imaginava que seu talento o levaria tão longe. Morador de uma comunidade próxima ao bairro Palmital, em Santa Luzia, área de grande vulnerabilidade social na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ele celebra um feito importante na carreira: hoje, com apenas 28 anos, vai assinar seu primeiro trabalho solo, a exposição ‘Comigo, ninguém pode!` em cartaz no DiamondMall, de 18 de maio a 26 de junho.
Na exposição, composta por 10 telas em tinta a óleo, Ronin dá luz, poder e protagonismo às pessoas da periferia. Sete quadros são retratos de amigos, conhecidos e pessoas do entorno do artista que aceitaram posar voluntariamente. Todos são retratados em meio a plantas que crescem pelos corpos dos modelos, entre elas Comigo Ninguém Pode, Espada de São Jorge, Arruda, Jiboia, Lírio da Paz, Copo de Leite e Palmeira. “Nesta exposição meus amigos vão se encontrar, os modelos pintados são espelho deles. Quero que se sintam representados de forma diferente de como são vistos e apresentados ao mundo. Se sempre foram colocados em posição de subserviência e marginalização, aqui estão sendo exaltados, entronados”, explica o artista, acrescentando que todas as espécies usadas nas telas são plantas de poder, que protegem a casa e trazem boas energias.
Ainda segundo Caio, além de ser uma planta que protege contra o mau-olhado e a inveja, Comigo Ninguém Pode faz alusão à força dos moradores da favela onde ele nasceu, cresceu e ainda vive. “Diante dos desafios diários, escassez de recursos, carência e da vida ácida que nos é imposta, só temos um caminho a seguir: o da autoafirmação. Para sobreviver a gente precisa adotar, na marra, a postura do ‘Comigo ninguém pode’”.
Para criar uma atmosfera nos quadros capaz de transmitir a força de quem mora nas comunidades, Caio também recorreu a uma gíria corriqueira do dia a dia com os amigos. “Na favela a gente usa a palavra ‘posturado’ quando queremos dizer que alguém tem elegância e posicionamento firme. As pessoas que eu pintei aparecem sempre com a cabeça erguida, coluna ereta e olhar fixo, ou seja, são posturadas. Com isso, minha intenção, ao optar por esse simbolismo, é quebrar os estereótipos que continuam insistindo em nos colocar nos lugares de fraqueza”.
Curador artístico da exposição ‘Comigo, ninguém pode!’, Marcos Esteves afirma que a importância do trabalho de Caio em espaços como o DiamondMall é promover conexão entre diferentes setores da sociedade. “Independentemente de onde vem, arte é sempre arte. Representa a trajetória, o universo, a vivência do artista e o modo como ele se relaciona com o mundo. Tenho plena certeza de que as pessoas vão ser impactadas positivamente pelo trabalho. Ronin traz toda a força e brilho do povo que ele representa para as telas, que vão muito além das mazelas as quais estamos acostumados a ver nos noticiários”, pontua.
Para a superintendente do DiamondMall, Jucilene Oliveira, é uma alegria abrir o shopping para receber o trabalho de um artista jovem e tão promissor. “Essa é a quarta exposição do ano que recebemos com curadoria do Marcos Esteves, todas com temática social e inclusiva. Já falamos, em trabalhos anteriores, sobre preconceito zero através da exposição ‘Todo Mundo Cabe no Mundo’, da diversidade do Carnaval de BH, em ‘Pinceladas e Ornamentos’ e, em abril, com ‘Olhe bem as montanhas’, destacamos a importância histórica, ambiental e paisagística da Serra da Curral para a cidade. Queremos cada vez nos tornar um espaço de cultura, pois sabemos e entendemos a relevância da arte como ferramenta transformadora da sociedade”, ressalta.
Projeto FloreSer
Quem visitar a exposição poderá contribuir para o projeto FloreSer, criado por Caio Ronin em 2020 para ser – segundo as próprias palavras do artista plástico – um band-aid no alívio das feridas na periferia.
Atualmente, o FloreSer desenvolve atividades semanais gratuitas na comunidade onde Caio vive, como aulas de dança, filosofia e exibição de filmes seguidos de rodas de conversa. De acordo com o artista, todas as ações do projeto têm um propósito. Os filmes, por exemplo, potencializam o senso crítico dos participantes. Já a aula de dança é um momento para sabermos como está a vida dos meninos.
Os encontros, que atendem uma média de 30 crianças e adolescentes, de 4 a 15 anos, por mês, acontecem em um pequeno cômodo, embaixo da casa de Caio, espaço que ele também utiliza como ateliê. “O local fica sempre de portas abertas para que todos na comunidade tenham acesso às minhas obras e possam desenvolver olhar natural para a arte. Assim, ao visitarem um museu ou instalação artística não sentirão o estranhamento e o desconforto que eu senti quando comecei a frequentá-los”, diz Caio.
O projeto também oferece lanche semanal e cestas básicas às pessoas em situação de rua e desenvolve ações filantrópicas em datas comemorativas, como Páscoa, Dia das Crianças e Natal. “Mapeamos as necessidades da comunidade para, em seguida, trabalhar por meio do cooperativismo e da ajuda de todos os moradores”, explica. Todos os participantes da iniciativa são voluntários e as aquisições que necessitam de capital, são possibilitadas através de doações.
Reconhecimento que inspira
Em março, Caio Ronin foi homenageado com a Comenda Antônio de Castro Silva, concedida pela Prefeitura de Santa Luzia às pessoas com relevante serviço à cultura, vida pública e ensino do município. Instituída desde 1990, essa foi a primeira vez que a escolha dos agraciados se deu através de consulta pública. Até então, os escolhidos para a homenagem eram determinados pelos representantes políticos da cidade. “Sinto-me como se estivesse com um facão na mata abrindo caminhos para os meus virem junto. Não que eu seja o único, muito pelo contrário: sou mais um na linha de frente”, reflete.
Serviço: Exposição ‘Comigo, ninguém pode!’, telas do artista plástico Caio Ronin
Onde: DiamondMall (Avenida Olegário Maciel, 1600 – Lourdes)
Acervo posicionado no Piso L3. No local terá a apresentação do projeto social FloreSer com QRCode para os clientes que quiserem fazer doações à iniciativa.
Quando: 18 de maio a 26 de junho
Funcionamento: todos os dias, das 10h às 22h
Exposição é realizada com o apoio do Multiplique o Bem, hub de iniciativas de responsabilidade social da Multiplan.
Exposição gratuita
Foto: Caio Ronin
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