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Felipe dos Santos lança seu 1º álbum de forma experimental e concebido em home-studio durante a pandemia

Baixista dos blocos de carnaval Abalô-Caxi e A Roda se inspira no músico mineiro Sidarta Riani e lança “Meu Amigo Tilelê Diz Que Sou Brega Mas Eu Acho Isso Meio Problemático”, com críticas irônicas a certos nichos da produção musical de Belo Horizonte.

De caráter totalmente experimental, o primeiro álbum do músico Felipe dos Santos, “Meu Amigo Tilelê Diz Que Sou Brega Mas Eu Acho Isso Meio Problemático”, será lançado no dia 14 de maio nas plataformas digitais (https://linktr.ee/felipeds.mp3), com a distribuição da Tratore. A produção foi iniciada nas primeiras semanas do isolamento social e se conclui um ano depois com os aportes da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. 

As gravações e todo o trabalho de tratamento das canções foram feitas em home-studio, um processo intrinsecamente relacionado à pandemia, com o estar em casa, sem a possibilidade de fazer uma jam, encontrar amigos e músicos, uma banda e mesmo o público para a realização de um lançamento presencial.

“Durante a pandemia, comecei a organizar este álbum, sozinho em casa e com participações remotas de artistas amigos convidados. Esse contexto me fez optar por gravações feitas em casa, de home-studio, o que acaba trazendo muito destes tempos para as criações”, conta o músico Felipe dos Santos. 

Ao longo deste período de aproximadamente um ano, as criações foram lançadas separadamente em compactos, como as primeiras demos do álbum que estava em construção. Os quatro compactos, cada um deles com duas canções, formam diferentes temáticas sonoras, políticas e sensoriais. Com os aportes da Lei Aldir Blanc, foi possível trabalhar os compactos e finalizar o álbum, dando o tratamento necessário como regravações, mixagens e masterizações. 

“Cada EP tem um significado em si, que se transforma e surge como outra coisa quando se ouve todas as músicas juntas. Acredito que, ao final, o álbum vai ser uma espécie de um retrato cantado de uma realidade. De seus inúmeros problemas - relacionados diretamente à pandemia ou não - mas também da presença de afetos e relações que seguem sendo importantes e necessárias, ainda que moldadas de maneira diferente nestes tempos”, comenta o músico.

CONCEITOS E IRONIAS

Nascido na região noroeste de BH e vivido por cerca de 15 anos em Contagem, Felipe compõe desde a adolescência, quando começou a tocar voz-e-violão em barzinhos. Fez parte da banda Sindiskato, de eletro-ska, formada em 2012. Além de tocar baixo, Felipe ainda se dedicava a criar composições autorais para o grupo que ficou ativo por cinco anos. Neste período, ele acabou engavetando outras músicas e projetos próprios que só voltaram a rondá-lo após o fim da banda em 2017.

Músico de estradas diversas, passando pelo rock, pelo voz e violão dos bares ao estudo acadêmico da música e ao ofício de professor de música, Felipe começou a desengavetar suas criações a partir de encontro com o músico e amigo Sidarta Riani. “Quando mostrei as músicas para o Sidarta, ele afirmou em tom de elogio que eu tinha uma pegada brega. Eu entendi o que ele quis dizer, mas eu entendo que o brega é um estilo musical consagrado totalmente diferente do que eu toco e percebi ali na conversa que o brega trazia uma conotação de algo que vinha do povão. Essa é uma visão elitista que acho meio problemática. Desta conversa, surgiram as duas músicas que compõem o compacto ‘Diz que sou brega’ e as primeiras provocações que deram origem ao álbum”. 

Com fortes influências de Sidarta, com quem Felipe toca na banda Zen-Frito, acompanhando no contrabaixo, o disco ganha forma e conceito, a começar pelo longo nome que é, na verdade, uma provocação e também uma homenagem ao amigo. “Considero que Sidarta já é um dos artistas mais relevantes da cidade. Belo Horizonte tem uma tradição de cantautores que trabalham com letras e melodias acompanhadas por violão bem elaborado. Ele segue essa tradição, embora não se feche para as possibilidades estilísticas que temos hoje em dia - a inserção de elementos eletrônicos, por exemplo.”.

Sem abrir mão de harmonias complexas, o disco traz uma crítica ao pensamento elitista que separa o popular do populacho, que cria critérios para se determinar o que é boa música e ou música ruim, que conota com brega o que é do povão. Com ironia, Felipe também faz um contraponto a este nicho elitista da produção musical de belohorizonte na atualidade.

“A organização dos compactos e do álbum remete também à vontade de retratar os diversos processos musicais que vivi e tenho vivido. Tive a sorte de me envolver com muitos fazeres musicais - desde o tocar em bailes até a Universidade, passando pelos voz-e-violão em bares. O álbum diz também dos bairros simples de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Diz das relações de amor-e-ódio a uma certa dinâmica urbana, que também influencia a produção musical da cidade, e que carrega certo elitismo. Hoje eu tenho cada vez mais feito letras numa pegada mais popular, com toda a minha ironia”

LADO A LADO B

O disco tem uma divisão diferente dos quatro compactos e está organizado em Lado A e Lado B. Inicia, de um lado com “Meu amigo tilelê diz que sou brega” e do outro, “Mas Eu Acho Isso Meio Problemático”. As temáticas das músicas e das letras têm a ver com diversidade, reflexões sobre questões sociais, afetos e relatos confessionais. 


O primeiro compacto lançado “Meu amigo tilelê” traz influências do Clube da Esquina influenciada também pelo Carnaval de BH, em que Felipe toca no bloco A Roda. “Ilha do Farol” é uma canção instrumental, com característica harmônica complexa, inspirada no trabalho de Lô Borges. Foram seis anos de trabalho na composição da música que traz uma harmonia complexa e abre espaço para um jogo de improvisação. A segunda música, “Não tenho medo”, de 2018, foi criada para o amigo Rafa Ventura, multiartista queer com quem Felipe tocou no bloco Abalô-Caxi e no show Desvyado.  “Eu compus essa música pra ele cantar e ele segue cantando, com um arranjo diferente ao piano. Mas é uma clara influência do Carnaval onde nos conhecemos. Compus para o Rafa com influência do Sidarta. Como se fosse uma declaração de carinho pros meus amigos tilelês”.

“Diz que sou brega” reflete as canções populares da década de 70 e uma onda beatlemaníaca que pegava música dos Beatles e gravava em português, uma certa aceitação do que as pessoas chamariam de brega no senso comum, ainda que o estilo seja outra coisa. 

O terceiro compacto traz forte fundo político. “Há Mais de Nós” ganhou letra no dia do assassinato da menina Ágatha e perpassa por uma alvanche de notícias ruins que nos chegam pelo noticiário. Já “A Esquina”, composta em 2018, gira em torno da queimada da Amazônia, de onde vieram cinzas que chegaram aos céus de Belo Horizonte e remete também ao assassinato de um vizinho por um policial. Por último, o compacto “Meio Problemático”, que será lançado no segundo semestre, como um extra do álbum, traz relatos pessoais e confessionais em composições como “Choveu”, que relembra um dia de chuva na casa de sua avó, já falecida, e “Canção etílica brasileira”, de 2011, sobre um dia de solidão, embriaguez, desencontros e encontros. 

FELIPE DOS SANTOS

Felipe dos Santos é belo-horizontino, baixista e compositor. A carreira como músico iniciou aos 14, tocando baixo e nos vocais. Aos 16, ainda no colégio, começou a tocar voz-e-violão em barzinhos. Aos 21, teve sua primeira banda autoral - o Sindiskato, de electro-ska. Dividia o tempo entre as atividades musicais e a graduação em Design Gráfico pela UEMG, que concluiu em 2012. O Sindiskato ficou na ativa até 2017.

Em 2014, passou a dedicar todo o seu tempo à música, trabalhando desde então como professor particular e, até 2019, também como músico freelancer em bandas de baile e de cerimônias. Nos últimos 4 anos, tem acompanhado - como baixista - artistas como Sidarta Riani, Thiago Braz e Rafael Ventura - além de blocos do Carnaval de BH como o Abalô-Caxi e A Roda.

Em 2020, aos 29 anos, iniciou sua carreira artística solo, gravando, de maneira independente, canções que compôs desde 2011. Essas composições procuram retratar os processos musicais com os quais já se envolveu e têm temática ligada aos bairros simples de Belo Horizonte. Em 2021, esses lançamentos caseiros ganharam uma nova roupagem (algumas regravações, mixagens profissionais, masterização) e formam seu primeiro álbum, “Meu Amigo Tilelê Diz Que Sou Brega Mas Eu Acho Isso Meio Problemático”.

Foto: Fabio Xavier

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