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Coluna palavra livre - Arqueologia literária
O poder de resolutividade masculina para logo afirmar parâmetros indubitáveis da literatura universal quis encerrar a autoria feminina à sombra do fazer sentimental. Caberia a elas, quando muito, tratar das nuances da psicologia e dos sentimentos humanos, pois eram logo classificadas como experts em emoções e guardiãs da vida privada. Ainda sobre o atestado patriarcal estigmatizante, cabiam às escritoras o tecer biográfico da matéria literária, construindo, por assim dizer, cartas, diários, poesias e memórias. Quando muito, romances afeitos a traduzir comportamentos morais e bons costumes, defesa da ordem familiar e elogio da educação doméstica.
Logo, o dedo em riste dos homens discriminava a escrita feminina de tal modo que rezava a crítica, também falocêntrica, que as mulheres só conseguiam fazer crônicas miúdas e banais. Quando alçavam algum sucesso, a classificação parecia mudar de tom, e a escritora assim consagrada era logo laureada como autora de romances intimistas. Nesse caso, as autoras eram alçadas à categoria de escritoras universais por darem conta globalmente da condição humana. Conseguiam, então, ultrapassar as particularidades e os contextos. A obra atemporal, enfim, transcendeu a vida datada, o geral domou o específico, e o texto abrangente venceu questões de sexo e gênero.
Questionando tal escopo formalista e canônico, uma das primeiras coisas a se destacar sobre a crítica literária feminista é que ela não configura um corpo homogêneo de conceitos e estratégias de leitura, mas sim um amplo conjunto de variadas proposições temáticas, ideológicas e metodológicas a serem aplicadas ao estudo da Literatura. Outra questão importante, que não se pode perder de vista, é que um dos postulados básicos das diferentes vertentes da crítica literária feminista é a impossibilidade de se pensar o texto literário desvinculado do seu contexto de leitura e produção, bem como do contexto onde se realiza a sua leitura. A crítica literária feminista se faz interdisciplinar por definição, uma vez que ela não admite a leitura do texto em um modo desvinculado de sua exterioridade e de sua historicidade.
Política Sexual (1969), livro de Kate Millet (1934-2017), é considerado como uma das obras fundacionais da crítica literária feminista. Tributária não apenas de Betty Friedan (1921-2006) (1963), autora de Mística Feminina (1963), mas também de Simone de Beauvoir (1908-1986), em O Segundo Sexo (1949), Millet define política sexual como a maneira pela qual o sexo dominante (que passa a ser entendido nos mesmos termos de uma classe social dominante) procura manter o controle e o domínio do sexo subordinado; em outras palavras, a autora sustenta sua teoria da política sexual a partir de uma analogia que aproxima o funcionamento do patriarcado como estrutura política ao da classe dominante (tal como a noção é formulada pelo materialismo histórico). Assim, Kate Millet se encarregou de dar visibilidade à escrita de mulheres e denunciar e desestabilizar a ideologia reducionista a que estavam marcadas as personagens e personalidades femininas no cânone.
Logo, sabemos que as mulheres ficaram, por muito tempo, excluídas de diversos espaços e não foi diferente com relação ao campo literário. Embora Machado de Assis (1839-1908) quis deixar a dúvida pairando no ar, Dom Casmurro (1899) projeta apenas a narração de um homem ciumento e possessivo. Historicamente só Bentinhos foram autorizados a contar suas histórias, ficamos, a maior parte do tempo, sem saber a versão das Capitus. “Comparo a mulher à terra, porque lá é o centro da vida. Da mulher emana a força mágica da criação. Ela é abrigo no período da gestação. É alimento no princípio de todas as vidas. Ela é prazer, calor, conforto de todos os seres humanos na superfície da terra” – salienta a romancista moçambicana, Paulina Chiziane, em Eu, mulher… por uma nova visão do mundo (2013).
Paulina Chiziane
Com Chiziane, chegamos ao encantamento de pensar a literatura como “a força mágica da criação”. Experimentamos esse sentimento de entusiasmo com os poemas de Amanda Xavier, em seu livro Arqueologia afetiva (Avá Editora, 2021). A gente consegue experimentar uma dupla sensação – terrena e aérea – quando sentimos o êxito da escritora na feliz realização da sua literatura essencialmente feminina e feminista: “como mulher/vejo verdade na lua/sinto verdade onde/os olhos dos homens/não podem ver/sei que só a verdade/torce o céu noturno/e revela o vidro/mas como mulher/eu não me corto nos cacos/a escuridão não me confunde”.
Temos aqui uma fabulosa poética, que se espraia em múltiplos quadrantes. Uma palavra cheia de janelas. E de raras potências. Do alegro moderato ao presto con fuoco, como diriam os italianos. Com a delicadeza de quem sonda, experimenta, e põe à prova. E abre de par em par o que outros acabariam fechando a sete chaves: “apesar dos homens terem/nomeado o inominável/não é com nomes/que as mulheres sabem ler/o que se escolheu chamar de/estrelas”.
Na saborosa apresentação de seu livro – texto escrito a próprio punho – Amanda Xavier se diz “arqueóloga de mentirinha”. Aqui tudo indica que a autora está diante da trilha deixada por Fernando Pessoa (1888-1935), em Autopsicografia, qual seja: o poeta como fingidor. No entanto, a autora de Arqueologia afetiva também percorre caminho próprio e autêntico: “Estou sempre descendo ao meu interior, passo muito do meu tempo explorando abaixo da superfície. Não disfarcei bem que banalidades existenciais são em si mesmas o próprio paradoxo”. Como podemos perceber, Amanda Xavier não se limita a observar dos seus altos. Contempla e também desce: “nem sempre é claro entender/que minha força não está/somente no etéreo/a vida é mesmo selvagem”.
*Marcos Fabrício Lopes da Silva
* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.
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Foto: Divulgação
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