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Coluna palavra livre - A leitura do mundo

Hoje, mais do que nunca, urge a necessidade de conhecermos o nosso lugar, o nosso passado, e como se efetivou a formação da sociedade brasileira. Acreditamos que esse conhecimento é indispensável para atingirmos um desenvolvimento social. É com esse propósito que devemos buscar norte digno e consistente para transformar a nossa realidade em um país sem as desigualdades econômicas, sem as injustiças sociais e com um povo politicamente participativo. Para tanto, precisamos fazer leituras sobre o mundo social, procurando a apreensão da realidade. Na concepção de Paulo Freire (1921-1997), no livro A importância do ato de ler (1981), “a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente”.

Antes de tornar-se palavra escrita, a realidade foi captada em pensamento pela abstração, designando-a em conceitos, palavras, numa representação intelectiva das coisas que se postam na exterioridade da consciência. A leitura do mundo faz-se por infinita determinação temporal. Ela nunca se dá por completa e intensamente insatisfeita, busca incessantemente outras interpretações, em novas leituras pelo sujeito cognoscente. Por sua vez, este, na prática da leitura escrita, resultado da leitura de outros, cultiva, por conseguinte, a experiência de sua própria leitura de mundo. A leitura, dessa forma, presta-se como vínculo para a consciência jungir-se à realidade infinita e desafiadora, para quem se ergue com intrepidez para desvelá-la.

Estou convencido de que a leitura mais contundente é aquela na qual o leitor expõe o que ele tem de mais essencial, sem se deixar trair, esfriar ou seduzir pelos efeitos da simples técnica. A mim me fascina muito este fenômeno: o da paixão que se converte em linguagem e que comove o outro. Embora marcados pela visão pessoal, as leituras de matrizes mais profundas não se limitam ao raio de atuação meramente individual, pois transcendem a esfera do eu e alçam-se à condição de temas universais, aqueles em torno dos quais gravitam os homens, precários e desejantes. Como revela Drummond (1902-1987), em fascinante entrevista concedida à sua amiga e jornalista Lya Cavalcanti (1907-1998):

“Bem, ao sair do colégio às carreiras, com a sensação de quem levou uma pancada na cabeça, fui praticar em Belo Horizonte, pela primeira vez, as delícias da liberdade. Dediquei-me instintivamente ao prazer de vadiar. Estudar? Pois fim. Fazia de conta, iludindo o pai severo mais generoso, que soltava a mesada. Era a forra à disciplina, às limitações, proibições e inibições do internato, magnífico e implacável. Vadiar anos e anos: programa de vida sem programa. O que me salvou foi o achamento (palavra justa, pois era a usada pelos antigos farejadores de ouro, ao encontrá-lo) de uns rapazes estudantes de Direito, que por sorte eram também dados a letras, embora não fizessem disto preocupação única ou principal. E mais um estudante de Medicina, de igual feitio. Ficaram meus amigos, no casual. Sorte! Não sei como, não sei porque, mas ficaram. Estudavam, trabalhavam em funções modestas: no escritório da estrada de ferro, o Abgar Renault; na secretaria do Tribunal de Justiça, o Mílton Campos; na Saúde Pública, o Pedro Nava; na repartição das Finanças do Estado, o João Alphonsus, lugares assim. À tarde passavam pela Livraria Francisco Alves, na Rua da Bahia, assistindo à abertura dos caixotes de novidades francesas, que iam de Anatole France e Romain Rolland, passando por Gourmont. Compravam a crédito o que lhes apetecia, e, à noite, papo em redor da mesinha de mármore do Café Estrela, na mesma sagrada rua intelectual de Minas Gerais, diante da cerveja glacée ou frappée cuidadosamente verificada no grau de frigidez. Se o dinheiro não dava, a cervejinha era trocada pelo humílimo café com leite, pão e manteiga, média clássica. Os bons papos. Os livres, alegres, modestos, fecundos papos, que abriam ao ex-colegial meio zonzo uma perspectiva de vida literária que seria também de solidariedade moral, de ajuda benévola à sua timidez, de correção à sua fraqueza de bases, à sua confusão interior, na procura de um rumo qualquer que não fosse aniquilamento”.

Os sóbrios só veem, agem e reagem ao concreto presente que lhes roça a cara. Para esses, o homem é visível, palpável e previsível. Para o poeta itabirano, é um intricado aranzel de mistérios, inapreensível, indomável, impenetrável. Mas, afinal, o que é o desejo? De que matéria é feito e que poderes tem para causar tanto tumulto? A alegria da escola, por exemplo, parece estar em seu “currículo oculto”. A tristeza dela, com certeza, se encontra no currículo ocultado. Expulso por “insubordinação mental”, Drummond foi defenestrado do colégio onde estudava; capítulo este que compõe uma das páginas mais infelizes e criminosas da História da Educação no Brasil. Não se pode perder de vista que o embasamento científico e a formação crítico-reflexiva precisam estar voltados para o exercício da cidadania e o compromisso social. A educação, sabemos, tem como fim integrar o ser humano e torná-lo sensível ao enfrentar os desafios da vida e seus complexos ditames.

Com Drummond, aprendemos que a língua deve ser simples sem ser superficial, prenhe de metáforas para dizer o indizível, na qual as palavras voassem como pássaros em bandos ordenados. A poesia, pura forma que emociona, nos conduz para dentro de nós mesmos, nos convida a revisitar os mistérios do nosso próprio ser, os insondáveis labirintos da nossa própria subjetividade. Carlos Drummond de Andrade fez da poesia uma oferenda metafísica a quantos tenham ouvido e permitam entregar-se ao puro deleite da fruição. Venha de onde vier, a poesia acontece mesmo é dentro de cada um de nós, lá onde somos vulneráveis, indefesos e humanos.

Por  Marcos Fabrício Lopes da Silva*

 * Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

Foto: Divulgação

 

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