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Circunvizinhança: artistas viram expedicionários em busca de narrativas do baixo Santa Efigênia

Até junho, os cinco participantes da residência artística vão propor criações e intervenções baseadas em investigações sobre o bairro onde se situa o ESPAI

Circunvizinhança é uma projeto de artes visuais sobre o extraordinário cotidiano, sobre as rotinas, costumes e modos de vida do chamado baixo Santa Efigênia. Uma investigação criativa sobre as potências e narrativas de um dos bairros mais antigos de Belo Horizonte - onde está situado o ESPAI, casa que se apresenta como território livre de experimentação, elaboração e desenvolvimento de projetos em artes visuais.

Localizado na Rua Tenente Anastácio Moura, o espaço é gerido pelos artistas visuais e gestores culturais Nydia Negromonte e Marcelo Drummond, propositores e também curadores do projeto, que acontece até junho, dividido em diferentes etapas, que vão resultar na produção de um guia-cartilha. Participam do Circunvizinhança cinco artistas de diferentes linguagens, gerações e trajetórias: Flávia Peret, Ricardo Portilho, Ricardo Burgarelli, Roberto Freitas e Nydia Negromonte. Saiba mais sobre cada um no arquivo em anexo!

Na primeira etapa da residência artística, que já começou, os cinco artistas e pesquisadores dividiram-se em expedições individuais em diferentes rotas que compõem o território compreendido como baixo Santa Efigênia, mais desconhecida e à beira da cidade planejada. O objetivo é levantar subsídios para a criação de projetos de intervenção urbana, buscando histórias coletivas e individuais, sobre a fundação do bairro e sua constituição sociocultural, de forma a reconhecer e revelar a identidade própria das formas e rotinas de vida dos seus moradores e visitantes.

Nydia Negromonte conta que o projeto parte de uma vontade antiga dos gestores do ESPAI. “Na verdade, desde que entramos na casa começamos a pesquisar o entorno. Para o projeto ‘As Casas de Lili’, de 2016, ‘desenhamos’ a história desta casa, construída em 1927, a partir de histórias vizinhas”, relembra. “Esta pesquisa, geograficamente, fincou-se entre os números 600 e 676 da rua. A primeira pessoa que descobrimos foi Dona Elza de Moura, filha do Tenente Anastácio de Moura, que dá nome à rua. Esta simpática senhora, hoje aos 104 anos, foi aluna de Helena Antipoff na última turma na Escola de Aperfeiçoamento, entre 1943 e 1945”, completa.

A artista ressalta que o projeto anseia projetar um movimento de irradiação coletivo, promovendo a emersão de histórias do lugar e criando conexões artísticas com esse arquivo vivo. “O projeto pretende, através da aproximação do cotidiano e da arte, afirmar redes de relações, promover, de maneira horizontal, encontros entre moradores e artistas, reforçando e valorizando saberes e práticas locais”, afirma Negromonte, ressaltando a pluralidade de linguagens alcançada pela curadoria. “Cuidamos para que fossem artistas com interesses distintos a fim de tornar um resultado mais rico, uma maior interlocução, possibilitando uma maior troca, fim de instituir um território fértil circunvizinho”.

Etapas de trabalho

Feitas as expedições, a segunda etapa do projeto compreende a “Mostra em Diagrama”, que acontece no dia 4 de maio e será aberta somente à comunidade do bairro, seus moradores e frequentadores. Um grande diagrama contendo a pesquisa histórica, bem como a exposição de todo material iconográfico coletado será montado no ESPAI para que os vizinhos possam dialogar com os artistas, conhecer o resultado parcial da expedição e, paralelamente, revisitar e recontar a história local. “O projeto pretende produzir registros da memória local que possam dar subsídios visuais e metodológicos aos moradores e agentes locais no processo de estudo e resgate de suas histórias”, pontua Negromonte.

A artista conta que os participantes - cujas vertentes pela literatura, o design gráfico e as artes visuais - já têm acumulado “pano para manga” durante as expedições. “Os artistas já têm alguns pontos iniciais. Estão inteiros e comprometidos com o projeto, criando essa primeira interação com o território”, diz. “Na ‘Mostra em Diagrama’ vamos conhecer um pouco do material encontrado, embora sem delinear propriamente o trabalho a ser realizado nos próximos meses”, ressalta.

A terceira etapa, intitulada “Crônicas Visuais”, contará com ações e intervenções desenvolvidas especificamente para o bairro, que ocorrerão entre os dias 3 e 7 de junho. A partir da “Mostra em Diagrama”, os artistas intervirão no bairro, envolvendo ativamente os moradores e frequentadores. Desta ação coletiva resultará uma nova cartografia, aproximando histórias, pessoas e lugares. Um mapa servirá de convite para que a comunidade participe das visitas às intervenções, sendo que algumas delas terão os próprios artistas como guias.

Para fechar o projeto, a intenção é que seja publicado um guia-cartilha, peça gráfica que reunirá crônicas do baixo Santa Efigênia, registrando a memória textual, documental e imagética do trabalho realizado pelos cinco artistas durante a residência. A publicação, que também será disponibilizada em formato digital, será distribuída em pontos estratégicos, contemplando as duas zonas pertencentes ao bairro Santa Efigênia, dentro e fora da Avenida do Contorno: ateliês, bancas, padarias, casas lotéricas, farmácias, bares e armazéns.

Envolvimento e troca

Um dos bairros mais antigos de BH, o Santa Efigênia fica situado nos vales de dois córregos que fazem parte da bacia hidrográfica do ribeirão Arrudas. Nesse local, foram instaladas as colônias agrícolas que produziam alimentos a serem consumidos na recém-criada capital mineira. Sua história também está intimamente ligada à construção do 1º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais.

Primeiramente nomeado como Quartel, o bairro passou a se chamar Santa Efigênia, padroeira dos militares. Esta influência militar se estendeu até os dias atuais, parcela significativa dos topônimos do bairro prestam homenagem aos muitos militares que ali viveram. Nos primeiros anos da nova capital de Minas, o lugar também abrigou muitos dos trabalhadores que ajudaram a erguer a cidade planejada, além de médicos, enfermeiros, estudantes, professores e funcionários públicos de diferentes setores que por lá foram se estabelecendo, depois de inaugurada a cidade.

Desde 2014 encravado na Zona Leste de BH, o ESPAI vem estreitando relações e explorando a vizinhança como recurso de prospecção e reconhecimento do bairro. Em 2015, junto com o Instituto Undió, o ESPAI realizou no SESC Palladium o projeto “As Casas de Lili”, que deu visibilidade às narrativas locais. Na esteira de outros processos de reflexão artística, o ESPAI promoveu duas expedições consecutivas: “Expedição Fazendinha”, no município de Brumadinho, em 2014; e “Expedição Objetos da Natureza”, em Itabirito, em 2017.

Desses processos vivenciados brotam com força o conceito de Circunvizinhança, em que o ESPAI reafirma o desejo de dedicar-se cada vez mais a seu entorno, cuja vizinhança tem personagens como Dona Elza, filha do Tenente Anastácio de Moura; Senhor Hélio, dono do tradicional “Bar Berberik”, que funciona desde 1933 como ponto boêmio do bairro; ao Senhor Ademir, que hoje dirige a Tipografia Mathias, fundada por seu pai, Leôncio, em 1958; ao “Rei do Amendoim”, tradicional armazém de secos e molhados, fundado em 1953.

Sobre o ESPAI

O ESPAI foi criado pelos artistas visuais e pesquisadores Nydia Negromonte e Marcelo Drummond visando oferecer ao público mineiro a oportunidade de participar de cursos e de desenvolver projetos artísticos. ESPAI, que significa espaço na língua catalã, é mais do que um ateliê nos moldes usuais. A simpática casa dos anos 20, além de ser utilizada como espaço de pesquisa e construção de projetos em artes visuais, tem vocação para iniciativas coletivas e dialoga com outras áreas do conhecimento, tais como literatura, culinária, dança, música, antropologia, filosofia e arquitetura são interlocutores constantes nesse espaço.

Nascida em Lima, no Peru, e crescida em Belo Horizonte, Nydia Negromonte é artista plástica, formada em desenho pela Escola de Belas Artes da UFMG em 1989. Especializou-se em gravura, em 1998, pela faculdade de Belas Artes, Universidade de Barcelona, na Espanha, onde foi artista residente do Atelier Hangar de 1999 a 2001. Participou de importantes mostras e feiras de arte, tais como "ARCO", "Feria Internacional de Arte Contemporáneo" (Madrid), Trigésima Bienal de São Paulo, “A Iminência das Poéticas” e mostra individual, “Lição de Coisas”, no Museu de Arte da Pampulha. Foi recentemente selecionada como uma das artistas finalistas da 7ª edição do Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça.

Já o itabirano Marcelo Drummond é artista gráfico formado pela FUMA/UEMG e professor da Habilitação em Artes Gráficas da Escola de Belas Artes da UFMG. Finaliza Doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Barcelona, Espanha, onde desenvolve tese sobre a gráfica vernácula no Brasil. Já foi agraciado em premiações como o 51º Prêmio Jabuti (melhor projeto gráfico), da Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo, em 2009; Concurso Arte no Ônibus, em Belo Horizonte, em 2005; Prêmio Internacional de Poesia Visual Joan Brossa, em Barcelona, na Espanha, em 1999. Em 2016, realizou a exposição individual “Daquilo Que é Próprio”, na galeria Periscópio Arte Contemporânea, em Belo Horizonte.

Foto: Daniel Mansur

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