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Diferentes gerações na sala de aula atuando em parceria

Profissional de 82 anos está concluindo a graduação em Administração na Faculdade Senac de Contagem, com o apoio de estudante de 26 anos

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, atualmente existem mais de 33 milhões de idosos no Brasil. O estudo revelou que esse número está diretamente relacionado ao aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Apesar da quantidade elevada de pessoas na terceira idade em nosso país, estudantes e profissionais desta faixa etária, ou até mais novos, costumam ser desvalorizados e discriminados por colegas de trabalho ou de estudos.

O preconceito contra os idosos é estrutural em nossa nação e o conhecimento e a experiência das pessoas mais velhas costumam ser pouco valorizados. Recentemente, viralizou nas redes sociais, um vídeo onde um grupo de universitárias debochavam de uma colega de turma que tinha 40 anos, com comentários como “com essa idade, já deveria estar aposentada”. Essa situação evidencia o chamado etarismo ou idadismo - a discriminação e preconceito relacionados à idade de uma pessoa, seja ela mais velha ou mais nova.

Nunca é tarde para recomeçar

dos Reis Pereira decidiu que, após completar sua oitava década, realizaria um sonho que por muitos anos foi adiado: fazer um curso superior. Hoje, aos 82 anos, está concluindo o curso de Administração de Empresas na Faculdade Senac de Contagem.

O graduando recorda que, quando era mais novo, tentou voltar a estudar algumas vezes, mas havia uma série de obstáculos. Ele explica que a decisão de voltar a estudar se deu por uma série de motivos. “Acredito que se a gente não melhorar nossos conhecimentos, ignoramos as coisas pelo fato de não conhecer, além de que é muito bom aprender. Entendo também que o nosso comportamento, nossas ações e a atitude de frequentar uma escola e tentar aprender são um incentivo para família da gente e para outras pessoas. O estudo também nos isenta de determinadas manipulações. Ter conhecimento das coisas ajuda a não ficar com a mente vazia, porque está sempre sendo estimulada, e isso é importante.”

Davi aponta ser muito grato por ter sido acolhido no curso de graduação da Faculdade Senac de Contagem com muito carinho tanto o corpo docente, como também os discentes.
“Sou muito grato por tudo. No que diz respeito à idade, temos as dificuldades. Por mais que a mente não seja fértil como antes e temos menor facilidade hoje em dia, vamos aprendendo devagar, cada um vai no seu tempo. Mesmo em momentos que tive dificuldade recebi muito incentivo, então tenho um carinho enorme por todos também.”

Para Davi, uma das vantagens de voltar a estudar quando se é mais experiente é que “quando tomamos uma decisão não abrimos mão por nada. Apesar das dificuldades, nunca pensei em desistir de estudar. E mesmo que demore, enquanto Deus me der vida, não pretendo parar, quero fazer uma pós-graduação e continuar caminhando para alimentar a mente.”

seus estudos, Davi tem sua esposa Miriam, de 62 anos, como parceira. Ela também estuda na Faculdade Senac. “Incentivei ela a estudar para que a gente construa um conhecimento secular. Ela tem mais facilidade para assimilar os conteúdos então é uma troca, ela me ajuda e eu a ajudo”, afirma.

Davi está concluindo algumas matérias que faltam para terminar o curso e já tem planos. “Ao longo de quarenta anos na empresa ferroviária em que trabalhei, e para qual ainda presto serviços eventuais, houve muito investimento em mim como profissional. Mesmo que trabalhe a distância, quero prestar mentoria ou consultoria. Vejo que a ferrovia no Brasil está defasada em muitas de suas áreas e falta assistência devida aos trilhos, o que causa prejuízos. E é nisso que, como profissional, quero trazer soluções”, destaca.

Encontro de gerações

Um dos principais parceiros de estudos de Davi e Miriam foi Alex da Silva Marques, de 26 anos. O estudante evidencia as vantagens de estudar com uma turma com pessoas de faixas etárias tão distintas. “Há troca de experiências, sem dúvida. Eles trazem as experiências e nós, mais jovens, colocamos as ideias na prática com os recursos atuais disponibilizados. Fora a questão da maturidade, com uma mescla de idades há experiência com as pessoas mais maduras para se trabalhar e discutir ideias.”

Alex indica estratégias para aproveitar ao máximo a parceria com estudantes mais velhos, como foi sua experiência com Davi e Miriam. “Ter foco, ser paciente e buscar temas em comum para maior interação e trabalhos em equipe. Além de entender que as relações interpessoais são parte da carreira e do crescimento profissional e pessoal.”

Na sala de aula

Francielle Rodrigues Souza, docente e Coordenadora de Extensão e Iniciação Científica da Faculdade Senac de Contagem, foi professora em diversas matérias de Davi, Miriam e Alex. Seu receio inicial de que a grande diferença de idade entre eles poderia deixar a turma heterogênea foi substituída por uma gratificante surpresa. “O que aconteceu foi o oposto. A diferença acabou se tornando um ponto de convergência, com um estudante apoiando o outro. O Alex, que tem muita habilidade com a utilização de tecnologia, sempre ajudou e deu o suporte necessário para o Davi e a Míriam, em especial durante a pandemia, quando as aulas foram realizadas de forma remota. E esse apoio se estendeu quando retornamos as aulas presenciais.”

mesma forma, Míriam e Davi sempre buscaram agregar conhecimento por terem mais experiência profissional e de vida, conforme destaca Francielle. “Foi muito gratificante realizar trabalhos em sala de aula e perceber o trabalho conjunto dos três e a contribuição de cada um deles, com suas habilidades e competências”.

A docente evidenciou também a qualidade do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado pelo Davi. “Foi um dos mais bem escritos que já recebi. Ele consegue expressar suas ideias de uma forma simples e compreensível. Acho muito valioso uma pessoa que toma a decisão de fazer um curso de graduação após os 80 anos de idade, com tanto esforço e dedicação.”

Coordenadora de Educação do Senac, Juliana Gaudêncio comenta os principais desafios didáticos-metodológicos para manter estudantes de diferentes gerações estudando juntos, não só na mesma turma, mas atuando num mesmo grupo:

Preconceito em relação as pessoas mais velhas e aos estigmas associados ao envelhecimento;

Preconceito que permeia a sociedade desde a Antiguidade Clássica;

Medo do envelhecimento oriundo de uma sociedade que quer viver mais, porém não quer envelhecer. Envelhecimento coloca próximo à morte;

Cultura ocidental que valoriza a beleza, a força e a juventude acima de tudo, em detrimento da velhice que ainda é vista como estágio de declínio e decrepitude. Peças descartáveis no processo da produção e reprodução do capital;

Cultura ocidental moderna com focos individualistas em “juventude, autoconfiança e individualismo”.

A gestora aponta ainda as estratégias inclusivas para incluir e evitar a evasão desses estudantes:

Dialogar sobre as gerações, seus valores e o novo contexto social mundial;

Ensinar para o entendimento do que é uma população heterogênea, suas dificuldades e melhorias;

Assegurar a todos o direito à educação, trabalho e cultura;

Atender o desejo de aprendizagem de todos e prepará-los para novos desafios;

Possibilitar o aprofundamento em conhecimentos na área de interesse e paralelamente favorecer a convivência numa sociedade com pessoas de características diversas;

Impedir uma vulnerabilidade social do público sênior;

Incluir todos de forma objetiva e eficiente sem juízo de valor.

E destaca os benefícios de ter alunos de diferentes gerações estudando juntos:

Entender que a aprendizagem é um dos principais domínios da capacidade funcional;

Desenvolver a capacidade de entendimento, enfrentamento e superação das adversidades;

Diminuir o isolamento social dos mais velhos e favorece um novo entendimento sobre a vida aos mais jovens;

Transmitir valores de preservações de tradições aos mais jovens;

Ajudar na perspectiva de um idoso ativo, integrado e saudável pelos mais jovens pela facilidade de aprendizagem;

Levantar e avaliar os pontos fortes e fracos das gerações e extrai o máximo e melhor de cada uma;

Compartilhar vivências para contribuição de um aprendizado em conjunto;

Melhorar as relações sociais.

Foto: Arquivo Pessoal

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