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Educação e a Linguagem - Nossa geração é de conteúdo

Existe a tese de que a evolução tecnológica na sociedade contemporânea pode ser considerada a terceira grande transformação global na história da humanidade, após a neolítica e a industrial. Ela está presente em todos os campos de conhecimento e desenvolvimento, tendo forte influência no cotidiano das pessoas, na busca por inovação e praticidade. A ciência e a tecnologia são produtos típicos da modernidade por encarnar em sua essência o ideário da busca do novo, ou da novidade constante. No entanto, nos últimos tempos têm-se levantado alguns questionamentos sobre o quanto realmente existe de inovação nos produtos científicos e tecnológicos permanentemente postos à disposição no mercado como “novidades”.

Assim, para ampliar nossa reflexão sobre inovação tecnológica, Filomena Assolini e Andrea Lastória destacaram que “o conhecimento e a convivência com diferentes linguagens são condições basilares para a construção de propostas pedagógicas que possam, de fato, contribuir para a formação de sujeitos capazes de entendê-las, interpretá-las e compreendê-las. E, mais do que isso, nesse viés e por meio de propostas pedagógicas fundamentadas e inovadoras, consideramos essencial oportunizar aos educandos o exercício da desconfiança e a produção de diferentes sentidos diante de diferentes linguagens, com base em sua memória de sentidos e nível de letramento” (Diferentes linguagens no contexto escolar: questões conceituais e apontamentos metodológicos, 2013).

Consideremos, conforme sugere a professora Eni Puccinelli Orlandi, o processo de constituição do sujeito. O indivíduo (piscobiológico) – que cada um de nós é, quando nascemos – afetado pelo simbólico (mais especificamente pela língua, se estamos pensando o discurso pedagógico), é interpelado em sujeito pela ideologia. Merece atenção, aqui, que, na perspectiva discursiva, o sujeito resulta da interpelação do indivíduo pela ideologia. É assim que, segundo Michel  Pêcheux (1938-1983), pode-se falar em sujeito sem colocá-lo como origem de si. De-centrando-o, portanto. Desse modo é que se constitui o sujeito, que é base da forma sujeito histórica da nossa sociedade: a forma sujeito capitalista, ideologicamente constituída e historicamente determinada. Se nascêssemos na Idade Média, seríamos sujeitos medievais, e não capitalistas, e teríamos outra forma histórica e outros modos de constituição.

O momento da individuação do sujeito, em seus diferentes modos, é crucial para a relação do Estado com o sujeito e deste com seu processo de identificação, pois daí resultam os diferentes sentidos trabalhados em sua formação e o modo como ele vai se inscrever em diferentes formações discursivas: repetição e diferença aí jogam o jogo da identificação, constituindo identidades. Em Guimarães Rosa (1908-1967), a transcrição da paisagem se confunde com a escritura do caminho; a história (estória) em si está imbricada no percurso do sujeito que a narra; o fato dá lugar à interpretação; a lógica realista e histórica é descosida pelo ilogismo e no indecidível da prosa: sentimento íntimo e caráter distópico.

“A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas” – afirmou o escritor de Grande Sertão: Veredas (1956).

Como podemos contribuir significativamente para uma prática social que seja transformadora, ou seja, que permita a conscientização, a passagem de uma consciência puramente natural para uma consciência reflexiva, de uma consciência em si para uma consciência para si, de uma consciência dogmática para uma consciência crítica? Se pretendemos construir uma prática social – produtora de linguagem e de humanidade –, como podemos intervir no processo de dominação, desmascarando-o e aguçando a consciência dessas contradições, denunciando-as criticamente, negando-lhes a legitimidade?

Através da linguagem, entendida substancialmente como expressão de alteridade, protagonizamos a educação como o triunfo da razão e da sensibilidade sobre o orgulho e o preconceito. É pela educação que discutimos democraticamente os aspectos mais vulneráveis em uma sociedade. Não à toa, o princípio mais evocado na Constituição Federal de 1988 (CF) é a igualdade. Isso porque nossa principal chaga social, política e econômica gira em torno da desigualdade originada na “educação ruim”.

A CF garante todas as formas de expressão intelectual, artística e científica. Mas não permite o uso da expressão como arma de agressão ao outro. A desigualdade se desdobra na discriminação e no elitismo em seu pior sentido. A sociedade brasileira ainda não se convenceu plenamente da centralidade da educação. O conhecimento não tem limites e ideologias, não se limita ou se direciona por uma forma preestabelecida de pensar, pois é um pensamento em construção permanente. Como magistralmente destacou o poeta Ferreira Gullar (1930-2016), em Traduzir-se: “Uma parte de mim/almoça e janta:/outra parte/se espanta./Uma parte de mim/é permanente:/outra parte/se sabe de repente./Uma parte de mim/é só vertigem:/outra parte,/linguagem/Traduzir uma parte/na outra parte/– que é uma questão/de vida ou morte –/será arte?”.

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva

Foto: Divulgação

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