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Cia Negra de Teatro celebra 5 anos de teatro e transformação social com circulação do espetáculo Chão de Pequenos

rogramação especial conta com 10 apresentações da peça, mais oficina e debates. Montagem, que já circulou em diversas regiões do Brasil e por festivais internacionais, aborda temas como abandono parental, luta de classes, preconceito social e racismo

O espetáculo Chão de Pequenos, da Companhia Negra de Teatro, estreia sua primeira circulação pelos Centros Culturais da Prefeitura de Belo Horizonte no próximo dia 12 de março de 2020. A circulação, contemplada pelo último edital do Fundo Municipal de Cultura de BH, abre o calendário de atividades comemorativas da companhia, que completa 5 anos neste mês, e inclui apresentações da peça em 10 diferentes espaços da cidade, além de oficina com o elenco e bate-papo com artistas da Grande BH sobre gestão e produção cultural. A proposta da circulação é estreitar o diálogo com o público, levando espetáculo e demais atividades para as periferias da capital, numa conexão mais próxima com os espectadores. Toda a programação é gratuita.

 

A peça discute intolerância e preconceito por meio da história de dois jovens abandonados por suas famílias, a partir de uma dramaturgia baseada em histórias reais colhidas em pesquisas e entrevistas com várias famílias e pessoas relacionadas com o tema da adoção. A circulação faz sua estreia no dia 12 de março (quinta-feira), às 14h30, no Centro Cultural Venda Nova, e nos dias 15, 16 e 17 de março, sempre de 9h às 13h, o Centro de Referência da Juventude (CRJ) recebe uma oficina artística sobre os dispositivos de construção do trabalho e os procedimentos de criação da Companhia Negra de Teatro em sua trajetória, com duração de 12h. 

 

Estão previstas ainda sessões do espetáculo, seguidas de bate-papo com os atores Felipe Oládélè e Ramon Brant, nos Centros Culturais Liberalino Alves de Oliveira, Lindeia-Regina, Bairro das Indústrias, Urucuia, Zilah Spósito, São Bernardo, Alto Vera Cruz, Nordeste Usina de Cultura, e uma apresentação na ZAP 18. Um diferencial da circulação de Chão de Pequenos é que todas as apresentações da peça contarão com a presença de um intérprete de Libras, responsável pela tradução simultânea do espetáculo. Além disso, um bate-papo sobre gestão e produção cultural com artistas e grupos de teatro da Região Metropolitana de BH completa a programação.

 

Formada pelo ator e diretor Felipe Oládélè, pelo ator e iluminador Eliezer Sampaio e com colaboração artística do ator Ramon Brant, a Companhia Negra de Teatro tem circulado pelo Brasil e pelo exterior desde 2018 com o espetáculo Chão de Pequenos, que tem direção de Tiago Gambogi e Zé Walter Albinati. Após o reconhecimento nacional e internacional, em 2019 a peça foi indicada a 7 categorias do 5º Prêmio Sinparc de Artes Cênicas (Texto Inédito, Espetáculo, Diretor, Ator, Ator Coadjuvante, Criação de Luz e Trilha Sonora), recebendo o prêmio de melhor Ator Coadjuvante. 

No palco, os atores contam a história de dois jovens, Lucas Silva e Pedro Henrique, entre a infância e a adolescência, marcados pela orfandade e o abandono da própria família. Dos orfanatos às ruas das grandes cidades, a fábula dos garotos revela a importância da empatia, do diálogo e do afeto nos dias de hoje, numa sociedade marcada pela intolerância e pelo preconceito. “Acredito que o espetáculo contribui para que o tema da adoção tenha mais visibilidade e que a discussão se estabeleça também por meio da arte”, diz o ator Ramon Brant. “O espetáculo é, antes de tudo, sobre amizade. Sobre o encontro que presentifica o cuidado no trato com o outro. Sobre querer ser visto em um mundo de visão anestesiada. Existimos por causa dos outros, para os outros, por nós”, completa.

 

Na trajetória da Companhia Negra de Teatro, os artistas contam também com o apoio de outros colaboradores empenhados em discussões sobre questões raciais no Brasil. Em Chão de Pequenos destaca-se a colaboração da escritora Ana Maria Gonçalves - autora do premiado romance Um Defeito de Cor - que tem textos utilizados na peça. As performances do grupo são sempre autorais e questionam problemas sociais graves, como o racismo e as desigualdades sociais.

 

“Neste espetáculo abordamos o fato de negros serem mais preteridos do que os brancos no momento de uma adoção”, conta Felipe Oládélè. O artista destaca ainda outra performance do grupo, chamada Invisibilidade Social, em que uma pessoa negra se deita no chão vestindo um terno e segurando uma pasta, elementos suficientes para recepções muito inusitadas da parte do público. “É muito raro que se humanize um corpo negro deitado no chão da cidade com esse tipo de roupa – houve um dia em que até chamaram a polícia durante a performance. Se o corpo deitado no chão fosse de uma pessoa branca, as reações seriam completamente diferentes”, diz o artista.

 

SOBRE A COMPANHIA NEGRA DE TEATRO

“A companhia nasce da necessidade de criarmos narrativas vindas dos nossos corpos e subjetividades. Primamos pela questão da autoria, da construção de performances que partam das nossas perspectivas e experiências”, conta Felipe. Criada no ano de 2015, em Belo Horizonte, o grupo carrega em seu nome uma homenagem à Cia Negra de Revista, grupo criado no ano de 1926 por artistas negros como Galango, Rosa Negra, Mingote, De Chocolat, Grande Otelo e Pixinguinha, entre outros. E Felipe também reitera que “fomos o primeiro grupo de teatro negro a sair do Palácio das Artes, do curso técnico de teatro, o mais importante de Minas Gerais, o do Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart, da Fundação Clóvis Salgado”.

 

A Companhia Negra de Teatro tem trabalhos que buscam escancarar as relações sociais estabelecidas na sociedade com pessoas negras, o que envolve falta de representatividade, ausência de referências em espaços físicos e simbólicos de grande visibilidade, corpos tratados de maneira estereotipada e relações de poder ditadas pelo controle financeiro.  Atualmente, o grupo dedica-se à criação do espetáculo Um Preto.

Mais do que abordar o racismo em suas criações, a companhia busca falar de diversas desigualdades sociais e da importância do diálogo e da empatia entre pessoas de todas as cores, gêneros, orientações sexuais e culturas para o convívio e desenvolvimento humano. Além disso, apresenta uma reflexão acerca da inclusão de pessoas negras nas artes, sobretudo das potências do corpo negro no teatro, cuja presença é, por si só, um discurso para a cena. Política e poética se somam na pesquisa do coletivo. O grupo ainda expande a área de atuação, incorporando as propostas ao formato audiovisual com a o curta-metragem Wanderlust, escrito e dirigido por Felipe Oládélè.

Foto:Divulgação

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