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Editora SQN Biblioteca lança livros de autores mineiros dentro da programação do Verão Arte Contemporânea
Os trabalhos experimentais “Um autor de sucesso”, de Miguel Javaral, e “Bichos”, de André Lage, ganham vida neste sábado (8), às 11h, na Feira Textura, que acontece nos jardins internos do Palácio das Artes
A confluência entre livros-objeto, escrita experimental, cultura urbana e poesia visual estão no cerne das obras que a editora SQN Biblioteca leva neste sábado (8) para a Feira Textura, parte integrante da programação do Verão Arte Contemporânea - VAC. O evento, que acontece nos jardins internos do Palácio das Artes, às 11h, vai servir de palco para o lançamento do projeto “Um autor de sucesso”, terceiro livro do escritor, músico e agitador cultural, Miguel Javaral, e do livro “Bichos”, do artista visual André Lage. Os dois trabalhos trazem em seu corpo a ideia da experimentalidade, seja por meio do conteúdo, da linguagem ou da composição visual. "Apesar das trajetórias distintas, os artistas partem de processos experimentais, que, para nós, é o que foi Aleph para Jorge Luis Borges, um ponto onde o mundo cruza", pontua Preto Matheus, artista visual, designer da linguagem e um dos fundadores da SQN Biblioteca.
Um autor de sucesso
A partir da ideia de readymades verbais - uma espécie de apropriação de textos preexistentes em que o artista desloca seu sentido, recortando palavras e frases para montá-las em outro contexto e suporte, subvertendo o signo inicial - Miguel Javaral pensa a relação do que seria o cânone da literatura e da poesia inseridos na cultura contemporânea. “A obra é um trabalho metaliterário, diferente da tradição moderna, de poema sobre poema. O que me interessa é a instituição social da literatura, ou seja, qual é o uso da literatura, e ainda o que seria, dentro dessa perspectiva, um autor de sucesso”, explica Javaral. Ao invés de usar as próprias palavras para descrever o mundo, o artista brinca com a linguagem e utiliza textos já concebidos, articulando-os em uma nova configuração para que produza outros sentidos. De acordo com Javaral “o livro é um conjunto experimental, de textos experimentais, em torno da obsessão pelo binômio sucesso/fracasso na literatura e na vida”.
O verso que dá nome a obra está presente no primeiro poema do livro, intitulado "Suas autorizações foram realizadas com sucesso”. O texto, que faz parte da seção "Palavras bonitas que não significam nada”, primeira das cinco presentes no livro, foi concebido a partir da busca no Google da expressão "autor de sucesso”. “O trabalho tem sua unidade a partir da fragmentação, do encontro de elementos comuns em ambientes díspares. Busco formas clichês que possam ser caracterizados dentro do imaginário popular como linguagem poética para compor os textos”, pontua o artista. Outro exemplo disso é o poema “A Arte de amar", inspirado em Ovídio (43 a.C. - 18 d.C.) e também presente na primeira seção da obra. A partir de um texto veiculado em site de relacionamento, que ensinava como conquistar pessoas por meio da poesia, Miguel procurou nas frases dispostas as palavras poesia, poema ou poeta. A partir disso, o escritor selecionou os períodos que mais se adequavam ao título do poema e compôs os versos em ordem alfabética das sentenças escolhidas, como pode ser percebido na passagem: “a poesia pode ser extremamente conquistadora, mas só se você usar o poema certo na hora certa”.
Na seção 2, chamada de "Dez ambiguações”, Javaral vai ao dicionário pinçar as palavras. O procedimento consiste em extrair do significante significados próximos ao que se entende por uma escrita poética, realocando termos em outro contexto para produzir significações diferentes das atribuições usuais das expressões. Em “Indivíduo”, o autor trabalha o único verso do poema através da formulação “sinônimo de organismo”. “Procuro por meio do dicionário, local onde a linguagem não deveria ser ambígua por definição, as contradições próprias da linguagem para formatar os textos”, conta Miguel.
Intitulada "Cada estilo pede uma cor”, a seção 3 foi escrita em parceria com a artista Maria Caram. Cada texto deste capítulo é uma transcrição dos nomes presentes em catálogos de tintas de parede, como o poema “Romântico”que traz em seu corpo os versos “chamas da paixão/ charme natural/ carícia/ compota de abacaxi”. “O objetivo nesta série é explicitar o deslocamento de uma linguagem publicitária para a poética. A partir de um produto, com um nome supostamente vinculado ao imaginário da poesia, compomos poemas brutalmente não poéticos, alterando o sentido das coisas, inserindo-as no que pode se chamar de lugares errados”, explica o autor.
“Falschfahrer”é o nome escolhido para a seção 4. Presente apenas na língua alemã, a expressão faz referência ao motorista que dirige um carro propositalmente pela contramão, algo não tão incomum nas rodovias germânicas. Compostas pelos textos “Articulação 1”, “Articulação 2”e “Articulação 3”, o capítulo subverte o modo como a escrita ocidental aparece no suporte. “São poemas que fazem o caminho oposto ao da escrita tradicional, que é da esquerda para direita, de cima para baixo. No primeiro texto, as letras estão na ordem inversa; no segundo, as palavras estão deslocadas; e no terceiro, a ordem das frases estão alteradas”, aponta o escritor.
Última parada da obra, a seção 5, de nome “Fala”, encerra o livro amarrando o conceito que permeia o projeto. Segundo Javaral, a ideia para o capítulo surgiu da leitura de um trabalho acadêmico sobre a distinção entre a escrita e a fala na percepção de um mesmo texto. “No artigo há um convite para se ler um texto super estranho, sobre uma tentativa fracassada de suicídio. No meio da narração, a pessoa que está contando a história começa a rir. Esse deslocamento operado no suporte do texto permeia “Um autor de sucesso”, assim como a ideia do fracasso, contida no título”, avalia Javaral. Para o autor, os três versos finais da obra reúnem parte da proposta do projeto: ”foi uma pequena tentativa/ que fracassou/ graças a deus”. O fracasso também está presente no desenho de capa elaborado por Preto Matheus. Nela, o "autor de sucesso" é retratado com um semblante desanimado, triste.
Bichos
Linhas com formas abstratas, apoiadas na noção de ângulo, profundidade e espessura. Essas são algumas das concepções presentes nos desenhos que André Lage apresenta ao público com o lançamento de Bichos. Primeiro livro do artista visual, cineasta, fotógrafo e pesquisador, o projeto é composto de imagens sequenciais, desenhadas a partir de um gesto único, em que o ritmo da pincelada dá vida ao trabalho. "Cada série pode ser entendida como frase e ritmo. São formas e linhas que criam movimento, figuras. São também um processo de escrita, uma proto-escrita”, explica Lage. Dividida em duas seções, Bichos traz em sua primeira série 48 desenhos em pastel seco, no formato pequeno. Já na segunda parte, aparecem 43 imagens em dimensão grande, concebidas com tinta nanquim e desenhadas à seco.
De acordo com André, o projeto surgiu da necessidade de encontrar uma arte que pudesse ser traduzida pelo instante. Para o artista autodidata, a natureza dos desenhos está vinculada ao inconsciente, que ganha vida a partir do gesto. “Os desenhos não possuem uma história. Nascem de automatismos. São instantâneos, gestuais. É como deixar a mão pensar através do seu gesto, deixá-la dançar sem uma imagem a priori”, pontua o artista.
Bichos não se encerra com a publicação. Ao contrário, esta é apenas a primeira etapa de divulgação do trabalho. Lage inverte a ordem do processo de exposição da obra e começa pelo lançamento do livro para só depois ir para dentro de galerias de arte. A proposta do artista é declinar o projeto para outros suportes, como fotografia, stickers e tacos de peroba rosa, além de expor os originais dos desenhos. “Ao declinar o suporte, a natureza da obra se modifica automaticamente. O suporte direciona o trabalho para um novo contexto. Quando decido pegar os originais dos desenhos e fazer stickers, opero um duplo deslocamento: o do suporte e o da conjuntura da obra”, avalia. O deslocamento dos originais para os tacos de peroba rosa também é destacado pelo artista: “Esse deslocamento ressalta o caráter lúdico, no sentido formal, de composições por semelhança ou dessemelhança. Os 48 desenhos fixados nos tacos podem lembrar um jogo de memória, ou uma escultura, se utilizada isoladamente como objeto”, diz.
Segundo o artista, por trás da aparente leveza do trabalho, Bichos possui um viés político. “Os animais trazem esse caráter ecológico para obra, que é pensar a extinção das espécies. A caça, o aquecimento global, o desmatamento e a mineração têm acentuado o problema que é tratado com muita preocupação em outros países, e não tanto no Brasil”, aponta Lage.
SQN BIBLIOTECA
Criada no segundo semestre de 2018, a editora surgiu a partir do desenvolvimento do braço editorial do extinto coletivo 4e25. Fundada pelo artista visual e designer Preto Matheus e pelo escritor e músico Miguel Javaral, a SQN Biblioteca sustenta seus alicerces na confluência entre livros-objeto, escrita experimental, cultura urbana e poesia visual. A experimentalidade faz parte de todo o processo da editora, desde a concepção do projeto visual, passando pela linguagem e conteúdo das obras, à impressão dos livros. Inicialmente, a SQN Biblioteca partiu da concepção de impressão artesanal para dar vazão à produção editorial, e agora, pouco mais de um ano depois de sua criação, a editora trabalha em parceria com a Impressão de Minas e dá vida a seus trabalhos por meio de máquinas industriais.
Além dos livros lançados no Verão Arte Contemporânea - VAC, a SQN Biblioteca publicou, no fim de 2019, o trabalho “Manuscorte”, da autora Sylvia Amélia. O livro traz poemas visuais, escritos à tesoura, onde a autora brinca com as palavra, as imagens e os ruídos. Em 2020, a SQN Biblioteca lança outros três títulos: “Guerra”, de Anderson Silva, um livro-poema baseado em imagens de um guepardo prestes a atacar; "Ilhas Pribilof", de André Lage, em que o artista utiliza imagens filmadas, em 1968, no Alasca, de leões marinhos para criar um caderno de notas, onde estabelece uma narrativa que aponta para uma dupla tragédia ao olhar a vida desses mamíferos; e “Criptotipia”, de Preto Matheus, que trabalha a poesia a partir de um alfabeto tipográfico que dá suporte ao texto. No projeto, Preto Matheus utiliza várias metáforas a partir da tipografia, compondo poemas visuais de apenas uma palavra.
A SQN Biblioteca também ministra oficinas ligadas à área de atuação da editora, como o workshop “Textualidade da matéria: tecendo palavras alheias”, realizado no Espaço Cultural És uma Maluca, no Rio de Janeiro, e no Centro de Memória da UFMG, em Belo Horizonte, como parte das programações do ZIP (Zona, Dimensão & Poesia).
A editora participou em 2019 das feiras literárias: Gráfica 2, em São João del-Rei; e, em Belo Horizonte, das feiras FLIR - Festival Livro na Rua; FLI-BH - Festival Literário Internacional de Belo Horizonte; Feira Textura; Canastra; e Urucum.
Sobre André Lage
André Lage, que nasceu em 1971, é pesquisador, cineasta, fotógrafo, ator, performer e artista visual. André é Mestre e Doutor em Literatura Francesa pela Universidade Paris 8 (pesquisa ‘La pictographie chez Antonin Artaud: le corps et le langage’, 2004). E tem Pós-doutorado em Artes Cênicas pela Escola de Comunicação e Artes/USP, 2011. Em 2012, estudou Direção de Fotografia no Sindicato da Industria Cinematográfica Argentina. Em 2015, criou a produtora Relâmpago e realizou seu primeiro longa-metragem, Los Leones(2016), rodado na Argentina em coprodução com Les films du coquelicot (França). Desde 2016, o artista realiza desenhos cotidianamente, experimentando de forma autodidata diversas técnicas e suportes.
Sobre Miguel Javaral
Miguel Javaral (Miguel de Ávila Duarte) é escritor, compositor, instrumentista, artista sonoro, DJ e agitador cultural com atuação no underground artístico de Belo Horizonte na última década. Publicou os livros-obra 100 perguntas difáceis ou triângulo amoroso (2015), Formas Totalitárias (2015) e Factuais (2018). Javaral é cofundador da SQN Biblioteca.
Sobre Preto Matheus
Preto Matheus é poeta, artista plástico, artista gráfico, designer, cofundador do coletivo 4e25 e SQN Biblioteca.
Foto:Pedro Matheus
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