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Pela primeira vez em Belo Horizonte, no CCBB BH, uma mostra retrospectiva de Abraham Palatnik, considerado um dos pioneiros da chamada arte cinética no Brasil
Visitação seguirá protocolos de segurança, com limite de acessos e de quantidade de pessoas nos espaços do prédio; emissão de ingressos será via site/app da Eventim
"A reabertura do CCBB, neste momento, permite a continuidade de uma programação que foi orientada para a divulgação e valorização de dois importantes nomes da história da arte nacional. A exposição de Palatnik, realizada em seguida à de Ivan Serpa, possibilita ao público uma visão ampliada da artes plásticas no Brasil. Os dois artistas se conheceram e partilharam propósitos de inovação, mas cada um trilhou sua própria trajetória, deixando um legado que merece ser conhecido. Nosso papel é oferecer ao público essa oportunidade.” (Leonardo Camargo – Gerente Geral CCBB BH)
‘ABRAHAM PALATNIK – A REINVENÇÃO DA PINTURA’, a exposição que ocupará as dependências do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte a partir de 03 de fevereiro, será a primeira mostra/homenagem ao inquieto artista falecido em maio de 2020, aos 92 anos. Artista cinético, pintor e desenhista, Abraham Palatnik é considerado um dos pioneiros da chamada arte cinética no Brasil, que expande os caminhos das artes visuais ao relacionar arte, ciência e tecnologia. De modo criativo, e ao longo de seus mais de 60 anos de carreira, Palatnik desenvolveu experimentações artísticas e estéticas diversas.
A mostra, sob a curadoria de Pieter Tjabbes e Felipe Scovino, dialoga com as exposições individuais do artista, realizadas pelos mesmos curadores, respectivamente em 2013 e 2017, nos Centros Culturais do Banco do Brasil de Brasília e Rio de Janeiro. No total, serão apresentados ao público mineiro 75 trabalhos de épocas diversas, abrangendo os vários segmentos experimentados pelo artista: Aparelhos Cinecromáticos, Objetos Cinéticos, objetos lúdicos, mobiliário, pinturas e desenhos de projetos.
Entre as novidades da exposição que o CCBBB BH irá abrigar, e que a diferencia das mostras anteriores, estão o inédito curta-metragem dirigido pelo filho Roni Palatnik, que registra o artista fazendo uma das obras da última fase, e um destaque à série W, a última de sua produção. “Por volta de 2004, Abraham Palatnik deu início a uma nova série denominada simplesmente W. À primeira vista, trata-se de mais um desdobramento de seus relevos progressivos. E é. Mas vai além, ao propor uma discussão sobre a ativação do suporte, sua materialidade, diante da ocupação abstrata e/ou figurativa da superfície.” (Frederico Morais - Fevereiro de 2020).
A obra de Palatnik cria uma forma no espaço pelo movimento, além de confundir e ampliar as fronteiras entre pintura e escultura. Os trabalhos que compõem a exposição vêm de coleções brasileiras, além de obras do atelier do próprio artista.
Alguns movimentos de um artista inquieto
"A história da arte mundial o considera um pioneiro da pintura e da escultura em movimento", afirma o cocurador Felipe Scovino sobre Palatnik. Junto com Pieter Tjabbes, eles destacam um dado fortemente significativo da posição de Palatnik na história da arte: seu “diálogo preciso entre tecnologia e intuição. Além disso, o experimentalismo e a organicidade sobrevoam a sua trajetória […]. Dois dados aparentemente ambíguos encontram uma simbiose perfeita”, avaliam.
Anos 1940
Os rumos que levaram Palatnik a trilhar um caminho alternativo e criar algo novo se misturam com sua história de vida. Nasceu em Natal (RN), no ano de 1928, filho de judeus russos. Em 1932, mudou-se para a cidade de Tel Aviv em Israel e, entre 1942 e 1945, frequentou a Escola Técnica de Montefiori, onde se especializou em motores de explosão. Todo aquele conhecimento tecnológico adquirido teria aplicações que iriam além de consertar motores ou carburadores quebrados. Também estuda pintura, desenho, história da arte e estética.
Em 1947 retorna ao Brasil e passa a residir no Rio de Janeiro aonde começa a circular no mundo artístico. Palatnik conheceu, em 1948, os artistas doentes mentais do Hospital Psiquiátrico Pedro II através do pintor carioca Almir Mavignier [1925-] que, junto com a Dra. Nise da Silveira, implantou o ateliê no manicômio. A partir dessas visitas ao hospital, ele abandonou tintas e pincéis e não voltou mais aos temas figurativos que pintava até então. E justificou:
“Eles não tinham aprendido nada na escola, não frequentavam ateliês, e de repente surgem imagens tão preciosas. De onde veio essa força interior? Não vou mais pintar porque minha pintura não valia nada, era uma porcaria”.
O encontro com o crítico Mário Pedrosa o resgatou para a vida artística. A partir da leitura do livro sobre Gestalt, de Norbert Wiener, indicado por Pedrosa, Palatnik avaliou que “tinha potencial para fazer algo”, conta.
A partir de seus estudos sobre psicologia da forma e cibernética, chegou à conclusão de que o artista não deve estar fadado somente à pintura, desenho, gravura ou escultura. E com essa constatação, começou seus estudos sobre luz e movimento, que deram origem aos Aparelhos Cinecromáticos e aos Objetos Cinéticos, fazendo dele um dos pioneiros da arte tecnológica no mundo.
Em 1949, ele começou a pesquisar sobre luz e movimento até criar/fabricar os “Aparelhos Cinecromáticos”. Seu ateliê era um quartinho na casa do tio, onde morava. Em um dia de falta de eletricidade, a imagem da luz de velas se movendo nas paredes lhe deu inspiração para os cinecromáticos – caixa com lâmpadas cujo deslocamento era acionado por motor, criando imagens de luzes e cores em movimento.
Anos 1950
Foi com o cinecromático “Azul e roxo em seu primeiro movimento” que Palatnik participou da I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. O trabalho considerado inovador ganhou uma Menção Honrosa pelo júri internacional da Bienal.
Ainda nos anos de 1950, Palatnik desenvolveu pesquisa em pintura abstrato-geométrica e em design de móveis. A exposição inclui peças de mobiliário assinadas por ele. É nessa época que o artista começa a pintar sobre vidro. Com o irmão, Palatnik funda uma fábrica de móveis que funciona 10 anos. Paralelamente continua participando de todas as bienais de São Paulo, participa de coletivas com o Grupo Frente [posteriormente os neoconcretos], mas não tinha interesse nos estudos teóricos do grupo e se afastou.
Em 1953 o artista expõe novos Cinecromáticos, na 2ª Bienal Internacional de São Paulo e na 1ª Exposição Nacional de Arte Abstrata, no Hotel Quitandinha. O envolvimento com questões construtivas e o diálogo permanente com artistas como Ivan Serpa e Almir Mavignier levam-no a participar da criação do Grupo Frente, em 1954. No mesmo ano expõe na primeira
coletiva do grupo, na Galeria Ibeu, Rio de Janeiro. Ainda na década de 1950, ele expõe em coletivas em Paris e Viena. A partir de 1959, leva o movimento para o campo tridimensional. Cria trabalhos em que campos eletromagnéticos acionam pequenos objetos colocados em caixas fechadas. Ao mesmo tempo em que inventa peças com que explora as possibilidades tecnológicas da arte, o artista faz quadros em superfícies bidimensionais.
“Polivolumes... caracterizam-se não só pela força de construção, singularidade das linhas, fantasia no rigor, execução técnica exemplar, mas ainda pela carga de liberdade poética que deslancham... Quando as vi — e toquei, pois são componíveis, aceitando a participação do fruidor — senti-me aliviado alguns minutos do peso da história, conferindo também por meio delas minha verdadeira identidade — a de poeta". (Murilo Mendes)
Anos 1960
Em 1962, inicia a série Progressões, na qual compõe efeitos óticos ao utilizar faixas sobre uma superfície. No trabalho, usa materiais como madeira, cartões, cordas e poliéster. Nas obras feitas com jacarandá, surgiu da observação de sobras de toras da madeira que uma serraria jogava fora. São “pinturas” formadas por sequências de lâminas finíssimas de jacarandá montados ritmicamente, aproveitando a materialidade dos veios, nós e outras marcas naturais da madeira. Palatnik usou o mesmo sistema com cartão cortado, também presente na mostra.
Em 1964, cria os “Objetos Cinéticos”, um desdobramento dos “Aparelhos Cinecromáticos”. No mesmo ano participa da Bienal de Veneza de 1964, o que deslancha sua carreira no circuito internacional. Os Objetos Cinéticos embutem a relação arte-tecnologia, novas conquistas da ótica, virtualidade da imagem e a insatisfação com a técnica pictórica do pincel. São aparelhos construídos por hastes ou fios metálicos que têm nas extremidades discos de madeira de várias cores. Hastes e placas são movimentadas por um motor, com variação de velocidade e direção.
Anos 1970 /1980 / 1990
“É curioso igualmente que a presente fase, ou maneira, de Palatnik, revele grandes afinidades com seu trabalho pioneiro feito à base de projeções luminosas. Nessas projeções, entretanto, a simetria não contava — ao contrário do que acontece em relação aos presentes trabalhos em madeira. Nem por isso deixa de se afirmar certa semelhança formal entre as duas fases. Na verdade, Palatnik refina a tal ponto seu acabamento e sua pesquisa de texturas que, algumas vezes, suas madeiras parecem adquirir transparência e, mesmo, uma quase iridescência”. (Jayme Mauricio - Texto publicado originalmente no jornal Correio da Manhã, em 10 de setembro de 1971)
Em meados da década de 1980, Palatnik mostra o seu traço inventivo e experimental na série de pinturas com barbante e tinta acrílica. A pintura ganha um volume sutil que produz um efeito ótico e equilibra o recurso precário do barbante com uma pesquisa sensível sobre o cinetismo e a possibilidade de expansão da forma e da cor através do movimento das linhas e do espectador em torno da obra.
Nas telas produzidas nos anos 1990, Palatnik aplica em sentido vertical finas camadas de cola sobre o plano, formando módulos de cor que transmitem um volume à pintura, um efeito semelhante ao que ocorre com a série Cordas.
Anos 2000
“Essa série (W) teve início em 2003 e partiu de uma tentativa de criar uma pintura que não é feita de forma tradicional, com pinceis, mas com placas de madeira pintada, que depois são cortadas em finas ripas, misturadas lado a lado pelo artista, para assim obter ritmos e efeitos óticos.
“Parece evidente que Palatnik sempre teve a pintura como referência, mesmo ao criar seus aparelhos cinecromáticos mecanizados (já na 1.ª Bienal, em 1951, ele apresentou um deles). E ela volta a afirmar sua primazia nas obras em acrílica sobre madeira da chamada série W, que, de certa forma, revisitam as telas em óleo sobre ripas de madeira do final dos anos 1970 e começo da década de 1980 - que registram experiências radicais com cartões e metais cortados com precisão cirúrgica.” (Antonio Gonçalves Filho – site Terra – 08/02/2020)
“Palatnik dinamizou a arte concreta expandindo-a para além de seu campo usual e integrou-a à vida cotidiana por intermédio do design. Ao longo de sua trajetória, produziu cadeiras, poltronas, ferramentas, jogos e sofás, entre outros objetos. Sua obra habita o mundo de distintas maneiras, apontando para uma formação incessante de novas paisagens e leituras à medida que diminui, desacelera e molda o tempo. Nesta exposição reunimos todos esses momentos da obra extraordinária de Abraham Palatnik. Uma obra que oferece ao público experiências marcantes e solicita, em troca, uma entrega total”. (Felipe Scovino e Pieter Tjabbes – Curadores da mostra)
Foto: Vagner Costa
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