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Onde o mar repousa em Minas: três décadas de Alguidares, o restaurante que fez da Rua Pium-í um porto baiano em BH
Desde 1996 casa comandada pela ‘arretada’ chef Deusa Prado preserva receitas, identidade e um público fiel que atravessa gerações
Há quase 30 anos em um casarão charmoso na Rua Pium-í, bairro
Sion, nascia um refúgio baiano no meio de Belo Horizonte. Não era
apenas um restaurante — era uma promessa: trazer para dentro da
capital mineira o calor, a cor e o sabor da Bahia, embalada por uma
saudade doce e vibrante do mar, da cultura e da generosidade que só a
culinária nordestina sabe traduzir. Esse lugar é o Alguidares, templo da
moqueca, do acarajé, da casquinha de siri e de tantas outras alegrias
que fazem do dendê um ritual afetivo.
A história da casa começa a ser desenhada no início dos anos 80
quando a chef e proprietária Deusa Prado, natural de Feira de Santana,
se mudou com o marido para Belo Horizonte, onde trabalhava na
distribuidora de medicamentos da família. Mas a inquietude criativa e o
desejo de empreender falaram mais alto. “Decidi abrir um restaurante de
comida baiana por perceber que havia uma brecha na cidade para esse
tipo de culinária”, afirma.
Assim, em 2 de fevereiro de 1996, numa espécie de pré-estreia
para amigos e vizinhos, a casa abriu suas portas para, logo em seguida,
apresentar-se à imprensa e ao público. Nesse primeiro instante, Deusa
convidou a arquiteta Márcia Carvalhaes para uma imersão em Salvador;
o objetivo era trazer para Belo Horizonte não apenas os sabores, mas a
atmosfera, as cores e a alma baiana. “Márcia percorreu a Bahia, catou
objetos, guardou imagens e, de volta a Minas, traduziu aquela vivência
numa decoração vibrante, repleta de peças da cultura afro-brasileira —
dentre elas, duas estátuas de madeira intituladas “Painho” e “Mainha”
que até hoje saúdam os visitantes logo na entrada”, conta Deusa.
Desde então, o Alguidares se tornou um destino fiel de quem
busca o sabor genuíno da Bahia sem ter que pegar estrada rumo ao
litoral. Com capacidade para cerca de 120 pessoas, o estabelecimento
recebe mensalmente mais de duas mil visitas, de um público tão fiel que,
em muitas ocasiões, ao voltar da Bahia, desembarca no Aeroporto de
Confins apenas para correr até lá, dizendo que não encontrou em terras
baianas a mesma intensidade e cuidado presentes em cada prato. É
esse acolhimento — nas panelas e no atendimento — que, para Deusa,
explica grande parte do sucesso da casa. “Nós nos preocupamos não
apenas com a comida, mas em ter um olhar atento e personalizado para
cada cliente, em receber bem. É isso que faz as pessoas voltarem”,
conta.
A crítica também reconhece esse protagonismo: o Alguidares já
venceu duas edições do Prêmio Cumbucca (2023/24), na categoria
Cozinha Brasileira – além de ter sido considerado hors concours na
edição deste ano ao lado de grandes restaurantes da cidade. A casa
também já foi premiada diversas vezes como a melhor de peixes e frutos
do mar de Belo Horizonte no prestigiado Prêmio Encontro Gastrô.
Recebeu ainda destaques na Revista Gula, Guia Quatro Rodas entre
outros espaços importantes.
Sabor sem abrir mão da identidade
O cardápio do Alguidares permanece praticamente o mesmo
desde o início, segundo Deusa — um sinal claro de que aquilo que
conquistou o público não precisa e nunca precisou de grandes
mudanças. As moquecas reinam absolutas: peixe, camarão, lula, até
lagosta, servidas em alguidar borbulhante, com leite de coco. Para os
veganos, a famosa moqueca Lázaro Ramos, com banana-da-terra e
coco, também ocupa lugar de destaque.
Mas como manter frutos do mar frescos em uma cidade tão longe
do mar? Deusa responde com orgulho: apesar de comprar em grandes
quantidades — cerca de uma tonelada de camarão e peixes por mês, só
para a casa —, ela recebe entregas semanalmente de fornecedores da
Bahia, Natal e Belém, garantindo frescor e qualidade.
Ainda assim, o segredo para conquistar o paladar mineiro,
conforme aponta a chef, está na sutileza. “Faço adaptações para que a
minha cozinha se aproxime do paladar dos mineiros, mas sem perder a
identidade baiana”, diz. Para isso ela usa menos dendê nas receitas
porque os mineiros, de modo geral, são mais avessos ao ingrediente tão
marcante da Bahia. Essa moderação mostra uma sensibilidade rara:
manter a essência, sem sacrificar a boa recepção.
O espaço que acolhe
O Alguidares é mais do que a comida — é cenário, é conforto, é
memória. Com 16 colaboradores, a casa é gerida com carinho e
profissionalismo. O gerente operacional, Alfredo Melo, cuida para que
cada detalhe funcione: da cozinha ao salão, do atendimento à
experiência visual. A décor, com dezenas de objetos trazidos por Deusa
de suas viagens, quadros africanos, peças portorriquenhas que remetem
ao Pelourinho, e estátuas icônicas de madeira, evocam um Brasil
profundo, vivo e colorido.
Em 2020, no auge da pandemia, o restaurante precisou fechar
temporariamente para reformar o salão, a entrada e a cozinha. Retornou
pouco depois com nova cara — pisos novos, azulejos, decoração
repaginada, mas com a mesma alma de sempre. “Faço pinturas anuais,
mudo a cortina, tal como na nossa casa a gente muda as coisas, de
tempos em tempos. Mas o que não mudo é a essência do lugar. Quero
que os meus clientes se sintam confortáveis, como se estivessem
almoçando com os amigos em sua sala de estar. Quero que eles, mesmo
com todas as mudanças físicas, sintam o mesmo frescor do primeiro dia
em que abri as portas. É esse jeito acolhedor, que acredito ser a nossa
marca”.
Sócia do estabelecimento junto com Hidelbrando “Brando” Mota,
Deusa destaca ainda que sua curiosidade e paixão pela cozinha
contribuíram para que o Alguidares apresentasse uma culinária
autêntica, sem escorregar no estereótipo. “O que eu mais quero para o
futuro é que continuemos crescendo. Não pretendo abrir filiais em outros
lugares. O nosso canto é a Rua Pium-Í, mas não descarto novas
mudanças físicas”, revela, com o olhar inquieto, típico de quem ama seu
ofício.
Ao fazer uma retrospectiva de sua trajetória, a chef baiana afirma
que celebrar três décadas de Alguidares vai muito além do marco
temporal: é celebrar uma ponte de sucesso entre a Bahia e Minas, feita
de panelas fumegantes, abraços, cores e histórias. É reconhecer que a
gastronomia tem esse poder mágico de transformar saudade em
encontro, distância em lar, cultura em comunhão. “Em cada moqueca
servida, em cada sorriso recebido, em cada cliente que insiste em voltar,
pulsa uma história de dedicação. E é por isso que, depois de 30 anos, o
Alguidares continua sendo, para muitos, não apenas o melhor
restaurante baiano de Belo Horizonte, mas um pedaço de casa — um
alguidar transbordando vida.”
Moqueca de camarão do Alguidares
Ingredientes
● 300 g de camarão descascado;
● 2 tomates cortados em fatias;
● ½ cebola cortada em fatias;
● 300 ml de suco de tomate (2 tomates com casca e 1 cebola sem
casca batidos no liquidificador);
● 250 ml de leite de coco;
● 100 ml de leite de vaca;
● 30 ml de azeite de dendê;
● Sal, cebolinha e coentro a gosto.
Modo de preparo
1. Bata dois tomates com casca e uma cebola sem casca no
liquidificador e reserve a mistura;
2. Fatie os tomates e a cebola;
3. Coloque os tomates cortados, a cebola cortada, o suco de tomate,
o leite de coco, o leite de vaca, o azeite de dendê, sal, cebolinha e
coentro a gosto na panela e deixe ferver;
4. Acrescente os camarões temperados com sal e pimenta e mexa
por cerca de 5 minutos;
5. Sirva acompanhado de arroz branco.
Serviço
Alguidares - Rua Pium-í, 1037 – Sion
RESERVAS: 3221-8877 | 2555-8134
https://www.instagram.com/alguidares/
Foto: Bruno Werneck
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